Primeiro ao terceiro dia após a morte
1. Natureza da morte: separação da alma e do corpo
Como em outras tradições, o cristianismo considera que a morte, enquanto evento, é a separação da alma e do corpo pela saída da alma fora do corpo. Esta definição consta de inúmeros escritos dos Padres e se reflete nos ofícios da Igreja ortodoxa que precedem, acompanham e seguem a morte.
Sendo a alma para o corpo o princípio de sua vida (aquilo que o anima), de sua organização, de seu movimento, de sua conservação, o corpo cuja alma se separou torna-se inerte; cessa de ser um organismo, seus constituintes perdem sua unidade e sua relação e se dissolvem. Neste sentido que o homem, originário da terra, retorna à terra (v. afar; Gen 3,19 ).
Quanto à alma, separada do corpo, continua a existir e a viver: ela é imortal. A morte é portanto apenas a morte do corpo. A alma, privada do corpo, encontra-se assim privada de suas faculdades relativas à vida do corpo e a suas relações com ele; ela está privada de sua atividade, as faculdades retornando assim ao estado de potencialidade, como era antes da concepção e antes da formação completa do corpo, quando a alma presente com todas os seus poderes, acompanhava e conduzia o desenvolvimento do corpo para os exercer, enquanto faculdades.
2. A separação da alma e do corpo se faz mais ou menos facilmente
A separação é um processo natural que pode sofrer interferências de diferentes fatores sobrenaturais e espirituais para acelerá-lo e facilitá-lo, ou retardá-lo e dificultá-lo.
As paixões pesam sobre a alma tornando difícil sua elevação, aprisionando-a ao corpo tornando difícil sua separação. As virtudes, testemunham uma constante luta (agon) com as paixões, e uma tentativa permanente de ligação ao mundo celeste e elevação a Deus, facilitando a separação da alma e sua ascensão.
Os anjos e demônios presentes ao leito da morte disputam a alma quando esta não se manteve do lado celestial pelo exercício das virtudes. Enquanto os anjos buscam elevar a alma com eles, os dem6onios buscam ao contrário mantê-la no corpo e nos limites deste mundo, o que lhes é tanto mais fácil quanto mais a alma está apegada ao mundo.
3. Presença da alma na terra durante os três dias que seguem a morte
Certo número de Padres consideram que durante os três dias que seguem à morte “clínica” (a morte definida pela medicina, de um ponto de vista externo), a alma “permanece na terra”. Os antigo pensavam que nestes três dias a alma podia ainda retornar ao corpo, como indicam ressurreições miraculosas.
Macário de Alexandria afirma que a alma, restando sobre a terra após a morte, aí «consola as pessoas de sua casa e o corpo do qual saiu». Ele precisa ainda: «A alma é deixada durante dois dias com os anjos, aqueles que a elevaram, para que ande com eles e vá por toda parte onde queira. E tem saudade de seu corpo, vai um tempo junto a ele no túmulo; (ela vai por vezes também) um tempo junto de seus próximos, aí onde ela estava acostumada, e estes dois dias passam assim enquanto ela voa, circula, e busca aqueles que a amam, assim como um pássaro busca seu ninho. Igualmente, uma alma virtuosa vais nos lugares onde tinha o costume de praticar boas ações». Teofano o Recluso compartilha a mesma concepção; escreve a um de seus filhos espirituais cuja irmã está morrendo: «Durante os primeiros dias, ela permanecerá ao teu redor, mas somente ela não te falará e não poderás vê-la; mas ela aí estará». São frequentes alguns relatos de aparições de mortos, em sonhos ou em estado de vigília, a membros de seu círculo, durante os primeiros dias que seguiram sua morte..
O terceiro dia que, com o nono e o quadragésimo dias, é fortemente valorizado no quadro da liturgia da oração pelos mortos, e que nos antigos textos cristão se vê acordar mais lugar que o dia mesmo do enterro, marca o fim deste processo de separação e o acesso a uma outra etapa da vida post-mortem. Em relação simbólica com a ressurreição do Cristo (realizada também no terceiro dia), produz-se a elevação da alma aos céus.
4. A morte como processo.
A morte não é assim considerada um evento pontual, instantâneo e irreversível, como considerado pela medicina. Há um momento de morte “clínica”, onde os sinais vitais não são mais observados, e a alma sai do corpo. Mas o processo de separação só é definitivo após três dias, e, mesmo assim, não pode ser considerado como completo. Como atesta Atanásio: «A alma não saiu totalmente do corpo». A tradição ortodoxa considera portanto a morte — separação da alma do corpo — como um processo se desenrolando em um período de três dias.
