Skip to main content
id da página: 10445 Via Iluminativa

Via Iluminativa

CAMINHO — VIA ILUMINATIVA

ASCETISMO E MISTICISMO

Tanquerey: COMPÊNDIO DE TEOLOGIA ASCÉTICA E MÍSTICA

Purificada a alma das faltas passadas por meio de longa e laboriosa penitência, proporcionada ao seu número e gravidade; confirmada na virtude pelo exercício da meditação, mortificação e resistência às inclinações más e às tentações, tempo é de entrar na via iluminativa, assim chamada por consistir principalmente em imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo pela prática positiva das virtudes cristãs; ora, Jesus é a luz do mundo, e quem O segue não anda em trevas: «Qui sequitur me non ambulat in tenebris, sed habebit lumen vitae».

I. A quem é que convém a via iluminativa

Santa Teresa descreve assim os habitantes das terceiras moradas, isto é, as almas em progresso: «Têm grande desejo de não ofender a divina Majestade; evitam ainda os pecados veniais; amam a penitência; têm as suas horas de recolhimento; empregam utilmente o tempo; exercitam-se em obras de caridade para com o próximo. Tudo nelas está bem regulado; as suas palavras, os seus hábitos, o governo de suas casas, se as têm para dirigir».

Desta descrição se podem deduzir as conclusões seguintes:

1.° Como a via iluminativa consiste na imitação de N. S. Jesus Cristo, para nela entrar, é necessário realizar as três condições seguintes que nos permitem seguir o divino Mestre pela prática positiva das virtudes de que Ele nos deu exemplo.

A) É preciso ter alcançado já certa pureza de coração, para poder aspirar, sem demasiada temeridade, a essa união habitual com Nosso Senhor que a imitação das suas virtudes deixa supor: enquanto a alma permanece exposta a cair, de tempos a tempos, em pecado mortal, deve antes de tudo lutar energicamente contra as ocasiões de pecado, contra as tendências más da natureza e contra as tentações; depois de vencidas essas dificuldades, é que se pode ocupar com mais proveito da parte positiva das virtudes. É igualmente necessário que tenha horror ao pecado venial de propósito deliberado e se esforce por evitá-lo.

B) É, além disso, indispensável que tenha mortificado as paixões. Para seguir a N. S. Jesus Cristo, importa, na verdade, renunciar não somente ao pecado mortal senão também ao pecado venial de propósito deliberado, sobretudo ao que se comete frequentemente e a que se tem afecto. Ora, pelo combate generoso contra as paixões e vícios capitais, é que um chega a este domínio de si mesmo que permite praticar o lado positivo das virtudes e aproximar-se assim progressivamente do divino Modelo. Então sim, é que se pode ter vida bem regulada, momentos de recolhimento, e empregar o tempo no cumprimento dos deveres do próprio estado.

C) É necessário, enfim, ter adquirido, pela meditação, convicções profundas sobre todas as grandes verdades, a fim de se poder consagrar mais tempo aos piedosos afectos e à oração propriamene dita. É que, efectivamente, por meio destes afectos e petições é que atraímos a nós as virtudes de N. S. Jesus Cristo e as podemos praticar sem excessivas dificuldades.

Reconhecem-se, pois, os proficientes por estes dois sinais particulares: 1) experimentam uma grande dificuldade em fazer oração puramente discursiva; a inspiração do Espírito Santo leva-os a juntar aos raciocínios muitos afectos; 2) têm desejo ardente e habitual de se unir a Nosso Senhor, de O conhecer, amar e imitar.

2.° Do que acabamos de dizer derivam as diferenças principais entre as duas vias, purgativa e iluminativa.

A) O fim, tanto numa como noutra, não há dúvida que é o esforço e a luta; mas os principiantes lutam contra o pecado e suas causas, ao passo que as almas em progresso lutam por adornar a alma, adquirindo as virtudes de N. S. Jesus Cristo. Não há contudo oposição entre estas duas orientações; uma prepara a outra. Desembaraçando-se do pecado e suas causas, já a alma pratica as virtudes no seu primeiro grau, que é sobretudo negativo; por outro lado, as virtudes positivas, que se exercitam na via iluminativa, aperfeiçoam o desprendimento de nós mesmos e das criaturas. No primeiro caso, atende-se de preferência ao lado negativo, no segundo ao positivo: ambos se completam mutuamente. Não deixa, pois, o proficiente de fazer penitência e de se mortificar, mas faz tudo isso com o fim de se unir e tornar mais semelhante a N, S. Jesus Cristo.

B) Os meios, se bem que permanecem substancialmente os mesmos, diferem na maneira como se aplicam; a meditação que era discursiva, torna-se afectiva; o pensamento, que habitualmente se dirigia para Deus, concentra-se mais em N. S. Jesus Cristo, que a alma quer conhecer, amar e imitar; Jesus torna-se verdadeiramente o centro da nossa vida.