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id da página: 9378 Sopro de Vida

Sopro de Vida


Paul Nothomb: Túnicas de Cego

A Septuaginta traduzia ainda “pós fora da terra”. Foi a Vulgata que transformou “o ”, alegoria de um estado, em uma matéria-prima, traduzindo “do pó”. O hebreu é “afar min haadama” (Gen 2,7) onde “haadama”, que não significa a terra, não é também o complemento do nome de “afar” como “” o é “da terra” em nossas bíblias.


De todas as bíblias francesas, somente aquela do rabino Sadok-Kahn (dita “Bíblia do rabinato francês”) traduz corretamente “pós destacados de“ e não “do pó de”.

Vimos que “afar” é um símbolo de leveza e “adama” um símbolo de pesadume, enquanto emanação a temer do “adam” “genérico” um instante visualizado por Deus antes da Criação do Homem, quando este, pela “Queda”, recairá no “genérico” de onde o afastou sua natureza, quer dizer na “condição humana” (outra tradução de “adama”), cultivará a “adama” em todas as suas acepções, e notadamente o “solo”. De onde seu sentido atual, muito restritivo figurando nos dicionários, mas que não contradiz seu sentido primeiro, muito mais amplo.

Quanto ao “sopro de vida” que traduz literalmente o hebreu N(SH)MT HYYM (pronunciado “nishmat haim”), parece designar a respiração. Mas o exame de algumas atestações da expressão “nishmat haim” na Bíblia histórica e profética permite uma acepção mais pertinente que confirma sua menção na “oração da manhã” do judaísmo sefarade. “Nishmat” aí quer dizer consciência e logo “nishmat haim” aqui “consciência de existir” HOMEM IMORTAL.


Depois das correções que se impõem, as duas colunas acima parecem melhor se acordar:

1) E Deus Criou o Homem a sua imagem1) E YHWH concebeu o Homem leveza fora do pesadume
2) À imagem de Deus o Criou|2) e soprou nele uma consciência de existir
3) Macho e fêmea os Criou.3) e o homem se tornou um animal.
(Gen 1,27)|(Gen 2,7)||


Mas se ele estabeleceu assim que as duas sequências relatam bem o mesmo evento, e na mesma ordem — que, ao invés de do alto para baixo, vai do interior para o exterior, do núcleo para a casca do Homem, seja Criado ou concebido — a uniformização das duas linguagens que resulta da demitologização, da desalegorização do texto da direita o torna tão vago como o texto da esquerda, que se presume explicá-lo aos novos citadinos do século X antes de nossa era. E parece que é sempre o texto da direita, original, com suas alegorias “concretas” que resta para nós também o mais instrutivo, mesmo se temos, mais que jamais hoje em dia, necessidade de óculos” para lê-lo — antes de os retirar, de fechar os olhos e de entrar em nós mesmo meditando-o e ensaiando compreendê-lo.

Que quer dizer “à imagem de Deus”, e mesmo a “leveza”? Palavras, noções mais ou menos “poéticas”. Enquanto que “ retirado ao solo” do original, “ voante” como primeira metáfora do Homem, núcleo de sua natureza, antes mesmo que disto tome consciência! Deus concebe o Homem “em si”, e por aí o já faz existir, coma liberdade sem igual do comportamento do , voante ou estagnante segundo que ele se deixa ou não levar pelo “vento”, com seu caráter inapreensível e indestrutível e no entanto material, à diferença da energia pura do “vento” do qual ele (o ) é, sim, “a imagem”, ao mesmo tempo semelhante e dissemelhante.

Pois Deus Sopra — sempre o símbolo do vento — não na boca mas literalmente “nas narinas” do Homem. Na tipologia bíblica as narinas são a sede da emoção e, quando elas “se inflamam”, da cólera (orge), em particular da cólera de Deus. Mas trata-se aqui do sopro criador que, depois de ter feito existir o Homem “leveza”, lhe faz tomar consciência. Já “imagem de Deus” “em si” o Homem o devem “para si” em a refletindo, como o sugere ao mesmo nível na coluna esquerda a inversão da ordem das palavras no enunciado da segunda frase em relação à primeira, de conteúdo aparentemente idêntico. Mais que uma respiração é portanto uma inspiração que ele recebe, uma revelação de sua própria natureza. Este segundo estado é aquele da lucidez, do discernimento, da reflexão, se adicionando ao sentimento “natural” fundamental que o Homem tem de sua liberdade e de sua imortalidade.