5. Implicações éticas.
Face a essas afirmações da tradição cabem reflexões de ordem ética, sobre os procedimentos diante da morte.
Primeiro não proceder a inumação do defunto antes que se complete este período de três dias.
6. O desafio da separação da alma e do corpo
A separação da alma e do corpo é para os santos não apenas fácil mas fonte de alegria, como informam inúmeros registros dos Padres. Assim Teognosto escreve: «Inefável e inexprimível é o prazer da alma que, em um sentimento de certeza espiritual (plerophoria), se separa do corpo e se despoja dele como de uma vestimenta. Com efeito, quando ela já obteve dele o que ela espera, ela se desprende do corpo sem tristeza».
No entanto, para o homem ordinário que a temia à aproximação da morte, esta separação é agora experimentada com um certo sofrimento e constitui uma nova adversidade. Os serviços litúrgicos dos funerais evocam « a penível separação da carne» e se lamentam assim: «Que angústias suporta a alma quando é separada de seu corpo!». Macário de Alexandria evoca esta provação nestes termos: « A alma sofre da separação do corpo, seu companheiro; isto lhe é coisa penível e ela chora por causa da dissolução de sua comunhão com ele, dado que ela está privada de sua sociedade». E João Crisóstomo, comentando palavra de Paulo Apóstolo: «Gememos, porque queremos ser despojados» (2Co 5,4), nota: «Parece penível para maior parte deixar seu corpo (...) e com efeito a alma experimenta muita pena a se separa do corpo».
A dificuldade de se separar do corpo e a pena que se experimenta não são obrigatoriamente sinal de apego patológico ao corpo, desta paixão de philautia (amor apaixonado de si) que Máximo o Confessor define como «carinho pelo corpo» em um sentido negativo e na qual vê a fonte de um sofrimento natural que provoca a ruptura dos dois elementos constituindo juntos e indissociavelmente a natureza humana e que a pessoa portava nela de maneira unificada. Esta separação é portanto um processo contra natureza; ela é de certo modo uma violência feita à natureza e à harmonia do composto humano, como o indica João Damasceno no Cânon que escreveu para o ofício dos funerais do leigos: «Terrível em verdade é o mistério da morte, como a alma é violentamente separada do corpo, de sua harmonia, e como sua ligação muito natural de parentesco é rompida pela vontade divina».
Como indicado este processo de separação se cumpre pela vontade divina, a ação de Deus sendo aqui providencial posto que se trata com efeito de dissolver o composto humano em seu estado caído (quer dizer submetido à corrupção) para o reconstituir ulteriormente em um estado melhor, incorruptível.
7. A assistência espiritual dos próximos ao morto e da Igreja
Por ser a separação da alma do corpo uma prova penosa, as orações dos próximos ao morto e da Igreja são fundamentais para ajudar e consolar àquele que sofre esta prova. Segundo a tradição ortodoxa, estas orações devem se prolongar durante os três dias que se seguem a morte: os parentes e amigos do morto se revezando ao seu redor para ler e reler o saltério em sua íntegra, e orando para que ele encontre repouso.
Nos ofícios do funeral a Igreja demanda igualmente várias vezes o repouso da alma do morto, neste momento, nos momentos que seguem e em sua vida ulterior, onde novas provas e fontes de problemas e de sofrimento de ordem espiritual o atormentam, mas que podem ser evitadas não somente em razão de suas qualidades espirituais que adquiriu em sua vida terrestre, mas também devido as orações da comunidade eclesial em seu favor.
