Fé
Pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então também podereis vós fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal...
Jeremias, XIII, 23
Aos homens isso é impossível; mas a Deus tudo é possível.
Evangelho de Mateus, XIX, 26
Não há nada que tão bem santifique o coração do homem, que nos mantenha em tão habitual amor, oração e deleite em Deus; nada que assim mate todas as raízes do mal em nossa natureza, que assim renove e aperfeiçoe todas as nossas virtudes, que nos encha de tanto amor, bondade e bons desejos para com toda criatura, como esta fé de que Deus está sempre presente em nós com a Sua luz e Espírito Santo.
Deus pode ser realizado somente pela verdadeira fé.
Por ‘fé profunda’ entendemos, não ter a mínima dúvida, mas confiar que o Buda, que prometeu nunca rejeitar o pecador, por mais mau que ele seja, garantiu o nascimento certo na Terra Pura àqueles que não fazem mais do que invocar o Seu nome sagrado, ainda que uma única vez.
Aprendemos que toda alma, ainda que sobrecarregada de pecados, enredada nas malhas das imperfeições, mantida cativa no exílio, aprisionada na carne, submersa na lama, presa à lodo, atada ao corpo, tornada impotente pelas ansiedades, angustiada por considerações mundanas, tornada suspeita pelo medo, quebrantada pela dor, vagueando em meio a erros, preocupada com cuidados, inquieta por suspeitas, e, finalmente, estrangeira na terra dos inimigos, e, segundo a palavra do Profeta, contaminada com os mortos,...contada entre aqueles que descem ao inferno306 — ainda que, digo, assim condenada e assim desesperançada, aprendemos que, não obstante, esta alma pode descobrir dentro de si não apenas a fonte donde pode respirar novamente na esperança do perdão, na esperança da misericórdia, mas também a fonte donde pode ousar aspirar às núpcias do Verbo, não temendo entrar numa aliança de amizade com o próprio Deus, nem receando puxar o suave jugo do amor com Aquele que é Rei dos anjos. Pois o que há que ela não possa ousar com segurança na presença d'Aquele cuja imagem, ela discerne, lhe confere a sua distinção, e à semelhança de Quem, ela sabe, a torna nobre? Que terror, digo, tem a Majestade para ela, a quem a confiança é dada em virtude da sua própria origem? É necessário apenas que ela cuide em preservar por uma vida reta a pureza da natureza que lhe foi dada ao nascer.
Cristo fez dos pequeninos e ignorantes, de capacidade muito fraca e humilde, isto é, de pobres pescadores, carpinteiros e outros mecânicos semelhantes, fez apóstolos, e os homens de maior entendimento de todos; e também de pessoas pobres, desprezadas, vilipendiadas, como mulheres e pessoas simples, fez filhos fiéis, devotos, caros e piedosos, que apreenderam em si mesmos o universal sem qualquer arte.
Assim também se passa na obra filosófica; a essencialidade que jaz desaparecida na morte, onde o Mercúrio é totalmente terreno, frio e impotente, ergue-se agora em poder, como se todo o ser e essência se tivessem tornado uma nova vida, com a qual o artista se admira e se maravilha do que seja, ou como acontece, e ainda assim se regozija sobremaneira por ver o poder divino brotar diante de seus olhos numa essência meio morta, e isso na maldição de Deus.
Não entrará no inferno aquele que tiver no coração fé igual a um grão de mostarda.
Deves ter ouvido falar do tremendo poder da fé. Diz-se no Purana que Rāma, que era o próprio Deus — a encarnação do Brahman Absoluto — teve de construir uma ponte para atravessar o mar até Ceilão. Mas Hanumān, confiando no nome de Rāma, transpôs o mar num só salto e alcançou a outra margem. Ele não precisou de ponte.