O texto diz que Deus soprou “nas narinas” do Homem (Gen 2,7). Depois da “Queda” é “com o suor de suas narinas” que o Homem em exílio subsistirá penivelmente (3,19). Estas duas únicas atestações de 'PYM (pronunciado “appayim”) na Bíblia das Origens são tão alegóricas quanto os frequentes empregos da expressão nas Bíblias histórica e profética para descrever a cólera de Deus (orge).


Enfim, conclui a sequência mais antiga, “o Homem se torna um animal”. Não por suas próprias forças, ou aquelas da evolução mas, nos ensina a frase correspondente na coluna de face, por um terceiro e último ato criador de Deus, que adiciona assim — como bônus, como prêmio — a animalidade (e mais precisamente a sexualidade) a sua natureza. Pois deve-se ler atentamente o texto: “quem” se torna animal? Não é um pré-homem, um embrião do homem, um “golem”, uma efígie, uma estátua inerte na qual Deus sopra para dela fazer, como pretendem nossas bíblias, uma “alma vivente”. É o Homem, já existente “em si” e “para si”, já duas vezes Criado por Deus, que se torna em acréscimo, por uma terceira Criação um animal. Ele é Homem antes de só tornar animal. E já é mesmo, “em si” antes disto tomar consciência, desde que segundo as duas sequências, Deus Criou ou concebeu o Homem — que ainda nada sabe “para si”.

Em hebreu o verbo “devir” se exprime pelo verbo de existência HYH seguido da preposição L que marca a passagem de um estado a outro, de um ponto a um outro, etc. Em Gen 2,7 “e o Homem se tornou um animal” se escreve “WYHY H'DM LNP(SH) HYH”. O que distingue esta frase daquelas do tipo, frequente no relato dos Seis dias “WYHW 'WR” (“e houve luz”) é que a mais de um sujeito ela tem um atributo. Ela constata não a aparição mas a transformação de seu sujeito, na ocorrência o Homem.


E não é porque este presente se transforma regularmente em desgraça, pelo envelhecimento e a morte, para seus descendentes na condição humana, que se deve esquecer em vista de que “lugar” a animalidade foi dada de acréscimo ao Homem, como a princípio sua natureza. Em seguida após a última frase de nossa coluna da direita, o texto continua: “E YHWH Deus plantou um Jardim no Éden 1 à oriente, e pôs (enquanto seu “lugar”) o Homem que tinha concebido”.

Precisemos ainda que segundo o relato, só penetram no jardim, além do Homem, animais e plantas extraídas previamente do pesadume (“min haadama” Gen 2,9 e Gen 2,19) mas não em virtude de sua leveza natural (“afar”) como no caso do Homem (Gen 2,7). Parecem ser aí subtraídos provisoriamente ao ciclo biológico, ao qual o Homem escapa por sua natureza mas no qual cai, pela “Queda”, contra sua natureza, e aí se submete em engendrando descendentes que morrerão, dando nascimento ao que se chama a “raça humana” mas que prefiro nomear a “condição humana”. De fato a “adama”.


A animalidade dada ao Homem em vista deste “lugar” sem morte, sem envelhecimento, sem usura do tempo, só apresenta vantagens. Além de sua liberdade como “imagem de Deus” como “ no vento divino”, e esta que lhe garante a consciência que dele tem, ela lhe busca uma liberdade de movimento e de comunhão incomparáveis. Uma sensibilidade reforçada, uma sensualidade, um desfrute, uma objetividade, um contato carnal com toda a Criação que, longe de ser uma regressão em relação a sua natureza, a exaltam e a embelezam.


NOTAS:
1 Não há desfrute desdobrado, felicidade completa senão lúcida e é o que já evoca a simples palavra “Éden” que quer dizer em hebreu “delícias”. A fortiori a expressão “jardim do Éden” que a Bíblia das Origens designa como o “lugar” por excelência no mais antigo dos três relatos da Criação que ela contém. O Éden deve ser confirmado? A palavra, antes de significar “delícias” em hebreu, queria dizer “estepe” em acádio ou árabe antigo? Uma certa crítica, sempre ávida em “demitologizar”, o pretende. O “jardim” plantado por Deus para o Homem só era um enclave em um mundo hostil? O relato dos Seis dias, redigido no segundo século antes de nossa era mas muito depois do relato do Jardim do Éden, responde. O mundo tal qual Deus criou na origem, era — e é ainda de certa maneira — integralmente bom.