8. O estado espiritual da alma após a morte.
Depois da morte, com efeito, a alma permanece marcada pelas paixões que a afetaram em vida. S. Macário da Alexandria nota de modo simbólico: “O fedor do odor de suas obras más adere à alma pecadora quando ela tem um corpo; mas após sua morte, estas afetam ainda mais tomando a forma de trevas e negrume. Por algumas paixões a alma permanece ligada ao mundo. Alguns Padres dizem de modo simbólico que ela está pesada e que assim tem dificuldade de ascender. S. Gregório de Nissa convida os fiéis a fazer o possível para evitar esta deficiência: “É preciso que, o mais que possível, aqueles que vivem na carne se afastem de qualquer maneira e se libertem de sua relação com ela, graças a uma vida virtuosa, a fim de que após a morte não tenhamos necessidade de uma outra morte que faça partir pela purificação os restos da cola carnal, mas que, como se as ligações a volta da alma estivessem rompidas, leve e livre seja seu curso para o Bem, nenhum peso corporal a retendo na sua ascensão para ele. Pois se nos tornamos, inteiramente e em todas as coisas, carnal em nosso pensamento, absorvendo toda a iniciativa e toda a atividade de nossa alma nas vontades da carne, não nos separamos das paixões carnais; mas, assim como aqueles que residiram muito tempo em lugares fétidos e que, mesmo passando a um ar mais agradável a respirar, não se desembaraçam do mal odor que uma frequentação prolongada lhes imprimiu, assim na passagem à vida sem forma e toda pura, é impossível que os amigos da carne não carreguem com eles nada em absoluto do mal odor carnal; também a dor os oprime bastante, sua alma tendo se tornado material em tal ambiente” (Sobre a alma e ressurreição). Note-se de passagem que é desta maneira que Gregório de Nissa explica a existência de fantasmas: “Parece que em um sentido se acorda a uma tal concepção aquilo que, no dizer de alguns, se vê frequentemente ao redor dos túmulos dos mortos, fantasmas sombrios dos mortos. Se assim é verdadeiramente, isto demonstra a afeição apaixonada, além do necessário, que conhece agora a alma pela vida carnal; tanto que, mesmo arrancada da carne, ela não consente simplesmente em ascender longe dela e não admite também a transformação completa de seus traços exteriores naquilo que é invisível: ao contrário, ela permanece ainda ligada à forma visível depois que esta foi destruída e, quando está doravante fora dela, por nostalgia ela erra nos lugares onde se encontra a matéria e vem assombrá-la.” (Sobre a alma e a ressurreição).
De uma maneira geral pode-se afirmar que as almas deixando o corpo guardam os bens e os males espirituais que adquiriram durante sua vida terrestre em sua relação com o corpo, e assim ficam no estado espiritual onde a morte as encontrou.
É importante notar que assim sendo é impossível doravante mudar o que quer que seja. A razão é que a alma está separada do corpo e privada das condições terrestres que lhe permitiriam levar uma outra vida e modificar sua conduta. O arrependimento no além se torna impossível, pois lá o que leva seus frutos, é o que teve princípio aqui, segundo o Arquimandrita Justino Popovitch. Assim nos ensina o Evangelho quando dá a esta visão sobre a terra o nome de semeadura e à vida do além o nome de colheita.
9. A subsistência da ligação da alma e do corpo na permanência da hipóstase
Depois que a alma se separa do corpo, este não retorna pura e simplesmente ao nada, e seus elementos, dispersados, dissolvidos e misturados a outros elementos materiais, não se tornam por conseguinte qualquer “resíduo”. Dionísio o Areopagita o salienta, assim como Gregório de Nissa que escreve: com a morte, “a parte sensível se dissolve, mas não é destruída, pois a destruição é a passagem ao nada, enquanto a dissolução é o retorno desta parte aos elementos do mundo, de onde ela se formou, e sua dispersão. Aquilo que se encontra neste estado não morreu, embora escapando a nossa percepção sensível” (Discurso catequético). Isto leva João Crisóstomo a dizer que “a morte vem destruir aquilo que há de corruptível em nós, mas não destrói (melhor dizendo) o corpo (Homilias sobre a segunda epístola aos Coríntios, X,2).
Seria um erro igualmente “imaginar que a ligação dos corpos com suas próprias almas se rompe para sempre”.
Se a morte põe fim à ligação natural da alma e do corpo em um composto, em revanche ela deixa subsistir sob uma certa forma a ligação natural deles, e de maneira plena sua ligação hipostática. Não se pode considerar que o morto se reduziria doravante a sua alma enquanto seu corpo, destinado à dissolução, perderia toda relação com ele e não seria mais nada. Do mesmo modo que a alma é a alma da pessoa morta, seu corpo, mesmo no estado cadavérico ou de esqueleto, permanece seu corpo. Além da morte, a alma e o corpo guardam, em sua relação à pessoa (ou hipóstase) da qual são a alma e o corpo, uma ligação irremovível e inalienável entre eles e com esta pessoa (ou hipóstase). Maximo o Confessor desenvolveu particularmente estas considerações antropológicas. Depois da morte, escreve ele, a alma não está completamente dissociada do corpo, pois “após a morte do corpo uma alma não é simplesmente chamada alma, mas alma de um homem, e de tal homem (quer dizer de uma pessoa determinada, pois ela possui mesmo depois (de ter saído) do corpo, como sua forma (eidos) inteira, a entidade humana à qual ela é relativa enquanto parte. Da mesma maneira se passa para o corpo, que é mortal por natureza, mas que, segundo a vinda à existência, não existe separadamente. Depois de sua separação da alma, não é dito simplesmente corpo, mas corpo de um homem, e de tal homem, mesmo se tenha sofrido a corrupção e que seus elementos constitutivos tenham se dissolvido. Com efeito, possui como sua forma (eidos) inteira a entidade humana à qual é relativo enquanto parte. Nos dois casos, a relação — aquela da alma e do corpo — concebida sem falta como relação das partes de um todo que é a forma (eidos) humana, implica também a vinda à existência simultânea das partes deste todo, e indica sua diferença mútua segundo a essência, sem que de alguma maneira sejam alterados os logoi que lhes são próprios por essência. É, portanto, absolutamente impossível, encontrar ou dizer a alma e o corpo desligados de relação (um com o outro). Outro de cada um é introduzido ao mesmo tempo que ele (...). E a relação deles é imutável" (Ambigua a João, 7).
Gregório de Nissa aborda esta questão sob outro ângulo. Explica que a alma jamais esquece os elementos do corpo quando, em seguida à morte, eles foram dispersos, assim como o pintor misturando tintas para fazer uma nova cor, não esquece as tinta das cores que serviram para fazer a mistura, ou assim como um criador não esquece os animais que lhe pertencem e sabe os encontrar quando estão dispersos entre aos animais de outros criadores no seio de um mesmo rebanho, ou ainda assim como os proprietários de diferentes recipientes em barro que foram reunidos e quebrados saberão reconhecer entre os fragmentos misturados aqueles que constituem sem bem próprio. Mesmo na morte, a alma guarda a memória não apenas do corpo global mas de seus diferentes constituintes e resta de certa maneira presente a cada um deles, qual possa ser seu estado de alteração em relação a seu estado original: “A alma conhece, mesmo depois de sua dissolução, a natureza própria dos elementos reunidos para constituir o corpo com o qual ela nasceu; mesmo se a natureza os leva longe uns dos outros por causa das oposições que guardam, impedindo cada um deles de se misturar com seu contrário, a alma será no entanto perto de cada um, ela que por seu próprio poder de conhecimento (gnosis — episteme) se une àquilo que lhe é próprio e habita perto dele até que se faça de novo a reunião em um mesmo ser dos fragmentos separados, com vistas a reconstituir aquilo que foi dissolvido; e isto, no sentido próprio, é o que se chama a ressurreição" (Sobre a alma e a ressurreição). Inversamente, após a separação da alma do corpo, o corpo permanece de alguma maneira presente à alma, como Gregório de Nissa faz notar: "O passagem do Cristo pelo Inferno ( Lc 16, 19 ) mostra que na alma, mesmo depois de sua separação, permanecem marcas distintas do composto que fomos: enquanto os corpos estão depositados no túmulo , as lamas conservam algum sinal corporal, que permitiu de reconhecer Lázaro e não permitiu ao rico de ficar incógnito" (A criação do mundo). Apesar das diversas alterações que pode sofrer no curso de sua existência terrestre (pelo fato por exemplo da mudança de idade) e pelo fato da morte (que provoca a dispersão e a dissolução dês seus componentes), o corpo possui uma forma (eidos — estrutura, plano, espécie de “Ideia”, arquétipo, mas personalizado, que permanece invariável sob as alterações que afetam suas expressões materiais e sua aparência externa) que reta imutável e cuja alma conserva a marca permanentemente nela, mesmo além da morte. É graças a isso que, quando da ressurreição, os diferentes elementos poderão ser reunidos e reconstituídos para formar o corpo ressuscitado. "As diferenças nas combinações (da matéria) dão à forma (eidos) aspectos diferentes; por outro lado, esta combinação nada mais é que a mistura dos