Bíblia das Origens
O triplo «criou» que saúda ao final do RELATO DOS SEIS DIAS a Criação do Homem, não sugere somente uma apoteose, o cumprimento da obra do começo. A estrutura ternária do enunciado não é verdadeiramente repetitiva, e as três frases que a compõem não são paralelas. Como a cronologia do conjunto do relato, sua meta não é poética mas pedagógica, no sentido amplo. Trata-se de nos fazer compreender, ou melhor de nos «lembrar» que o Homem, diferentemente dos animais, foi criado triplamente, em três estágios senão em três etapas, em três níveis diferentes senão em três fases sucessivas.
Enumeremos segundo a ordem no texto:
- E Deus Criou o Homem a sua imagem
- à imagem de Deus o Criou
- macho e fêmea os Criou
O paralelismo aparente das duas primeiras fases o é em nossas línguas, não em hebreu onde o verbo precede o sujeito exprimido (Deus) na linha 1 que se lê «E Criou Deus o Homem a sua imagem (ou em seu imaginário)» enquanto na linha 2 o sujeito está incluso na forma verbal e a frase se lê literalmente «à imagem de Deus Criou ele». A identidade do sujeito não é duvidosa posto que o verbo «Criar» em hebreu só pode ter por sujeito Deus. Mas a inversão do lugar do mesmo sujeito e do mesmo predicado de uma frase à outra, o efeito de espelho entre elas é certo.
E que significa este efeito de Espelho, senão que as duas frases (e fases) se respondem mas em consonância, e que a primeira existia só e precedia a segunda que a reflete? Em um primeiro «tempo», em seu imaginário unicamente, Deus Criou o Homem de certa maneira «absoluta», «em si». Em seguida o Criou na consciência de sua «imagem» que é o Homem, quer dizer «para si». O Homem existe doravante ao mesmo tempo na ideia de Deus e em seu foro interior a ele. Mas ainda não diante de si, posto que não tinha corpo.
Só na terceira frase (e fase), na linha 3, que Deus explicitamente cria o Homem encarnado, sexuado, dotado de um cérebro funcional e de todas as características de um animal mas a um grau infinitamente mais desenvolvido que seus predecessores, com os quais ele aparece desta feita ao mesmo tempo em continuidade e em ruptura.
Em continuidade posto que segundo o relato o Homem é como os «animais terrestres» a obra do «Sexto Dia», e em ruptura posto que foi após eles Criado neste dia, enquanto eles só foram «produtos», compreendendo os mais evoluídos («que a terra produza os animais»). Produtos além do mais, e o texto insiste muito nisto, «segundo suas espécies», quer dizer em número e em diversas variedades. O Homem ao contrário é Criado um. Um em duas pessoas («Macho e fêmea os Criou»). Este «os» em hebreu é um dual não um plural, e não desmente o «o» da linha precedente. Não é feita qualquer menção de «espécie» a seu respeito.
Antes de ser Criado macho e fêmea, quer dizer enquanto animal, O homem segundo o texto, nós o vimos, já é Criado duas vezes. Uma vez na imaginação de Deus, e uma vez na consciência que tem dele mesmo. Mas se trata de anterioridade ou de interioridade? Me parece que as três fases que marcam os três «Criou» vão do interior ao exterior do Homem, de seu núcleo a sua casca. Ele é «então» quer dizer essencialmente Criado na ideia de Deus, em seguida Criado em sua própria consciência em seguida somente enfim Criado «no exterior» quer dizer na ordem manifesta, à qual só aparece em último lugar.