QUISPEL, Gilles; OORT, Johannes van. Gnostica , judaica , catholica: collected essays of Gilles Quispel. Leiden: Brill, 2008.
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O Evangelho de Filipe e a Reconstrução da Doutrina Valentiniana
- A publicação do Evangelho Copta de Filipe em 1956 assumiu importância capital, permitindo estabelecer a relação do conceito de homem de Valentinus com a teologia judaico-cristã do Espírito Santo.
- A visão de Eduard Schwartz, segundo a qual a Gnose Valentiniana constituía uma ruína caótica impossível de reconstrução, deixaria o gnóstico mais brilhante como um enigma permanente, situação insatisfatória para a erudição.
- A doutrina primitiva de Valentinus era mais simples que a de seus alunos Ptolomeu e Heracleon, conhecendo apenas uma Sophia e valorizando o mysterium conjunctionis ou syzygia entre o homem e seu anjo ou Eu transcendental.
- A genealogia deste anjo remonta ao anjo da guarda, concebido como imagem e contraparte (iqonin) no Judaísmo e Cristianismo primitivo, derivado ultimamente do conceito grego pitagórico de um daimon.
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O Cristianismo Judaico e a Observância do Sábado
- Os escritos Pseudo-Clementinos possuem relação especial com os Elkesaites judaico-cristãos, contrariando a tese de que formariam um romance sem valor histórico.
- O Cristianismo Judaico foi responsável pela fundação de congregações em Edessa, Alexandria, Cartago e Roma.
- O Logion 27 do Evangelho de Tomé, de origem judaico-cristã, prescreve a observância do sábado: Se não jejuardes do mundo, não encontrareis o Reino; se não guardardes o Sábado como Sábado, não vereis o Pai.
- Os Masbotheans (batistas) mencionados pelo Pseudo-Jerônimo afirmavam que o próprio Jesus lhes ensinou a guardar o sábado em todas as coisas; o termo masbuta em aramaico significa batismo.
- O Códice de Mani confirma que os cristãos judeus no sul da Babilônia, entre os quais Mani viveu, eram denominados batistas devido à prática frequente de abluções.
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A Pneumatologia do Anjo na Teologia Judaico-Cristã
- Uma característica marcante da teologia judaico-cristã reside na Pneumatologia do Anjo, onde o Espírito Santo é concebido como um anjo.
- A Ascensão de Isaías, provavelmente de Alexandria, menciona o anjo do Espírito Santo como objeto de adoração: E eu vi o Senhor e o segundo anjo... e ele disse a mim, 'Adora-o, pois este é o anjo do Espírito Santo'.
- O relato de Atos 8:26-29, envolvendo Filipe e o eunuco, apresenta o anjo do Senhor e o Espírito como variações do mesmo tema, indicando uma origem hebraica arcaica e não helenística.
- A interpretação de Isaías 11:2 sobre os sete espíritos levou ao conceito dos sete protoktistoi (primeiros criados) em Clemente de Alexandria; estes sete anjos representam o Espírito Santo em um esquema trinitário subjacente.
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O Conceito de Gênio, Daimon e Ícone
- O conceito de anjo da guarda como iqonin (ícone, imagem) e contraparte exata do homem era conhecido pelos judeus da Palestina helenística e adotado pelo Cristianismo aramaico de Edessa.
- O Testamentum Domini afirma a preexistência desta imagem: Pois de toda alma a Imagem (salma) ou tipo está de pé diante da face de Deus mesmo antes da fundação do mundo.
- A interpretação do selem de Gênesis 1:27 refere-se não à aparência exterior ou razão, mas ao Eu transcendental eterno e inconsciente.
- O Logion 84 do Evangelho de Tomé aborda o encontro com o Eu celestial: Jesus disse: Quando vedes a vossa semelhança, regozijais. Mas quando vedes as vossas imagens que vieram à existência antes de vós, que nem morrem nem são manifestadas, quanto suportareis!
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Identidade entre Espírito Santo e Anjo da Guarda
- Aphrahat identifica o anjo da guarda dos pequeninos com o Espírito Santo que contempla a face de Deus e habita no homem: Portanto este Espírito vai continuamente e está diante de Deus, contempla a face dele, e acusa diante de Deus aquele que inflige dano ao templo por ele habitado.
- O místico Macarius e o Hino da Pérola nos Atos de Tomé também identificam o Espírito e a Imagem (eikon) como sendo o mesmo Eu celestial.
- O Pastor de Hermas reflete a tradição judaico-cristã onde o Espírito Santo é uma mãe e o anjo do espírito profético que preenche o homem é simultaneamente o Espírito Santo e um guardião pessoal.
- A sugestão de que o anjo do profeta seria um daimon paredros ou espírito familiar de feiticeiro deve ser rejeitada em favor da origem judaico-cristã comum a Hermas e Aphrahat.
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A Tradição Alexandrina e a Formulação Valentiniana
- Na Pistis Sophia, o Espírito Santo é descrito como anjo da guarda e imagem de Jesus, formando uma unidade com ele: E nós olhamos para vós e ele e vos achamos assemelhando-se a ele... Ele vos abraçou e vos beijou e vós também o beijastes, vós vos tornastes um (oua nouōt).
- Orígenes apresenta a interpretação de que com cada crente está presente um anjo que é um com ele, e a perdição constitui a ruptura desta unidade fundamental.
- Clemente de Alexandria preserva nos Excerpta ex Theodoto a tradição da identidade entre os anjos da guarda e os Protoktistoi (Espírito), evidenciando que anjo da guarda e Espírito Santo são a mesma entidade.
- Valentinus utilizou esta tradição existente para formular a doutrina do casamento entre o ego e o Eu (syzygia), levando a uma ontologia dos princípios masculino e feminino (Bythos e Sigè).
- O Evangelho de Filipe alude à proteção conferida por esta união no sacramento da câmara nupcial: Ninguém será capaz de escapar deles [espíritos impuros], visto que eles o detêm, a menos que ele receba um poder masculino e um poder feminino, a saber, o noivo e a noiva.
- O anjo da guarda é atribuído ao homem durante o sacramento do batismo, base do mistério da câmara nupcial valentiniano, e a presença do Espírito impede a adesão de espíritos impuros: Pois se eles tivessem o Espírito Santo, o espírito impuro não se apegaria a eles.
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Divergências na Escola Valentiniana e a Experiência de Mani
- Valentinus ensinava uma escatologia realizada onde o Cristo trouxe o anjo do Espírito para inspirar a Gnose na vida presente, visão mantida por Axionicus em Antioquia e pelo Evangelho de Filipe.
- A escola de Ptolomeu transformou este conceito em escatologia futurista, situando a união na câmara nupcial apenas no fim do processo cósmico, como reflete a inscrição de Flavia Sophè.
- A experiência religiosa de Mani deve ser compreendida na perspectiva da pneumatologia do anjo judaico-cristã; seu Gêmeo ou Eu celestial era o anjo at-Taum, o Paráclito e o Espírito Santo.
- O termo anjo é do próprio Mani e não uma adição iraniana posterior; ele cresceu em uma comunidade de Elkesaites judaico-cristãos.
- Mani enriqueceu o conceito do Anjo do Espírito como guardião exclusivo do profeta verdadeiro, identificando o Gêmeo com seu próprio Eu empírico, conforme o Códice de Colônia: Eu o reconheci, que ele era eu, de quem eu tinha sido separado.