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id da página: 9832 Henry Corbin – No Islame Iraniano II – Obra de Sohravardi Sohravardi

Corbin Obra Sohravardi


CORBIN, Henry. En Islam iranien: aspects spirituels et philosophiques II. Paris: Gallimard, 1991

Para obter uma ideia completa do que Sohrawardi buscou e realizou, a leitura de seu grande livro, intitulado Kitab Hikmat al-Ishraq, é essencial. No entanto, não se pode isolar essa obra dos comentários que, século após século, ampliaram a doutrina ishraqi no Irã, o que torna a tradução completa um projeto de vastas proporções.


O projeto de uma vida: a ressurreição da sabedoria oriental

  • A teosofia do Oriente das Luzes: A obra principal, Kitab Hikmat al-Ishraq, é também conhecida como "Teosofia do Oriente das Luzes" ou "Livro da Teosofia Oriental".
  • A inspiração do Espírito Santo: Sohrawardi declara que o livro foi inspirado de uma só vez pelo Espírito-Santo, que para os filósofos islâmicos é o Anjo da Revelação e do Conhecimento, mesmo que a redação tenha levado meses devido às suas viagens.
  • Crítica à filosofia convencional: Sohrawardi critica os filósofos de sua época, como Ibn Sahlan, acusando-os de desperdiçar tempo com construções intelectuais estéreis que interrompem a sabedoria-teosófica e fecham o caminho para o Malakut (o mundo espiritual).
  • A necessidade da experiência espiritual: A verdadeira sabedoria (hikmat) exige tanto a capacidade filosófica quanto a visão pessoal dos seres de Luz. O filósofo sem experiência espiritual é considerado incompleto.
  • O testamento espiritual: Sohrawardi expressa sua tristeza por não ter encontrado um companheiro iniciado e deixa seu livro como um testamento, afirmando que a chave de todas as ciências sublimes está nele.
  • Uma escrita secreta: Para preservar o conhecimento dos profanos, Sohrawardi utilizou uma escrita especial em sua obra, cuja chave se assemelha a alfabetos secretos ismaelitas. Ele se refere a um "Mantenedor do Livro" (Qayyim al-Kitab), que seria o depositário e o iniciador de sua doutrina, uma expressão também usada nos hadith xiitas para o Imã.
  • O anseio por um companheiro: Sohrawardi peregrinou em busca de um companheiro de iniciação, uma busca que coincide historicamente com a "Grande Ressurreição" espiritual proclamada em Alamut, sugerindo a possibilidade de uma conexão com o ismaelismo.

A linhagem dos ishraqiyun e a sabedoria ancestral

  • Hermes, Zoroastro e Platão: Sohrawardi reivindica a herança de uma tradição "oriental" que remonta a Hermes, e opera a conjunção dos nomes de Platão e Zoroastro como arautos de uma mesma sabedoria.
  • Os ishraqiyun na tradição hermética: Um texto antigo, de Ibn Wahshiya, menciona os ishraqiyun como uma classe de sacerdotes egípcios, filhos da irmã de Hermes Trismegisto. Sohrawardi, por sua vez, identifica Hermes com Idris e com o profeta Enoque.
  • A linhagem de Seth: O comentarista Abdorrazzaq Kashani identifica o profeta Seth, filho de Adão, como o iniciador dos ishraqiyun. Seth é tradicionalmente associado a Agathodaimon e a Zoroastro em algumas correntes.
  • A filosofia oriental versus o dualismo radical: Sohrawardi distingue a sabedoria dos antigos Sábios persas (Khosrawaniyün) da "impiedade dos Magos" que professavam um dualismo radical. Ele busca ressuscitar a doutrina dos "Magos primitivos" que reconheciam um princípio único, uma visão que Shahrastani e outros historiadores também corroboram.
  • O xvarnah e o Santo Graal: A metafísica da Luz ishraqi identifica a fonte primordial com o xvarnah (Luz de Glória) da teosofia zoroastriana. Este motivo ressoa com o Santo Graal das tradições ocidentais, e a própria epopeia heroica do antigo Irã já continha o símbolo da taça mística.
  • O duplo êxodo do magianismo: O magianismo zoroastriano teve uma dupla expansão para o oeste. A primeira, para o sudoeste, se estendeu à Caldeia e Alexandria, influenciando o neoplatonismo e resultando nos Oráculos Caldeus, que rejeitam o dualismo radical. A segunda, para o noroeste, atingiu a Armênia e a Ásia Menor, onde prevaleceu a doutrina zervanita e os mistérios de Mithra.
  • O papel de Sohrawardi como "ressuscitador": Sohrawardi não busca apenas recapitular a história, mas ser ele mesmo a fonte da explicação, um "ressuscitador" que, a partir de sua própria experiência espiritual, reconstitui a linhagem dos ishraqiyun, reunindo as tradições dos antigos Sábios da Índia, da Pérsia, da Caldeia, do Egito e da Grécia.
  • A "árvore genealógica" da sabedoria: Sohrawardi traça uma árvore genealógica dos ishraqiyun que se origina em Hermes e se divide em dois grandes ramos: o oriental (com Sábios persas como Gayomart, Fereydun e Kay Khosraw, e místicos como Mansur Hallaj) e o ocidental (com gregos como Asclepio, Empédocles, Pitágoras e Platão). Ambos os ramos se unem nos espiritualistas que falam através da Sakina.
  • A sakina como presença luminosa: O conceito de sakina (equivalente ao hebraico Shekhina) é central, representando a quiétude e a certeza da fé. Para Sohrawardi, é a presença de Luzes espirituais que habitam a alma, um fenômeno que ele associa ao xvarnah zoroastriano e à experiência de Moisés no arbusto ardente.
  • O Oriente como conceito metafísico: A "filosofia oriental" de Sohrawardi é uma filosofia da iluminação, onde o "Oriente" não é um local geográfico, mas o universo das Luzes arcangélicas. Ele se diferencia de Avicena, que também buscava uma filosofia "oriental" mas, segundo Sohrawardi, não teve acesso à verdadeira "fonte oriental" (asl mashriqi), a sabedoria dos antigos Sábios persas. A obra de Sohrawardi é a culminação de um circuito grandioso que repatria a sabedoria platônica e hermética para a Pérsia islâmica, enriquecida com os tesouros do misticismo.