ZUM BRUNN, Émilie; LIBERA, Alain de. Maître Eckhart: métaphysique du verbe et théologie négative. Paris: Beauchesne, 1984
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A Relevância de Mestre Eckhart para a Filosofia Comparada
- O reconhecimento da pensamento de Mestre Eckhart como um tema privilegiado para a filosofia comparada, inclusive por C.G. Jung, apesar de sua aversão a comparativismos fáceis entre Oriente e Ocidente.
- A impressão de Daisetz Suzuki de que os Sermões alemães de Eckhart assemelhavam-se a textos budistas.
- A observação de Coomaraswamy de que partes da obra de Eckhart pareciam traduzidas diretamente do sânscrito.
- O problema de filosofia comparada que tais observações suscitam entre o budismo mahayana e o hinduísmo vedanta.
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A Divergência nas Interpretações de Suzuki e Otto sobre o Tema Fundamental de Eckhart
- A concepção de Deus-Ser como tema fundamental da especulação eckhartiana.
- A aproximação de Suzuki entre esse tema e a Ainséidade (Suchness) budista.
- A aproximação de Rudolf Otto entre o mesmo tema e o Ser do Vedanta, conforme a interpretação de Çankara.
- A utilidade de confrontar os estudos de Suzuki e Otto para precisar os planos de uma possível comparação filosófica.
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A Análise de Suzuki: Correspondências entre o Budismo Mahayana e a Obra Alemã de Eckhart
- A correspondência entre a realidade última do budismo mahayana, Aseidade e Vacuidade (Sunyata), e a realidade última em Eckhart, Ser e Nada, considerados a partir dos aspectos positivos e negativos do conhecimento ordinário.
- A correspondência no objetivo fundamental do homem: reencontrar, para além dos limites ilusórios do eu individual, sua natureza original idêntica à realidade última.
- A comparação entre a descrição eckhartiana do Durchbruch (a ruptura) e a descrição budista do despertar (satori), particularmente em seu aspecto súbito.
- A semelhança entre o método de Eckhart, que acumula contradições para romper os limites da representação ordinária, e o método dos koan zen.
- A equivalência observada por Suzuki entre o símbolo da "perfuração" e a imagem zen do "saco que se rompe".
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A Análise de Otto: Condições Históricas e Doutrinárias Análogas entre Eckhart e Çankara
- A consideração, por Otto, dos escritos latinos de Eckhart como fundamento especulativo de sua obra.
- A análise de um conjunto de condições históricas, culturais e doutrinárias análogas que tornam Çankara e Eckhart "contemporâneos" numa perspectiva de longa duração.
- O paralelo baseado no fato de que ambos os mestres escreveram comentários às Escrituras de suas tradições, demonstrando ao mesmo tempo liberdade de interpretação.
- A utilização, por ambos, de disciplinas rigorosas como metafísica, lógica e gramática, ordenadas ao único fim da libertação da alma, naquilo que Otto chamou de "a lógica maravilhosa da mística".
- As correspondências importantes: a concepção teísta do Brahman qualificado e do Deus criador cristão; e a transcendência do Brahman não qualificado e da Deidade (Gottheit) para além de atributos ou pessoas.
- A maior proximidade da doutrina eckhartiana com o Vedanta do que com o budismo, uma vez que a concepção teísta é um momento constitutivo da mística eckhartiana, mesmo quando superada no Durchbruch.
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Objeções a um Paralelismo Estrito com o Budismo e a profundidade do parentesco
- As objeções a um paralelismo demasiado estrito, por exemplo, entre a Vacuidade não substancial e o Ser que, para Eckhart, é mera substantia.
- A crítica de S. Ueda, que, apontando tais objeções, conclui ainda por um profundo parentesco entre as duas démarches.
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O Paralelo Linguístico e Semântico entre a Astitvam de Çankara e a Istichheit de Eckhart
- O paralelo indicado por Otto entre astitvam (de Çankara) e istichheit (de Eckhart), que partilham a mesma origem linguística e semântica.
- A definição de ambas as doutrinas como uma ontologia soteriológica, na qual a salvação ou libertação consiste equivalentemente no conhecimento do Ser.
