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id da página: 10366 Anne Machet – Via dos Números

Via dos Numeros

ANNE MACHET — A VIA DOS NÚMEROS


Anne Machet é professora da Universidade Lumière Lyon 2, ficou conhecida por sua obra sobre os lugares de memória, sobre as artes de memória, suas imagens e suas combinatórias. Escreveu também um livro notável sobre os Números, LA VOIE DES NOMBRES, COMPTES DE LA BIBLE GRECQUE, sobre o qual estaremos fazendo citações.

A criança sabe contar bem antes de saber ler e de poder escrever. Para lhe facilitar o acesso a textos importantes, os gregos, por volta do ano mil antes de nossa era, utilizam um alfabeto cujas letras são ao mesmo temo: SignosSonsNúmeros. Estes números, postos a serviço da Bíblia grega, ajudam a escutar as palavras, a melhor entender seu sentido.

Um caminho esquecido — enterrado como as antigas vias romanas que atravessavam a Europa no tempo dos Césares. A via dos Números inscritos na Bíblia grega.

É preciso de posse do texto grego da Bíblia, se lembrar do nome e da forma das letras gregas:

Used in Via dos Numeros

Em seguida é preciso ter me mente o valor atribuído a estas letras:

Used in Via dos Numeros

A partir destas tabelas elementares se desenvolveu a técnica de atribuir um valor às palavras escritas em alfabeto grego, uma guematria sobre este alfabeto. A Bíblia traduzida em grego, a Septuaginta, respeita na atribuição de sentidos a importância deste recurso. Assim como os evangelhos e os outros escritos do NT se servem deste mesmo recurso para transmitir sentidos.

Os N (Números) instalados em casa na morada-Bíblia possuem a força de ideias simples. Sua grande qualidade é de deixar falar o texto, sem adições, e de nos ensinar a deixar vibrar as palavras: descobrir o ritmo, bem escutar, para melhor entender.

A arte de escrever em números pôde ser um instrumento de investigação filosófica, científica, mística também, ao mesmo tempo experimentação, recepção de uum patrimônio e questionamento... A arte dos Números é alimentada de toda a simbologia do Timeu e do Filebo de Platão, revista e corrigida pela escola de Alexandria, desde o terceiro século antes de nossa era.

A aritmética dos dados é muito simples: as quatro operações, a adição para encontrar um total de vários elementos, a subtração para estabelecer um balanço, saber onde estão as contas por exemplo; a multiplicação permitindo evitar repetições fastidiosas de dois elementos avaliando um em relação ao outro; a divisão garantindo a partilha em partes iguais de um conjunto.

Para os gregos os Números têm um valor matemático, filosófico, teológico; amam a sabedoria, exprimem o divino. Por uma série de razões Fílon de Alexandria, exegeta e filósofo do primeiro século dC, trabalha sobre o texto grego da Bíblia, e não sobre o texto hebreu. Os públicos potenciais de Alexandria, nos anos 30 de nossa era, têm uma formação helênica.

O estudo da composição das palavras é uma chave de compreensão. Cada nome atribuído a uma coisa a define com a ajuda do valor das letras que compõem este nome, e signos que o escrevem. Do mesmo modo uma única palavra ensina o abstrato pelo concreto, as relações analógicas, o aparente e o sob-as-coisas, o visível e o invisível.

Na significação e na composição de um grupo de palavras, há um parentesco intencional — sinal para atrair nossa atenção. Sem jamais esgotar o sentido. Assim em sua ordem, no projeto bem preciso estabelecido, os N abrem uma análise cômoda, sempre idêntica qualquer que seja o leitor, não importa em que época. Sua excelência se limita à tarefa determinada: a abertura da linguagem humana a outras artes regidas pelo N. Isto feito, os N, fortes da proximidade radical de que testemunham, se calam. Eles estão em memória. A sua maneira eles celebram sempre o Nome.

Em duas palavras, a prática N levando tudo às Unidades (de 1 a 9) pela numeração reduzida (621 e 126 tendo um valor idêntico 1 + 2 + 6 = 9) permite escapar à vertigem dos grandes números. As harmonias que criam os N se dispõem planas, ou em volume. Elas correspondem a traços, a esboços. Uma aritmética geometrizada e posta em música.


RESUMO DO RESTANTE DO CAPÍTULO I

  • A função primordial do alfabeto grego, utilizado há mais de mil anos antes da nossa era, que servia não apenas para a comunicação escrita, mas também como um sistema numérico.

    • O princípio do valor ordinal das letras, onde cada uma possuía um número de ordem, como atestam os exemplos: iota sendo a nona letra, sigma a décima oitava e ômega a vigésima quarta.
    • A hegemonia do alfabeto grego, elaborado a partir do alfabeto fenício, para contar e efetuar cálculos em toda a Grécia e ao redor do Mediterrâneo.
    • A superioridade do sistema grego devido à sua simplicidade e capacidade única de codificar todos os sons, incluindo as vogais.
    • A prática estabelecida e normativa dos gregos de utilizar o mesmo alfabeto para exprimir sons, escrever palavras e realizar cálculos, um padrão que perdura nos manuais de gramática.
    • A base histórica profunda para a relação entre letras e números, remontando aos sumérios, há mais de três milênios, que desenvolveram alfabetos precisamente porque as letras expressam sons e permitem enumerar cifras.
  • A predisposição inerente do texto grecofone para o ciframento, uma vez que a utilização do alfabeto para fins numéricos era uma evidência e uma prática culturalmente enraizada.

    • O espanto da mentalidade contemporânea, habituada ao aleatório na linguagem, perante a descoberta de uma codificação de palavras praticada há três milênios.
    • O convite para um "jogo de números" que desafia as nossas concepções modernas de linguagem e comunicação.
  • A existência de um código numérico subjacente aos textos, uma descoberta que simplifica e direciona a análise, afastando-se da dependência exclusiva da imagética e das artes da memória.

    • A referência a uma obra anterior, "Si la mémoire m’était comptée", que explorou as técnicas de memorização através de imagens e circuitos sensíveis.
    • A evolução da abordagem para um método mais direto e simples, que "deliberadamente abandona a imagética" e se foca na análise do "texto enquanto enumerado".
    • A concepção do texto como um "local de encontros" preparado, onde os Números (N) se apresentam de forma direta e calorosa, exigindo apenas que se conte.
  • A natureza e função dos Números (N) na Bíblia, caracterizados pela sua simplicidade conceptual e pela sua capacidade de realçar o texto sem adições.

    • A sua qualidade fundamental de "deixar falar o texto" e de nos ensinar a "fazer vibrar as palavras".
    • O seu papel na descoberta do ritmo textual e na promoção de uma escuta atenta para uma melhor compreensão.
  • A exigência de uma disciplina de trabalho rigorosa para verificar as hipóteses de leitura que os números proporcionam para a Bíblia dos Setenta e para o Novo Testamento.

    • O objetivo de encontrar "chaves de leitura" para penetrar de outra maneira em textos redigidos ao longo de séculos.
    • A concepção dos dados numéricos detetados como uma "gramática" que permite analisar este conjunto textual fechado.
    • A conclusão de que a "experimentação a posteriori" defende a existência de uma aritmologia sistematicamente implementada.
  • O paradoxo de que, no auge da evidência imediata dos números como vetor de comunicação universal, o denominador é convidado a transcender o tangível.

    • O reconhecimento do poder dos números como veículo de comunicação rápida entre povos, épocas e gerações.
    • A exigência, devido à natureza do texto estudado, de ir para além do simplesmente quantificável.
  • A complexidade e profundidade do código numérico, que ultrapassa a mera correlação com gráficos, traços fundadores, música ou retórica.

    • A negação de que se trate de simples adições ou de meros auxiliares mnemônicos para a conservação de um património.
    • A sua função crucial para a "segurança da própria mensagem" transmitida de forma clandestina no seio de comunidades dispersas e sob tensão.
  • A coerência dos resultados obtidos, que sugere um combate contra a inércia da matéria vocabular e a coisificação das palavras.

    • A utilização de "múltiplas aproximações" como instrumentos de precisão para compreender uma realidade que constantemente se oferece e se esconde.
  • O paralelo com a lógica matemática contemporânea, nomeadamente os sistemas periciais, que também medeiam realidades complexas através de números.

    • A ideia de que os números permitem a realização acelerada de "possíveis" que são fundamentais, mas não diretamente apreensíveis.
  • A tese central de que a aritmologia grega em ação demonstra que a linguagem é um vetor para tornar manifesto o Saber e o Conhecimento na sua globalidade.

    • A afirmação de que a linguagem, longe de ser excluída do domínio da ciência, é um condutor do conhecimento integral.
  • A solidariedade ativa entre os números, as artes e os ofícios, que dissolve as barreiras entre arquitetura, música e palavra.

    • A observação fundamental de que contar remete sempre para os "dez dedos das nossas duas mãos", ligando a abstração numérica à experiência corporal mais básica.
  • A natureza da busca pelo código numérico, caracterizada por um enterramento nos textos sem sinais manifestos, diferenciando-se de uma simbiose idolátrica com o número.

    • O contraste entre a imprevisibilidade e fluidez do imaginário solicitado pela memória artificial e a rigidez do código numérico.
    • A definição da empresa como uma "busca" que começa por um "enterramento" nos textos, recusando a ideia de o número ser um fator comum e óbvio.
  • A dimensão histórica e geracional do domínio desta arte de escrever com números, que exigiu múltiplas gerações para atingir a maestria.

    • A necessidade de "regras simples de simetria e rigor" em todas as formas de arte.
    • A premissa de que a experimentação e a transmissão implicam a possibilidade de repetições e retomas decididas por quem conhece as regras.
  • A definição da arte de escrever em números como um instrumento polivalente de investigação filosófica, científica e mística.

    • A sua tripla natureza: experimentação, recepção de um património e questionamento.
    • As suas raízes na simbólica do "Timeu" e do "Filebo" de Platão, revista pela escola de Alexandria a partir do século III a.C., sob o axioma "Tudo está em tudo, e reciprocamente".
  • A simplicidade das operações aritméticas fundamentais (adição, subtração, multiplicação, divisão) e a sua função liberatória e organizadora para o espírito humano.

    • A noção atemporal de que um "bom ciframento liberta o cérebro" e dá a certeza de que "a justiça foi feita" porque as contas estão certas.
  • O significado transcendente dos Números para os Gregos, que possuíam um valor simultaneamente matemático, filosófico e teológico.

    • A afirmação de que os Gregos, através dos números, "amam a sabedoria" e "exprimem o divino".
  • A opção estratégica de Filão de Alexandria, no século I d.C., por trabalhar o texto grego da Bíblia em vez do hebraico, justificada pelo contexto cultural do seu público-alvo.

    • A análise do contexto alexandrino dos anos 30 d.C., onde todos os públicos potenciais tinham uma formação helênica.
    • O princípio de que uma mensagem transmitida se enriquece com o conhecimento prévio do receptor e opera por confronto com o "já sabido".
    • A metodologia de Filão, que recorre a passagens conhecidas pelos prosélitos, propõe referências e permite a verificação, com um efeito clarificador.
    • A decisão de Filão de escrever em greco, dirigindo-se assim àqueles que, como ele, eram atraídos pela vida contemplativa e pelo legado da filosofia grega.