Certa vez, um homem estava prestes a atravessar o mar. Bibhishana escreveu o nome de Rāma numa folha, amarrou-a num canto da roupa do homem e disse-lhe: ‘Não temas. Tem fé e caminha sobre as águas. Mas olha — no momento em que perderes a fé, afogar-te-ás.’ O homem caminhava facilmente sobre a água. De repente, sentiu um intenso desejo de ver o que estava amarrado em sua roupa. Abriu-a e encontrou apenas uma folha com o nome de Rāma escrito. ‘O que é isto?’, pensou ele. ‘Apenas o nome de Rāma!’ Assim que a dúvida entrou em sua mente, ele afundou na água.
E, descendo Pedro do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a submergir, clamou, dizendo: Senhor, salva-me!
E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pequena fé, por que duvidaste?
Evangelho de Mateus, XIV, 29-31
Se pensas que há incerteza quanto à eficácia de invocar o nome sagrado uma vez, então isso significa que há dúvida sobre isso cada vez que invocas o nome sagrado. O Voto do Buda era dar o nascimento na Terra Pura àqueles que invocassem o seu nome mesmo uma vez, e assim há eficácia em cada repetição do nome sagrado.
E, na verdade, José outrora vos trouxe provas claras, mas não cessastes de estar em dúvida acerca do que ele vos trouxe até que, quando ele morreu, dissestes: Alá não enviará mensageiro algum depois dele. Assim Alá desvia quem é pródigo, duvidador.
Alcorão, XI, 34
Um homem que planeja saltar sobre um fosso de dez pés de largura, deve empregar todo o esforço para saltar quinze pés. E assim, um homem que deseja nascer na Terra Pura deve concentrar a sua energia em acreditar que será, com certeza, assim nascido.
O que é a fé? A rendição inquestionável à vontade de Deus.
A fé é a melhor riqueza aqui para o homem — pela fé a torrente é atravessada.
Suttanipāta, 182, 184
Ao invocares o Seu nome sagrado, não alimentes a mais leve dúvida sobre a sua eficácia.
‘(O pecador) que Me ofende contando com a Minha misericórdia não pode, em verdade, dizer que espera pela Minha misericórdia. Mas esta presunção, não obstante, adoçou o leite da misericórdia. À hora da morte, se ele reconhecer o seu pecado, se aliviar a sua consciência através da santa confissão, ele é então purificado da presunção, que já não Me ofende, e a misericórdia permanece com ele.
‘Por esta misericórdia ele pode, se quiser, ganhar esperança. Sem esperança, nenhum pecador poderia escapar ao desespero, e através do desespero ele incorreria, com os demónios, na danação eterna....Pois o pecado do desespero ofende-Me mais e é mais mortal para (os pecadores) do que todos os outros pecados que cometeram no decurso da sua existência.’
E quem desespera da misericórdia do seu Senhor, senão aqueles que estão desviados?
Alcorão, XV, 56
Somente a confiança em Deus é capaz de me dar asas; o medo, em contraste, congela-me e paraliza todo o meu ser.
Um homem pediu ao Mestre que perdoasse os seus pecados. Disse-lhe Ele que seria suficiente se cuidasse para que a sua mente não o perturbasse.
Embora eu seja pior que um cão, Vós graciosamente Vos encarregastes de me proteger. Esta ilusão do nascimento e da morte é mantida por Vós. Além disso, serei eu a pessoa para examinar e julgar? Sou eu o Senhor aqui? Ó Mahesvara. A Vós compete rodar-me através dos corpos (por nascimentos e mortes) ou manter-me fixo aos Vossos próprios pés.
‘Eu sou a caverna do penitente, e comigo está o refúgio dos pecadores.’
‘Sabes o que Me atrai a ti? É a tua confiança cega em Mim.’
Fé! Fé! Fé! Certa vez, um guru disse ao seu discípulo: ‘Só Rāma Se tornou tudo.’ Quando um cão começou a comer o pão do discípulo, ele disse-lhe: ‘Ó Rāma, espera um pouco. Hei de untar o Teu pão com manteiga.’ Tal era a sua fé nas palavras do seu guru.
