VIDE: Iah
Madeleine Scopello: Excertos de MULHER, GNOSE E MANIQUEÍSMO, com tradução adaptada e anotada por Antonio Carneiro
Voltando aos tratados de Nag Hammadi que consideramos na abertura, é necessário se colocar a seguinte questão: por que os autores do Alógeno, de Zostriano e do Evangelho dos Egípcios associaram de diferentes maneiras, uma entidade angélica com algo um pouco misterioso, ou seja, Youel, com um dos personagens da mitologia gnóstica, Barbelo? Para tentar dar uma resposta a esta questão, é necessário de início retraçar a história de Youel.
O nome Youel atestado no gnosticismo não pode deixar de lembrar Yaoel, que se encontra em um escrito esotérico judaico influenciado pelas especulações místicas da Merkaba: o Apocalipse de Abraão. Este tratado, conservado em eslavo antigo, traz, em sua segunda parte, uma atenção toda particular às progressões extáticas do Patriarca. Relata-se aí, com efeito, a viagem ao céu de Abraão, guiada por um anjo que responde pelo nome de Yaoel. O objetivo da viagem é a contemplação do carro e do trono divinos, ao qual Abraão alcança após uma arriscada ascensão.
O Senhor tendo dado uma ordem de oferecer um sacrifício para Abraão, este último, escutando Sua voz, tombou em um pavor extático (ApocAbr. X, 2-3). Foi nesse meio tempo que se manifestou Yaoel, enviado pelo Senhor para reconfortar o Patriarca. Ora o anjo que Deus enviou a Abraão não é um anjo qualquer: é o anjo do Nome, é o próprio Nome de Deus. O capítulo X, 4 do Apocalipse de Abraão se exprime de modo explícito sobre esse assunto: « Como ainda estava de face contra terra, escutei a voz do Santo qui dizia: Vá, Yaoel, tu que levas Meu nome, por meio de Meu nome inefável erga esse homem e fortifica-o expulsando seu terror! ». Em ApocAbr. X, 8, ele mesmo, o anjo se apresenta assim: « Eu, eu sou Yaoel, assim nomeado por Aquele que faz mover o que está comigo sobre o sétimo espaço no firmamento. Sou um Poder, graças ao nome inefável que está em mim ».
Com efeito, Yaoel é um nome tetragramático, forjado a partir de duas letras tiradas do Tetragrama as quais se acrescentaram duas letras do nome Elohim (ou melhor, da palavra El que constitui a abreviação). De Yaoel, anjo de inefável beleza, esse Apocalipse apresenta igualmente uma descrição onde o vê dotado de atributos reais: a púrpura1 e o cetro (ibid. XI). Doravante Yaoel vai ser o companheiro de Abraão — sua única visão lhe é alimento, suas palavras lhe são bebida. Durante quarenta dias e quarenta noites seguem, e o anjo instrui Abraão sobre o sacrifício que Deus lhe ordenou de cumprir. Guia, instrutor, mas também conselheiro: Yaoel indica à Abraão o comportamento a ser mantido para escapar do anjo da impiedade, Azazel (ibid. XIII-XIV). Em seguida, é contada a ascensão ao céu que Abraão e Yaoel empreendem sobre as asas de uma pomba (Columba palumbus) e de uma rola (Streptopelia turtur)2 . Elevamo-nos como se estivéssemos sustentados por numerosos ventos, sobre o céu fixado na vastidão. Vi no ar (...) uma potente Luz que não saberia descrevê-la » (ibid. XV, 4). Diante desta visão insustentável — « não pude mais ver, pois estava enfraquecido e meu espírito me deixou » — Yaoel tranquiliza Abraão — « fica comigo, não tenhas receio » — e explica: « aquele que verás vir direto sobre nós com grande voz de santidade, é o Eterno que te amou» (ibid. XVI, 3). Rodeados por um fogo de onde se desprende uma voz, o anjo se inclina, e adora. Abraão doravante não tem mais marcas, tomado de êxtase: « quis me lançar com a face contra terra, mas, o lugar elevado sobre o qual encontrávamo-nos estava, ora no alto, ora em baixo ». E Yaoel falou assim: « Inclina-te apenas, Abraão, e dize o hino que te ensinei. Pois, não existe solo onde cair. Inclinei-me apenas e disse o hino que havia me ensinado. Disse: 'Recite sem parar' » (ibid. XVII, 4-7). Ao uníssono Abraão e Yaoel cantam um hino, que é a invocação dos nomes e dos atributos do Eterno e o qual se reterá aqui essas linhas essenciais (ibid. XVII, 11):
Esta invocação de aspecto tetragramático — a palavra El é repetida quatro vezes — é completada pela menção do nome de Yaoel, nome do anjo e nome divino ao mesmo tempo. É provavelmente nesse segundo sentido que seja percebido aqui.
Em seguida, é a visão da Merkaba que se abre ao “iniciado nos Mistérios” e ao seu Guia (ibid. XVIII).
Yaoel, portador do Nome (ApocAbr. X, e XII, 11), é então, maneira de dizer, o Tetragrama. Uma passagem bíblica serviu de ponto de partida para a elaboração desse tema — tratou-se de Ex 23, 20-21: « Eis aqui que envio um anjo diante de ti para te guardar no caminho e fazer entrar no lugar que preparei. Presta atenção a ele e escuta sua voz (...) visto que Meu nome está nele ». O anjo marcado pelo selo do Nome leva assim igualmente nele aspectos do ser divino, tornado presente por seus nomes. A advertência feita ao iniciado significa que esse anjo, é, conforme seu nome, portador do poder divino.
Ao anjo Yaoel foram associadas especulações concernentes à Metatron, o primeiro dos anjos, guia celeste do iniciado, conhecedor e revelador dos mistérios.
NOTAS: