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id da página: 4601 Cadernos do Hermetismo – Sophia e a Alma do Mundo – Bernard Gorceix Bernard Gorceix

Gorceix Sophia Arnold

FAIVRE, Antoine (org.). Sophia et l’âme du monde. Paris: Albin Michel, 1983

Culto da Sabedoria na Alemanha Barroca, sobre Gottfried Arnold

  • A Florescência do Culto Sofianico na Espiritualidade Alemã

    • O reconhecimento da dívida para com a espiritualidade de língua alemã por ter cultivado, durante séculos, a intuição religiosa do culto à Sabedoria (Sophia).
    • A percepção clara do tema por Paracelso, sua fundação na meditação sobre a vida divina por Valentin Weigel, e sua centralidade de Jacob Boehme a Schelling.
    • A influência do tema na contemplação do século XVII, na poesia religiosa do barroco a Novalis.
    • A escolha do Mystère de la SOPHIA ou Sagesse divine (1700), de Gottfried Arnold, para ilustrar esta florescência, como uma obra que sintetiza a chave do mistério divino, cristológico e adâmico.
  • Gottfried Arnold: O Historiador da "Igreja Invisível" e seu Projeto Sofianico

    • A figura do pietista Gottfried Arnold (1666-1714), que recusou carreiras acadêmicas em favor da vida pastoral e do conventículo.
    • A sua obra magna, a História Imparcial das Igrejas e dos Heréticos, como uma revolução copernicana na historiografia eclesiástica, escrita do ponto de vista dos hereges.
    • A defesa da "Igreja invisível" do Espírito contra a ortodoxia institucionalizada.
    • O Mystère de la Sophia como uma ilustração prática daquilo que pode ser uma fé cristã autêntica, para além dos dogmas e das disputas teológicas.
    • A estrutura rigorosa do tratado em 25 capítulos, divididos em: a Sabedoria em Deus, a sua expectativa na alma, a união e geração novas, e os frutos desta união.
    • O objetivo universal do projeto: não uma especulação ociosa, mas "a única via" para conhecer Deus, a si mesmo e todas as coisas.
  • A Sophia na Vida Divina: Energia e Ordem da Trindade

    • A constatação do desprezo pela Sabedoria divina, devido ao pecado, a Satanás e à erudição escolar que sufoca o apelo interior.
    • A veneração de Sophia como o meio magnífico para interrogar e compreender a vida de Deus.
    • O postulado hermenêutico: a revelação de Sophia é tão real e efetiva quanto a de Jesus Cristo, sendo uma verdade de experiência e de fé.
    • A rejeição da ideia de uma quarta hipóstase; Sophia não reduz a glória de Cristo, mas restaura a unidade primordial da vida trinitária.
    • A fundamentação nos textos sapienciais de Israel (Provérbios, Eclesiástico, Livro da Sabedoria) e no Novo Testamento (e.g., 1 Coríntios 1:24,30).
    • A Sophia como a "energia" (Kraft) da Trindade, a força reveladora, transfiguradora e anunciadora que anima a vida divina.
    • A Sophia como um ser que "circula", personificando a esfera de energias e o movimento incessante da vida de Deus.
    • A autoconsciência de Deus através de Sophia, que é o meio pelo qual Deus "se revela e se introduz no ser".
    • A Sophia como a garantia da "Ordem-Deus", a força reguladora e ordenadora que rege o fluxo de energias, vontades e desejos divinos em uma harmonia santa, e não um princípio mecânico.
  • A Sophia e o Andrógino: Adão, Cristo e a Restauração

    • A afirmação da feminilidade de Sophia, sempre apresentada nas Escrituras como mulher, prometida, mãe, virgem e preceptora.
    • A identificação do Espírito Santo, no hebraico, como um ser do sexo feminino.
    • A união primordial de Sophia com Adão, o andrógino criado à imagem de Deus, no qual ela era a "semente do nascimento espiritual" que temperava suas energias ígneas.
    • A perda desta união com o pecado, transformando Adão andrógino no "macho grosseiro" e reduzindo Eva a um pálido substituto da feminilidade eterna.
    • A missão de Jesus Cristo como o "andrógino messiânico", que, ao nascer de Maria, reintroduziu a herança masculina no corpo da mulher virginal e abrigou em si a imagem virginal.
    • O objetivo da nova aliança: restaurar a bisexualidade paradisíaca no homem, fazendo da nova criatura uma "virgem masculina" perfeita perante Deus.
  • A Via Mística: Da Consciência às Núpcias com a Sophia