- A citação, por Otto, da definição eckhartiana do "Eu sou" divino: "Sum, isso quer dizer: uma realidade que traz todo bem em si".
- O sentido salvífico do termo sânscrito sat (Ser) e de seu derivado sathyam (verdadeiro), que encontra correspondência na convertibilidade escolástica do Ser com o Verdadeiro e o Bem.
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O Tema da Conversão Constitutiva do Ser e suas Fontes
- O tema da conversão constitutiva do ser, reconhecível no verso védico "Do não-Ser conduze-me ao Ser" e no exercício do intelecto (Verstand ou Vernunft) que, segundo Eckhart, torna quem o pratica weselich (ente, substantial).
- A filiação de Eckhart a Santo Agostinho, que expressou o aspecto salvífico do Ser como resposta ao desejo essencial de felicidade, que é o desejo de ser, constituindo o homem do non esse para o magis esse ou perfecte esse.
- O mérito de Otto em ver o sentido e a importância do tema da constituição no ser em Eckhart e Çankara, criando neologismos como "me essencializa (seint, istet, weset)".
- A limitação da análise de Otto, que não considerou suficientemente as fontes helênicas da tradição de Eckhart.
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A Proposta de uma Primeira Zona de Filosofia Comparada para a Ontologia Eckhartiana
- A abertura, pelas análises de Otto, para uma pesquisa das fontes helênicas da concepção salvífica do Ser e para uma confrontação com a ontologia do Vedanta.
- A proposta de circunscrever uma primeira zona de filosofia comparada para a ontologia eckhartiana, caracterizada por fontes ontológicas comuns e por uma tradição scripturária em parte comum às religiões do Livro helenizadas (judaísmo, cristianismo, islamismo).
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As Fontes Helênicas da "Metafísica do Êxodo" e sua Disseminação
- A concepção grega do Ser salvífico em Platão e nos autores neoplatônicos, perpetuada na cristandade patrística e medieval através da exegese de Êxodo 3,14 (ego sum qui sum).
- A tradução da Septinta, feita por judeus, que interpretou o nome de Yahweh numa concepção helênica do divino, interpretação retomada por Filon de Alexandria e depois pelos Padres da Igreja e escolásticos.
- A denominação "metafísica do Êxodo" para essa concepção do Ser divino, que encontrou novas fontes e correspondências no judaísmo e no islã, por exemplo, em Avicena, Averróis e Maimônides, no caso de Eckhart.
- A resistência das tradições rabínica e corânica à "ontologização" do Deus revelado, apesar da ampla difusão da interpretação ontológica.
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A "Unidade da Existência" (Wahdat-al-Wujud) e suas Possíveis Correspondências com Eckhart
- A análise de Izutsu dos traços principais da concepção da "Unidade da Existência" (Wahdat-al-Wujûd), originária de Ibn Arabi, e sua suposta recorrência em grandes tradições orientais.
- A sugestão de que o Ocidente medieval, através de Mestre Eckhart, poderia reivindicar uma parte importante nessa concepção.
- A observação de que as regiões culturais escolhidas para definir concepções "orientais" e "ocidentais" do Ser se sobrepõem em parte, justificando a busca de correspondências.
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Traços Comuns entre a Ontologia de Eckhart e a Wahdat-al-Wujûd
- A união íntima da especulação com a mística como primeiro caráter metodológico comum, na perspectiva platônica do Intelecto que se volta para o Princípio "com a alma toda".
- O objetivo do Lesemeister (mestre da leitura) que é também Lebemeister (mestre da vida): o Uno, sendo uno o Intelecto que para ele se volta, num Durchbruch que realiza o retorno ao Ser que é o Si ou o Eu originário.
- A reconstrução teórica e racional de uma visão metafísica originária, comum a Mollâ Sadrâ e a Eckhart, que afirmou no Prologue to the Opus Tripartitum: "Esse est Deus".
- A definição do esse como actus essendi (Ato de Ser), que Eckhart herdou de Tomás de Aquino, correspondendo à "veemência de ser" aviceniana.
