Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 11
No Gênesis se diz que quando Deus fez o firmamento separou as águas de baixo do firmamento, das águas de cima do firmamento. Por essa razão chamou o firmamento céus, no plural, e não céu, porque eram dois, o provedor das águas de baixo e o das águas da parte superior os denominou "os céus dos céus" (Gen 1,7; Deut 10,14; 1Reis 8,27).
Quanto ao firmamento, o mar de bronze que sustenta a abóbada do céu, não só serve de fronteira objetiva de ambos os céus (com águas de nuvem o inferior e sem necessidade de nuvem alguma o superior), senão que é, desde uma concepção subjetiva, um limite imposto à consciência psíquica do homem, um muro intransponível que impede ao homem terreno a contemplação aberta e ilimitada do mundo. De maneira metafórica se diz: "Os céus de acima de tua cabeça serão de bronze" (Dt 28,23).
Segundo a tradição, de bronze polido se faziam na antiguidade os espelhos; com um grande brilho, como atesta o profeta Ezequiel: "Reluziam como o fulgor do bronze polido" (Ez 1,7). Ou como diz Jó: "A abóboda do céu sólida como espelho de metal fundido" (Jn 37,18). O fato de descobrir o firmamento como um espelho, se funda em que em seus fulgores — pálido reflexo da luz que emana da esfera superior — transmite ao homem que purificado pelas águas batismais, o contempla, alguns rasgos de sabedoria do Ser. Por isso se disse: "Os doutos brilharão como o fulgor do firmamento" (Dn 12,3), e por isso, também Paulo Apostolo, que deve ter olhado acima intensa e cotidianamente, exclama: "Agora vemos em um espelho, e enigma" (1Cor 13,12).