    • A necessidade da experiência interior, contra a voz das Igrejas e dos teólogos que procuram esmagá-la.
    • A descrição da presença de Sophia na alma como uma presença perene, manifesta através de direção, persuasão, movimentos, impressões, pensamentos e atração, mas também de uma angústia e tensão profundas.
    • O momento da conversão como o instante em que se atribui as moções não apenas a Cristo, mas à Sophia em sua autonomia própria: a descoberta da feminilidade celeste.
    • O processo de restauração dividido em duas etapas: a maternidade e o himeneu.
    • A fase maternal: Sophia atua como uma mãe no fundo da alma, com doçura e suavidade, mas também com severidade educativa, incitando à ascese, à renúncia, à obediência e ao desejo ardente.
    • A fase nupcial: Quando a alma demonstra fidelidade, Sophia troca sua "forma grave" por uma "forma mais charmante", acolhendo-a como esposa.
    • A descrição das núpcias como uma penetração recíproca e coabitação, com base no Cântico dos Cânticos.
    • O amor místico como uma força que unifica a vontade e se ramifica como uma "planta paradisíaca".
    • A incompatibilidade entre o amor carnal e o amor por Sophia.
  • A Alquimia do Espírito: Fogo, Corpo e Gnose

    • A preferência pela metáfora do fogo e da ignição sobre a metáfora aquática.
    • A Sophia como um ser de "fogo e chama" (feuer-flammend) que penetra a alma para purificar e fundir.
    • A utilização da imagem alquímica do fogo do ourives, que não destrói o ouro, mas confirma e purifica, consumindo apenas a palha e as escórias.
    • O objetivo da fusão: a "tintura" (Tinktur) profunda da alma pelas "flores ígneas do espírito sofianico", impregnando-a com a substância perfeita.
    • A corporeidade nova como resultado da união: o "corpo essencial de Cristo", o "corpo de luz" ou o "corpo-energia" (Krafft-leib), que assegura a vida eterna.
    • A geração deste novo corpo: uma gestação que ocorre no "corpo virginal" de Sophia, onde a semente germina e jorra, revestindo o homem de uma "substância espiritual celeste".
    • A síntese entre a fruição e o conhecimento (gnose): a união com Sophia proporciona tanto as delícias inefáveis quanto o dom do conhecimento.
    • A Sophia como "mãe do conhecimento", que purifica o olho do entendimento para contemplar as maravilhas da criação, sondar os projetos secretos de Deus e aceder aos segredos mais profundos do Reino dos Céus, fazendo dos crentes "amigos de Deus e profetas".
    • A culminação da união: a participação, através de Sophia, na própria vida e unção da Trindade, onde "a trindade santa toda se revela no homem".
  • A Sophia como Chave de uma Tradição Dissidente e Unitária

    • A confirmação do papel do culto de Sophia em revivificar e renovar a tradição religiosa em momentos de crise, dogmatismo ou dessecação, desde o Israel pós-exílico até ao protestantismo do século XVII.
    • A experiência sofianica como uma forma de dissidência mística que reafirma a liberdade do crente perante a autoridade institucional e o Deus do teísmo estatal.
    • A capacidade da mitologia sofianica, no tratado de Arnold, de traduzir toda a vida da fé – dogmas, história da salvação, ascese, vida unitiva – num dinamismo unitário e coerente, em torno de um único suporte.
    • A riqueza do arsenal metafórico (esposa, espelho, círculo, andrógino, fogo, tintura, corporalidade nova, árvore) que permite uma tradução fascinante para o inefável da experiência de fé.
    • O eco da síntese sofianica de Arnold no romantismo de Novalis, evidenciando a permanência e a fecundidade do tema, mesmo em contextos intelectuais distintos.