Oscar Cullmann, Le problème littéraire et historique du roman pseudo-clémentin. Étude sur le Rapport entre le Gnosticisme et le Judéo-Christianisme. Félix Alcan, 1930
Prefácio
O primeiro romance devido à caneta de um autor cristão e conservado em várias edições diferentes designadas pelo nome de “Pseudo-Clementinas” esteve em voga na teologia protestante de um século atrás. Desde então, esses escritos ocupam um lugar muito modesto nos trabalhos dos teólogos e historiadores, que sentem uma grande dificuldade em situar seu conteúdo no quadro geral da história do cristianismo antigo. Esse desfavor nos parece ainda menos justificado do que a voga extraordinária que essas obras desfrutaram antigamente. É verdade que o papel das Pseudo-Clementinas não é aquele que a escola de Tubingue lhes havia emprestado. A importância que lhes atribuímos reside em outro lugar, mas não é menos grande. Se os nossos escritos se recusam a se curvar ao quadro que se construiu para fazer caber as diferentes manifestações do cristianismo antigo, é que esse quadro talvez apresente lacunas.
Há alguns anos, uma reviravolta se esboça nos estudos sobre o nascimento do cristianismo e sua relação com os movimentos gnósticos e apocalípticos do judaísmo. Reconhece-se que muitos elementos atribuídos antigamente a uma influência tardia do helenismo sobre o cristianismo já constituído, remontam, na realidade, às próprias origens do cristianismo, a vida religiosa do judaísmo palestiniano tendo sido, na época em que nasceu o cristianismo, muito mais rica do que se pensou. A nova orientação que os estudos mais recentes sobre o evangelho joânico tomam, é um dos sintomas dessa reviravolta.
Recorreu-se aos textos mandeístas para evidenciar a relação entre o gnosticismo judaico e o cristianismo primitivo. Mas pelo mandeismo, não se saberia demonstrar a existência dessa relação senão de uma forma indireta. O único documento emanando de um meio nitidamente judeu-cristão e antipauliniano e ao mesmo tempo nitidamente gnóstico, está contido nas Pseudo-Clementinas. As ideias contidas nessa obra representam o elo necessário, a nosso ver, para explicar a introdução de certas noções do gnosticismo judaico no cristianismo.
Não pudemos tentar nosso ensaio de recolocar nossa fonte em seu quadro histórico, senão depois de ter retomado, em seu conjunto, o problema literário colocado pelas Pseudo-Clementinas. De fato, a maioria dos historiadores que estudam o cristianismo antigo, não levam em conta os nossos escritos, sob o pretexto de que o problema literário não está resolvido. É verdade que esse problema é particularmente complexo. Harnack o considerou como o mais difícil da história da antiga literatura cristã. Mas o estado atual da questão não nos pareceu justificar o desânimo que a maioria dos críticos continua a manifestar a seu respeito.
Por nosso estudo, esperamos contribuir para reabilitar, do ponto de vista de seu valor literário e histórico, obras que desempenharam um papel eminente na antiguidade e na idade média. Para o historiador e o teólogo modernos, eles nos parecem retomar uma atualidade toda particular, pela nova luz que projetam sobre as origens do cristianismo e sua relação com o gnosticismo. À luz do problema histórico das Pseudo-Clementinas, as grandes questões do cristianismo primitivo: o papel de João Batista, a originalidade de Jesus, a teologia paulina e joanica, tomam um aspecto novo.