VIDE: CRIAR
Bíblia das Origens
Deduzo que impulsionada pelo “Criou” inicial (1,1) a obra divina se desenvolve de alguma forma dela mesma até o “Criou” seguinte (1,21) segundo o germe (o programa) que a palavra de Deus depôs nela “no princípio” para os quatro primeiros “dias”. Mas no quinto dia intervém uma “mutação” decisiva, uma diferença não de grau mas de natureza, um salto qualitativo intransponível para qualquer “programa”, e que nenhum acaso, nenhuma necessidade, nenhum determinismo mesmo muito solto não pode espontaneamente provocar. Uma nova impulsão Criadora parece indispensável. De que ordem? É aqui que aparece a significação exata do verbo Criar. O que é que separa radicalmente o “reino animal” do “reino vegetal” e mesmo do “reino mineral”: não a composição da matéria orgânica ou inorgânica, mas a emergir, no seio desta matéria, da liberdade.
A liberdade de movimento. Não confundir com a capacidade de movimento, própria a toda energia, toda matéria, todo embrião de vida. Das partículas aos astros e às plantas. Falo da capacidade de movimento não repetitivo, não previsível, não quantificável, não enraizado. Esta primeira forma concreta de liberdade, Deus a introduziu na sua obra com os peixes — os primeiros animais segundo a cronologia comum à Bíblia das Origens e à... Darwin. E ela se transmitiu em seguida, pela evolução genética, complexificação, adaptação às circunstâncias, que Deus deixou fazer ou fez fazer sem nova impulsão Criadora, mesmo se ele acompanha o processo pela palavra, aos animais terrestres. Aqueles herdando naturalmente dos peixes a liberdade de movimento, Deus não tem necessidade de intervir para lhes dá-la. Pelo contrário ele deve o fazer “triplamente” em favor do Homem a quem ele quer dar uma forma de liberdade infinitamente superior àquela dos animais, quase comparável a sua.
[...]
“Que a gente alada seja numerosa sobre a terra” (Gen 1,22). Literalmente “na terra” (B'R (TS) pronuncia-se “baarets”). Em Gen 1,21, é dito “que ela voe acima da terra, na superfície do firmamento dos céus” e em Gen 1,30 será questão “da gente alada dos céus”. Em Gen 1,21 e Gen 1,30, a gente alada é vista em seu meio. Enquanto que Gen 1,22 precisa os limites de sua liberdade. Se os pássaros voam, não podem duravelmente deixar a terra.
Uma outra prova é que este apelo não é dirigido aos animais ditos “terrestres”, que Deus não “Criou”, mas que “deixou fazer” pela terra.
E no entanto os animais terrestres se assemelham aos peixes e aos pássaros (e às plantas) e se distinguem do Homem, sempre segundo a Bíblia das Origens, em que constituem por natureza “espécies”.
A palavra “espécie” (MYN, que quer dizer “sexo” em hebreu moderno) não figura menos de dez vezes no RELATO a respeito das plantas, dos peixes, dos pássaros e dos animais terrestres (1,11.12.21.24.25) Jamais a respeito do Homem.
Se portanto este apelo, como o pretende a interpretação tradicional fazia parte de uma diretiva natalista, de uma exortação a propagar, por via da reprodução sexual, as diferentes espécies, porque não seria dirigido aos animais terrestres, e porque o seria ao Homem? (vide Crescei e Multiplicai-vos).