- A preferência terminológica pelo termo "Ser" (esse, ipsum esse), de origem em Mario Victorino e Porfírio, em detrimento de "Existência" (ex-sistere), e suas traduções alemãs por Eckhart: sein, wesen, seinsheit, weselichheit ou istichheit (Estidade ou Entância).
- A concepção do Ser como nome próprio de Deus, inacessível ao conhecimento ordinário, sendo o que chamamos de "ente" na realidade não-ser devido à sua limitação (casus ab esse), puro nada (luter nit, purum nihil) e até pura malícia (luter poshait).
- O uso de uma linguagem aristotélica por Eckhart para corroborar essa perspectiva platônica, definindo o acidente como não-ser em relação à substância, por analogia com a relação da criatura com o Criador.
- A visão da substancialidade do Ser em relação aos entes, desenvolvida no islã por Ibn Arabi e que Eckhart encontrou em Avicena e Maimônides, exemplificada na exegese de ego sum qui sum, onde a cópula e o atributo se identificam com o sujeito.
- A formulação Esse est Deus, que indica que o Ser é o sujeito, representando um passo além da formulação tradicional Deus est esse, pois o próprio Deus, enquanto qualificado, é de algum modo adjetival em relação ao esse não qualificado.
- A ênfase nos dois aspectos do Ser (Grund): como Unidade (einheit, einigheit) não dual, que se diferencia progressivamente dos níveis internos (Pessoas divinas, Ideias) para a criação ad extra; e como Nada, o "ápice da afirmação", um não-ser (ein wesen unweselich) que só é negativo do ponto de vista do conhecimento limitado.
- A comparação do "desvelamento" (kashf) islâmico com o processo de conhecimento descrito por Eckhart, que consiste em despir as coisas de sua diferença para retorná-las ao Ser indiferenciado, função do Intelecto puro não misturado, conforme Anaxágoras.
- A negação total do criado não como abolição, mas como estabelecimento de seu ser numa total dependência ontológica, cujo sentido último se compreende na perspectiva da conversão, final da emanação necessária do Ser, descrita como ebullitio (fervura) ou uzbruch (primeira difusão de Deus).
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A Necessidade de Estudo do Contexto e das Fontes da Escola Renana
- A necessidade de estudar as fontes de Eckhart e seu ambiente na Universidade de Paris e na Escola Renana para compreendê-lo não como um fenômeno único, mas como parte de um contexto intelectual.
- O posicionamento de Eckhart no grande conflito de pensamento medieval entre teólogos tradicionalistas e mestres de artes, entre defensores do primado da Vontade e defensores do primado do Intelecto, estes últimos associados a uma Revelação aberta ou a duas revelações: a do Livro e a da "Razão" dos sábios pagãos.
- A atitude de liberdade de Eckhart perante sua própria tradição, exemplificada no tratado Von abegescheidenheit (Do desapego), onde declara ter usado um método comparatista para descobrir a via mais direta de retorno a Deus.
- A base dessa atitude na concepção da universalidade do Intelecto, que faz a noblesse da natureza humana, "parente da Deidade".
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Conclusão: Zonas de Comparação e o Sentido Universal da Filosofia Comparada
- A conveniência de aprofundar o rapporto de Eckhart com sua tradição para destacar os invariantes estruturais que caracterizam a Escola Renana e a de Ibn Arabi, explicáveis pela metafísica neoplatônica da conversão.
- A proposta de uma segunda zona de comparação, confrontando as estruturas de pensamento helênicas das religiões do Livro com a perspectiva vedantina, numa pesquisa de filosofia da linguagem indo-europeia.
- O reconhecimento do interesse dos paralelos de Suzuki, mas a observação de seu caráter translinguístico, que situa a comparação nos confins de uma zona de significação mais universal.
- O exemplo do paralelo entre o sermão budista sem palavras da flor e o ensino de Eckhart de que "conhecer uma flor enquanto ela tem um ser em Deus seria mais nobre que conhecer o mundo inteiro".
- A definição do objetivo da filosofia comparada como a busca de recolher as expressões dispersas do conhecimento último nas diversas tradições e reconduzi-las ao seu sentido universal.