Skip to main content

Nadidade

NADA — NADIDADE


VIDE: POBREZA; KENOSIS, NADA, VAZIO

Allard l'Olivier: L'ILLUMINATION DU COEUR

Quando se abre o Olho do Coração, a mente humana vê que é, desde sempre e para todo sempre, vista por Deus que se mira nela. Então, o Existir divino ressoa nesta mente, de sorte que esta mente experimenta que nada é existencialmente senão Deus que nela ressoa, e que todo o resto, a psique, o corpo, e além do corpo, o o mundo das coisas sensíveis em seu conjunto, não existe, jamais existiu, não existirá jamais.

O desvelamento reduzindo a criatura individual a este nada existencial que é seu verdadeiro estatuto, lhe ensina sua extrema pobreza, e por aí, lhe mostra a verdade da humildade absoluta; no entanto, a criatura assim extinta não é entretanto pobre e humilde: é na vida cotidiana que aquele que quer evitar o Julgamento deve cumprir esta apuração à maneira de uma extinção progressiva cumprida no Amor. O homem é convidado a renunciar a sua vontade própria para que a vontade de Deus se cumpra nele, e a perder sua vida para ganhá-la. E quando tiver se tornado nada, pela vida de uma purgação cumprida na vida cotidiana, viverá da vida mesma de Deus, e as três Pessoas se comunicarão em sua alma, lhe falarão e lhe darão a inteligência destas palavras pelas quais Nosso Senhor disse no santo Evangelho (Jo 14,23) que ele virá ele mesmo com o Pai e o Espírito Santo habitar na alma que o ama e que guarda seus mandamentos.


Filosofia

Frei Hermógenes Harada: Excertos de Ensaios de Filosofia
Mestre Eckhart diz (SERMÃO II): "Tão longe tu sais de todas as coisas, tanto assim, não menos e não mais, Deus entra com todo o seu, até lá onde, em todas as coisas, tu te exproprias do teu". A palavra usada por Eckhart aqui traduzida por expropriar é em alemão ent-äussern. Äussern quer dizer externar, ser ou tornar-se exterior. Ent- é um prefixo que indica abertura de surgimento: o movimento de vir a ser. O que significa aqui tornar-se ou ser exterior, vir para fora, abrindo-se como surgimento? Seria permitido interpretar esse expropriar-se que é sich ent-äussern como voltar a ser aquilo que se era antes de o homem ser enrolado como algo, em-si-mesmado, isto é, im-plicado como em-si mesmo, internado, entocado? Aqui ex-propriar-se seria virar-se de avesso na reversão, na ex-plicação, se desdobrando, se externando e voltando a ser ele mesmo totalmente aberto para fora, isto é, aberto como nada aberto, como a pura abertura que nada é? Qual uma mola que, como uma chapa reta de aço, "desnaturalizada" a se enrolar, uma vez deixada ser ela mesma, se estende, se desenrola, deixando de ser em si, para ali abrir-se simplesmente estendida? Que tal, se as coisas ao redor de mim como isto ou aquilo, inclusive eu mesmo, como coisa em si, surgem somente, quando eu estou enrolado em mim mesmo e a partir dessa implicação implico com isso e aquilo, me apegando a mim e a outras coisas como algos, prolongamento e repetição de mim mesmo, enrolado também como algo? O que acontece, se eu me desfaço e me exteriorizo, voltando-me a estender como a abertura do nada, isto é, se eu saio de todas as coisas e de mim mesmo, me ex-propriando do que é meu, do meu eu, totalmente? Todas as coisas em si mesmas como algo não se libertariam da prisão da coisificação-algo, em se estendendo como momentos da fluência da imensidão do aberto do nada que sou eu mesmo? E Mestre Eckhart responde: "Deus entra com todo o seu até lá, onde em todas as coisas tu te exproprias totalmente do teu". Mas, como pode Deus entrar com o seu em, se não há mais dentro, nem eu, nem o meu, se tudo é nada?