A fé em Deus, então, é um bem único, seguro e infalível, consolação da vida, plenitude de brilhantes esperanças, escassez de males, colheita de bens, desconhecimento da miséria, conhecimento da piedade, herança da felicidade, melhoramento geral da alma que está firmemente apoiada n'Aquele que é a causa de todas as coisas e pode fazer todas as coisas, mas só quer o melhor.
Porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito.
Evangelho de Marcos, XI, 23
...Em nome de Deus, avancemos:
A verdadeira esperança é rápida e voa com asas de andorinha;
Faz dos reis deuses, e das criaturas humildes, reis.
Shakespeare (Ricardo III, V, ii, 22)
Não permaneças nas obras dos pecadores; mas confia em Deus e fica no teu lugar.
Pois é fácil aos olhos de Deus enriquecer de repente o pobre.
Eclesiástico, XI, 22-23
Que tremenda fé tinha Krishnakishore! Certa vez, estando em Vrindāvan, sentiu sede e foi a um poço. Perto dele viu um homem de pé. Quando lhe pediu para tirar um pouco de água para ele, o homem disse: ‘Eu pertenço a uma casta baixa, senhor. O senhor é um brâmane. Como posso tirar água para o senhor?’ Krishnakishore disse: ‘Pronuncia o nome de Shiva. Repetindo o Seu nome sagrado, tu te purificarás.’ O homem de casta baixa fez como lhe foi dito, e Krishnakishore, brâmane ortodoxo que era, bebeu daquela água. Que tremenda fé!
Não percas a tua esperança em Deus, nem mesmo por um piscar de olhos. Nunca interrompas as tuas relações com Deus, e encontrarás alegria no dia em que os pecadores forem desfeitos.
Dhul-Nun, citando um conselho espiritual que lhe foi dado por um estranho
E entre Seus sinais está este: vês a terra árida, mas quando fazemos descer água sobre ela, estremece e reverdece. Em verdade, Aquele que a vivifica é certamente o Vivificador dos Mortos. Em verdade, Ele é Capaz de fazer todas as coisas.
Alcorão, XLI, 39
Sendo o Prarabdha (karma passado) responsável por todos os acontecimentos, como podem os obstáculos à meditação ser superados?
O Prarabdha concerne à mente apenas quando extrovertida, mas não quando introvertida. O buscador sincero do Si não se preocupa com quaisquer obstáculos. Pensar em obstáculos é o maior obstáculo.
O facto de que homens cujo pesado karma mau os teria condenado a um sofrimento quase sem fim após a morte tenham-se voltado para a vida religiosa e atingido o Nirvana mostra a virtude do Santo Dharma.
‘Acima de tudo, guarda-te de não duvidar nem temer que qualquer das minhas coisas seja difícil e de difícil realização.’
Apuleio (Palavras de Ísis)
Não digas: ‘Há um leão no caminho’; não digas, ainda que a religião seja boa, que é inatingível: não, mas empreguemos todos os nossos poderes numa busca séria e resoluta dela, e dependamos do auxílio do céu, que nunca falta àqueles que a buscam sobriamente.
John Smith, o Platonista
Até as injunções do destino são canceladas se alguém se refugiar em Deus. O destino risca com as próprias mãos o que escreveu sobre tal pessoa.
Pois eles (os Pitagóricos) não concebiam que algumas coisas são possíveis para os Deuses, mas outras impossíveis, como imaginam aqueles que raciocinam sofisticamente; mas acreditavam que todas as coisas são possíveis para os Deuses. E esta mesma afirmação é o início dos versos, que atribuem a Linus, e que são os seguintes:
Todas as coisas podem ser objeto da nossa esperança,
Pois nada de desesperançado em parte alguma se encontra:
Todas as coisas com facilidade a Divindade efetua,
E nada pode frustrar o Seu poder omnipotente.