VIDE: DESPERTAR MORRER RENASCER
Orígenes: COMENTÁRIOS SOBRE MATEUS
Logo como dissemos que a interpretação das parábolas e das similitudes não se prende a todos os detalhes destas parábolas e destas similitudes, mas somente a alguns, devemos igualmente demonstrar, na sequência de nossa exposição, que, quando se trata de peixes, no que concerne sua vida, é uma infelicidade que lhes sucede quando são descobertos na rede — pois é da vida que lhes deu sua natureza que são privados, e que são postos nos cestos ou lançados longe, não há para eles destino mais funesto que de perder sua vida de peixes. Ao contrário, segundo a interpretação da parábola, é uma infelicidade de se encontrar no mar e de não entrar na rede para ser posto nos cestos com os bons. Da mesma maneira, os peixes de má qualidade, são descartados e se joga eles longe, mas os maus que concerne a similitude proposta, são «lançados na fornalha de fogo», a fim de que isto que escreveu Ezequiel a respeito da fornalha lhes suceda a eles também: «E a palavra de Deus me chegou também: Filho do homem, eis, que para mim todos os habitantes da casa de Israel se tronaram uma mistura de bronze e de ferro... e em seguida, até: ... e sabereis que eu o Senhor, despejei minha cólera sobre vós» (Ez 22,17-22).
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 11
Os termos morrer e viver, estar morto e ser Vivente, se utilizam comumente no NT e provavelmente no AT em muitos casos, com um sentido oculto que podemos denominar espiritual e que dá como consequência, em geral, uma significação inversa à que se entende do ponto de vista habitual. Este sentido oculto que interpreta viver, Vivente, por ter a vida eterna e morrer, estar morto, por figurar inscrito na vida temporal, mortal, foi bem entendido de maneira manifesta e não nos exime de agora tentar um trabalho exegético sobre ele.
Vivo, Vivente, é sempre o Filho do homem, o homem pneumático, posto que tem vida eterna na participação com o Pai. Daí que todo aquele que ouve a Palavra e a guarda recebe o fruto da Vida eterna e não tornará a saborear a morte (com toda carga de transfiguração da consciência — de identificação com o que em si mesmo é eterno — que isto significa). Por isso diz Jesus: "Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida" (Jo 5,24)
Por outro lado, estão mortos os que não ouvem a Palavra, os que não escutam a voz do Filho de Deus. Deles se diz que habitam em trevas e sombras de morte e se considera como mortos aos quem tenham como tarefa única, que enterrem a seus mortos, e isso certifica que o Adão psíquico-hílico vive só para morte.
Só a Boa Nova transmite seu convite esperançoso: todo aquele que é para morte no coração do homem, pode ser purificado mediante à ação metanoética das águas batismais do céu de abaixo, procedentes da nuvem, e depois, mediante uma depuração alquímica, ser todo ele consumido pelo fogo do conhecimento. A isto se denomina devorar o que está morto. O que resta depois desta difícil e necessária realização é uma chama de Luz viva, ou melhor, a consciência renascida, convertida em Vivente, como superior fruto de conversão. A isto se chama estar na luz.
A última proposição do logion 11: que fareis quando tendo engendrado o dois, estiverdes na luz? Tem uma resposta: trocar o dois em Um e converter-se no Filho do homem, enquanto ato decisivo de transfiguração da consciência.