De repente, surge uma suspeita: Mestre Eckhart chama esse processo do enchimento de mim por Deus — na medida em que eu saio de mim mesmo —, de troca de igual valor. O negócio de eu sair e na medida em que eu saio Deus entrar em mim é troca de igual valor no sentido de aqui se tratar de igual coisa, de igual causa, de igual valência... Portanto, não é que eu saia de mim e Deus entra. Mas sim, quando volto a me desenrolar e me torno o que era antes de ser algo, isto é, nada, esse nada é igual a Deus. Pois se nada é nada, e Deus "entra" em mim com todo o seu, isto significa que o nada, ou melhor, o nada de mim é igual a Tudo, não é outra coisa do que Deus com tudo que é seu. É daí que podemos compreender a Mestre Eckhart, quando diz: Se alguém é assim nada, é natural, é imperativo que ele comece ali mesmo, no e como nada, pois esse nada é originariamente, propriamente, o começo e elemento dele mesmo. E permanecendo sempre novo e de novo nesse começo, aja à vontade como pode, isto é, como vermag, a saber, como gosta, em ser natural e nascivo na plena liberdade de ser nada, e deixe-se degustar de tudo isso que assim nessa abertura livre lhe vem à tona. Em sendo assim, somos, por não ser, o próprio Deus: Deus, sendo, agindo como nós mesmos... Essa niilidade é a essência da Pobreza, a que Eckhart descreve, ao definir quem é o Homem pobre como: quem nada quer, e nada sabe, e nada tem (sermão 32). Entrementes, soam ambíguos os verbos grifados por próprio Eckhart: nada quer, nada sabe, nada tem. Pois nada aqui pode significar não, não quer, não sabe, não tem. Mas pode também significar quer, sabe e tem o nada. Mas, se o nada é nada, o próprio modo de querer, saber e ter deve se nadificar a seu modo próprio do nadaquerer, nadasaber e nadater, na acepção do nada pressuposto por Eckhart.

FREI SANDRO GRIMANI: A LINGUAGEM SIMBÓLICA A SERVIÇO DA VIDA ESPIRITUAL EM S. JOÃO DA CRUZ
"Um grande cálice não pode conter dois tipos de bebidas ao mesmo tempo: se deve conter vinho é necessário que não contenha água e que esteja vazio. É por esse motivo que quando se deseja receber a alegria divina, deve-se necessariamente afastar-se das criaturas. Em resumo, todo aquele que recebe deve estar necessariamente vazio". (Maítre Eckhart, "Le Traités", Ed. du Seuil, 1971, pág. 111)

"Por conseguinte, a alma renunciando e afastando de si o gosto de todas as coisas, mortificando nelas o seu apetite, encontra-se na prisão às escuras, o que não é outra coisa senão um vazio em relação a tudo". (1S 3, 2)

"A afeição para com Deus e aquela para com as criaturas são dois contrários e, assim, não podem existir em uma só vontade". (1S 6, 1)

A analogia do cálice e do vazio insinua e evoca uma idéia de oposição e quase que de exclusão entre humano e divino, embora, na realidade, se trate apenas de harmonizar, coordenar e direcionar a vida em sua inteireza, com todas as suas potencialidades, para a assimilação dos valores evangélicos.

Como o relativo por si só não se opõe ao Absoluto mas simplesmente dele depende, a analogia da luz e da escuridão resulta mais lógica e clara na tentativa de demonstrar que o relativo revela seu valor e significado respeitando tão só a relação que o une ao Absoluto.

"Para atingir esse estado sublime de união com Deus é indispensável à alma atravessar a noite escura da mortificação dos apetites e da renúncia a todos os prazeres deste mundo. As afeições às criaturas são diante de Deus como profundas trevas de tal modo que a alma, quando aí fica mergulhada, torna-se incapaz de ser iluminada e revestida da pura e singela claridade divina, pois a luz e a escuridão são incompatíveis". (1S 4, 1)