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id da página: 6507 Potentia Oboedientialis

Potentia Oboedientialis

POTENTIA OBOEDIENTIALIS

Filosofia

Frei Hermógenes Harada: Excertos de Ensaios de Filosofia

A partir dessa indagação (v. Aseidade), voltemos ao texto do sermão 1 de Eckhart para nos aproximarmos da compreensão do nada que ali poderia estar sub-jacente, agora com mais cuidado. Ali, o deixar de ser da alma, o seu tornar a ser nada, longe de ter a conotação de aniquilação ou destruição ou redução à va-cuidade coisificada parece significar pelo contrário a libertação do auto-enrolamento da indevida solidificação de uma fluência num algo fixo coisificado como eu. Ou melhor, no nada descrito por Eckhart no sermão parece tratar-se da libertação de uma falsa compreensão do que seja a alma humana que deixa de se compreender como ser ela mesma, no momento em que se compreender, reduzida de alguma forma ao sentido do ser que não faz jus ao próprio do seu ser como eu. O vilão aqui não é propriamente o eu, mas sim a redução do eu à coisa, ao algo, ao núcleo em si, a tal ponto que o eu não mais aparece como ele é, não se tornando solto, à vontade na sua verdadeira identidade. Assim, a dissolução desse eu empacotado como núcleo em si, o desprendimento dessa eu-ligação equivale a deixar ser a alma na sua, a mais íntima identidade, o nada. Esse nada seria a pura possibilidade, chamada potentia oboedientialis. Mas se possibilidade, então possibilidade de ser? Não, possibilidade de deixar de ser. Mas como, nesse deixar de ser, ser nada significa deixar ser, isto é, possibilidade de obedecer, esse deixar de ser se torna deixar ser no sentido de pura recepção. Na niilidade dessa pura recepção, na qual a própria possibilidade de receber é dada, tanto a própria receptividade como a sua possibilidade são recebidas. A alma é nada no sentido de pura abertura, pura dis-posição e ex-posição de si mesma, a Ent-äusserung e Gelassenheit. Nesse sentido, não há nenhum ente criado que no seu próprio seja tão dis-posto, tão ex-posto, tão ex-propriado, tão impregnado de nada, tão absolutamente despojado no seu ser dos mínimos resquícios do ser e da possibilidade de ser do que a alma humana. Tudo isso quer nos dizer que, em Mestre Eckhart no sermão 1, a "relação" entre Deus e alma e a exortação à alma de deixar de ser para se deixar ser e ser capaz de Deus — e juntamente todas as palavras como tudo e nada, ser e ente, Criador e criatura, dentro e fora — devem ser compreendidas nelas mesmas, sem reduzi-las à compreensão do ser e nada a modo do ser como algo, coisa, núcleo do em si ocorrente. E isto que se quer dizer, quando observamos acima que devemos compreender o nada não a partir do material, mas sim o material a partir do nada.