VIDE: UNIÃO
Ascetismo e Misticismo
Tanquerey: COMPÊNDIO DE TEOLOGIA ASCÉTICA E MÍSTICA
Purificada a alma, adornada pelo exercício positivo das virtudes, está madura para a união habitual e íntima com Deus, ou, por outros termos, para a via unitiva.
I. O fim a que se deve tender
Este fim não é senão a união íntima e habitual com Deus por Jesus Cristo. Viver unicamente para Deus, o Deus vivo, a Trindade Santíssima, que habita em nós, para O louvar, servir, reverenciar e amar, tal é o fim do perfeito cristão; viver de maneira não medíocre, senão intensa, com todo o fervor que dá o amor; aspirar por conseguinte, a esquecer-se a si mesmo, para não pensar mais senão naquele Deus que se digna viver em nós, para O amar com toda a nossa alma, para fazer convergir para Ele todos os nossos pensamentos, desejos e ações. Deste modo é que poderemos realizar esta oração de Prima, em que pedimos a Deus que dirija, santifique, reja e governe a nossa alma e o nosso corpo, os nossos sentimentos, palavras e ações, para tudo submetermos à sua santa vontade.
Mas, como por nós mesmos somos disso incapazes, queremos unir-nos intimamente a Cristo Jesus, in Christo Iesu; incorporados nele pelo batismo, queremos estreitar essa união íntima pela recepção fervorosa dos sacramentos e sobretudo pela sagrada comunhão, prolongada pelo recolhimento habitual, a fim de que as suas disposições interiores se façam nossas, inspirem todas as nossas ações e possamos repetir e realizar a palavra de S. Paulo: «Vivo, mas já não sou eu que vivo, é Jesus que vive em mim». Para obter este feliz resultado, pelos seus méritos e súplicas envia-nos Jesus o seu divino Espírito, aquele Espírito que operava em sua alma as disposições perfeitas de que estava animada; e, deixando-nos conduzir por este divino Espírito, obedecendo pronta e generosamente às suas inspirações, pensamos, falamos e operamos como faria Jesus, se estivesse em nosso lugar. É Ele, pois, que vive em nós, é Ele que, connosco e por nós, glorifica a Deus, nos santifica e nos ajuda a santificar os nossos irmãos. E assim, se nesta via se tórna predominante a devoção à Santíssima Trindade, nem por isso cessa a alma de se unir ao Verbo Encarnado, e é por Ele que sobe ao Pai.
II. Os caracteres distintivos da via unitiva
Resumem-se estes caracteres em um só: a necessidade de tudo simplificar, de reduzir tudo à unidade, isto é, à união íntima com Deus pela divina caridade.
1.° A alma vive quase constantemente sob o olhar de Deus: compraz-se em O contemplar vivendo no seu coração, «ambulare cum Deo intus», e para isso se desapega com cuidado das criaturas, «nec aliqua affectione teneri foris». É por este motivo que ela busca a solidão e o silêncio; constrói pouco a pouco no seu coração uma pequenina cela, na qual encontra a Deus e lhe fala, coração a coração. Então, se estabelece entre Deus e a alma a mais doce intimidade.
2.° O amor de Deus torna-se deste modo não somente a sua virtude principal, mas, pode-se dizer, a sua única virtude, neste sentido que todas as outras virtudes, que a alma pratica, não são para ela senão atos de amor.
3.° Uma simplificação análoga se opera na oração: os raciocínios vão desaparecendo pouco a pouco, para darem lugar a piedosos afetos; estes, por seu turno, se vão simplificando, como logo explicaremos, e transformando num olhar afetuoso e prolongado sobre Deus.
4.° Donde uma simplificação na vida inteira: outrora tinha as suas horas de meditação e oração; agora a sua vida é uma oração perpétua; quer trabalhe quer se recreie, quer esteja só quer acompanhada, incessantemente se eleva para Deus, conformando a sua vontade com a dele: «Quae placita sunt ei facio sem per». E esta conformidade não é para a alma senão um ato de amor e entrega total nas mãos de Deus; as suas orações, as suas ações comuns, os seus sofrimentos, as suas humilhações, tudo está impregnado de amor de Deus: Deus meus ei omnia.
1296. Conclusão. Daqui se pode ver quais são as almas a que convém a via unitiva: são as que reúnem as três condições seguintes:
a) Uma grande pureza de coração, isto é, não somente a expiação e reparação das faltas passadas, senão o desprendimento de tudo quanto poderia levar ao pecado, o horror a qualquer falta venial de propósito deliberado e até mesmo a toda a resistência voluntária à graça; o que não exclui, contudo, algumas faltas veniais de fragilidade, aliás imediata e vivamente choradas. Esta purificação da alma, esboçada na via purgativa, foi-se aperfeiçoando na via iluminativa pelo exercício positivo das virtudes e pela aceitação generosa das cruzes providenciais, e vai-se consumar, na via unitiva, pelas provações passivas.
b) Um grande domínio de si mesmo, adquirido pela mortificação das paixões e pelo exercício das virtudes morais e teologais que, disciplinando as nossas faculdades, as submete pouco a pouco à vontade, e esta à vontade divina. Por esta via se encontra restabelecida, em certa medida, a ordem primitiva; senhora de si mesma, pode-se a alma dar completamente a Deus.
c) Uma necessidade habitual de pensar em Deus, de se entreter com Ele, de fazer todas as suas ações com o fim de lhe agradar; a alma sofre, por não poder ocupar-se constantemente dele, e se, por dever de estado, se entrega a ocupações profanas; faz esforços por não perder de vista a sua presença; volta-se instintivamente para Ele, como a agulha magnética para o Norte.