elementos primeiros (assim chamamos os elementos que são os princípios constitutivos do todo e pelos quais também é composto o corpo humano). Em consequência, como a forma (eidos) do corpo resta na alma que é como a marca me relação ao selo, os materiais que serviram para formar a figura sobre o sinete não permanecem ignorados da alma, mas, no instante da ressurreição, ela recebe de novo nela tudo que se harmoniza com a marca deixada nela pela forma (eidos) do corpo. Se harmonizam então inteiramente com ela estes elementos que desde a origem formaram esta forma” (A criação do homem). O corpo ressuscitado será certamente renovado e diferente de sua condição atual, mas conservará no entanto sua identidade pessoal e se situará deste ponto de vista na continuidade do corpo atual, o ressuscitado encontrando seu corpo (e não aquele de um outro ou um outro corpo), mas em uma modalidade de existência diferente. Esta preservação da identidade pessoal e esta continuidade devem portanto igualmente subsistir entre o momento da morte e o da ressurreição, mesmo quando os elementos do corpo estejam dispersos e profundamente alterados, ou seja dissolvidos. “Não é impossível, escreve Gregório de Nissa, que os elementos se reúnam de novo uns com os outros e que seja perfeitamente constituído o mesmo homem. (...) Se os caracteres próprios não reaparecem com exatidão, e se são retomados daquilo que tem uma origem semelhante e não daquilo que propriamente caracteriza, seria questão de um segundo ser no lugar do primeiro, e tal coisa não poderia ser a ressurreição, mas a criação de um novo homem. Se é preciso que a mesma pessoa retorne a ela mesma, é conveniente que ela seja absolutamente idêntica a ela mesma, retomando sua natureza original, com todos os elementos que constituem as partes” (Sobre a alma e a ressurreição, 60). Eis porque Gregório de Nissa retorna sobre sua “concepção da alma segundo a qual os elementos onde ela desde a origem nasceu são aqueles em que ela permanece mesmo depois de sua dissolução, como se ela tivesse se constituído guardiã daquilo que é dela;: quando se faz o retorno àquilo que tem a mesma natureza (quer dizer o corpo à terra), ela não abandona seu próprio bem, graças à sutileza e a mobilidade de sua substância espiritual; ela não se perde por conseguinte nas divisões sutis dos elementos; pelo contrário, ela se introduz nas partes que lhe pertencem e que revêm se misturar naquilo que tem a mesma natureza, e não perde nada de seu vigor os acompanhando em sua travessia quando o universo as reabsorve; ela permanece sempre nelas, em algum lugar e de alguma maneira que a natureza as dispõe” (Sobre a alma e a ressurreição, 61).
10. O estatuto espiritual do corpo depois da morte
O corpo após a morte continuando a estar em relação com a alma do morto e, qualquer que seja seu estado, a pertencer a sua pessoa, merece o respeito devido à pessoa ela mesma.
É significativo a este respeito que o Cristo Ele mesmo, no episódio onde Maria Madalena derrama perfume sobre sua cabeça, fale de Seu enterro e não do enterro de Seu corpo: “Ora, derramando ela este unguento sobre o meu corpo, o fez preparando-me para o meu sepultamento” (Mt 26:12).
Isso explica os cuidados dos quais o corpo é objeto depois da morte, nos ritos funerários em especial, onde o corpo é lavado, perfumado, revestido de hábitos limpos, corretamente posicionado, coroado, abençoado, incensado, beijado na fronte e de diversas maneiras honrado. No Antigo Testamento, os ritos de embalsamento tomam uma importância particular e duram até quarenta dias (ver Gen 50,3). Seu valor é confirmado no Novo Testamento pela intervenção, depois da morte do Cristo, das "mulheres myrophores" (carpideiras) e, de modo antecipado, pelo episódio onde Maria Madalena derrama "um perfume muito precioso" sobre a cabeça do Cristo que responde aos discípulos indignados por este desperdício: “Ora, derramando ela este unguento sobre o meu corpo, o fez preparando-me para o meu sepultamento” (Mt 26:12).
A relação íntima do corpo morto à pessoa do morto explica também que a gente se recolha diante da sepultura deste último considerando que esta não contém somente seu corpo, mas que sua alma aí está também de certa maneira presente, e que se ore diante dos “restos” como diante de sua pessoa inteira.
A relação íntima que o corpo do morto conserva com sua pessoa se revela também no fato que o desejo de um moribundo de habitar “no seio de Abraão” próximo de seus ancestrais ou de seus próximos falecidos antes dele, se acompanhe do desejo de ser enterrado a seu lado ou de ver seus ossos postos a lado dos seus. A Escritura dá vários exemplos, Assim Jacó disse a seus próximos: “Vou me reunir aos meus. Enterrado perto de meus Pais” ( Gen 49, 29 ). José demande a seus irmãos que quando eles forem na terra prometida, carreguem com eles seus ossos ( Gen 50,24-25 ). Encontra-se igualmente muitos exemplos nas Vidas dos santos, da Antiguidade a nossos dias.
Os cuidados aportados aos restos mortais do morto seguem muito além do período de falecimento. É costume na Grécia e em outros países ortodoxos, exumar com respeito os ossos do morto cerca de cinco anos após seu falecimento, de lavá-los com vinho e de colocá-los em uma pequena caixa concebida para tal; são em seguida levados à igreja para um serviço comemorativo, depois postos em um ossuário, na espera da ressurreição (ver Ez 37,1-14),
Os cuidados aportados aos “restos" corporais do morto, a preocupação com sua conservação, se acompanham de veneração no caso de relíquias dos santos. As considerações precedentes permitem compreender esta veneração que, na Igreja ortodoxa, é equivalente aquela da veneração dos ícones. Segundo a concepção de Gregório de Nissa apresentada acima, a alma do santo permanece em certa medida presente em suas relíquias, como a alma de todo homem aos restos de seu corpo. Mais ainda: as relíquias do santo se ligam a sua pessoa, continuam a dela fazer parte; participam portanto da santificação e da deificação de sua pessoa inteira, alma e corpo; são portadoras de energias divinas que santificaram e deificaram o santo. Eis porque as relíquias têm o poder de fazer milagres, como o atestam numerosas Vidas de santos. Mas evidentemente as relíquias não devem ser nem adoradas (a adoração é devida apenas a Deus) nem veneradas nelas mesmas: devem sempre ser relacionadas à pessoa inteira do santo, e é o santo que deve ser venerado através delas; os fiéis que veneram as relíquias o fazem, aliás se dirigindo à pessoa do santo.
Os argumentos precedentes explicam a reticência da Igreja ortodoxa no tocante à cremação dos corpos.
Essa reticência não é nova nem ligada ao desenvolvimento da cremação que conhecem as sociedades modernas: sabe-se que esta prática é corrente depois há milênios nas religiões não cristãs, e que ela era muito disseminada no mundo antigo no momento do nascimento e do desenvolvimento do cristianismo. De imediato os cristãos optaram pela inumação e rejeitaram a cremação, e esta última, que era muito disseminada no mundo romano, acabou por aí ser totalmente abandonada no século V sob a pressão do cristianismo dominante.
No Antigo Testamento, a cremação era considerada como uma ação condenável ( Am 2,1 ) e era praticada como um agravamento da pena de morte ( Lv 20,14). A tradição patrística, na mesma linha, condena geralmente a cremação como desonrosa para o morto. O respeito da palavra divina: "... porquanto és pó, e ao pó tornarás” ( Gen 3,19 ) contribuiu, ao contrário, para valorizar a seus olhos a inumação. A cremação é percebida como um aniquilamento (quer dizer uma redução ao nada) dos restos mortais que contradiz a preocupação de preservar os restos do morto (em particular seus ossos) na espera da ressurreição. A tradição cristã guarda a este respeito por modelo a maneira como corpo do Cristo, depois de Sua morte, foi preciosamente disposto em um túmulo novo ( Mt 27, 57-61; Lc 23, 50-56; Mc 15,42-47; Jo 19, 38-42 ), na espera de Sua ressurreição. Como escreve P. Serge Boulgakov: “O corpo do morto é enterrado com reverência como grão do corpo futuro da ressurreição; certos escritores antigos têm o rito funerário por um sacramento” (A Ortodoxia).
A importância das relíquias e sua veneração na Igreja ortodoxa explicam sem dúvida, por um lado, a reticência experimentada quanto à cremação: se esta tivesse sido ou fosse sistematicamente praticada, não haveria mais relíquias. Isso afetaria não somente as relíquias dos santos, mas igualmente aquelas dos simples fiéis. Com efeito, segundo a linguagem litúrgica do Ritual, a palavra “relíquias” não está reservada aos restos dos santos, mas igualmente àqueles de todos os fiéis, cuja alma está em certa medida presente em seus restos corporais, cujos restos permanecem ligados e pertencem sempre a sua pessoa, e participam ao grau de santificação obtido por cada um, o corpo tendo sido o companheiro da alma na prática das virtudes e na recepção da graça divina. Pode-se adicionar a isso que “o corpo enterrado guarda a capacidade de ser glorificado”, na vida futura, após a ressurreição em um corpo, que se será novo (sendo um corpo espiritual e celeste em lugar de um corpo psíquico e terrestre, cf 1Co 15, 35-53), não será todavia sem continuidade com o precedente.