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id da página: 28 Mestre Eckhart – Jean-François Malherbe – Sofrer Deus

Malherbe Olho Deus

Mestre Eckhart – Jean-François Malherbe – Sofrer Deus


MALHERBE, Jean-François. Souffrir Dieu. La prédication de Maître Eckhart. Paris: Cerf, 1992

Ver com o olho de Deus

O que se desprendeu "tem em vista a honra de Deus em todas as coisas". O que significa isso? É aqui, a meu ver, que Mestre Eckhart procede à última inversão de seu ensino. "Chegaremos a dizer que aquele que se desprendeu seja Deus?" perguntava ele; "sim!" havia respondido, abrigando-se atrás da autoridade de Agostinho. Agora, ele nega essa afirmação e sustenta que é o próprio Deus que se torna aquele que se desprendeu e não aquele que se desprendeu que se torna Deus. Mas essa dialética subtil que o conduz a esse ponto último onde a própria existência de Deus é mantida em suspenso, só se compreende a partir de uma educação do olhar, da formação de um olhar além de todo olhar:

A alma tem dois olhos, um interior, outro exterior. O olho interior da alma é aquele que olha no ser e recebe seu ser de Deus sem nenhum intermediário: é sua operação própria. O olho exterior da alma é aquele que está voltado para todas as criaturas e as percebe segundo o modo de imagens e o modo de uma potência. Ora, o homem que se voltou para dentro de si, de sorte que conhece Deus em seu próprio gosto e no próprio fundo deste — esse homem está desprendido de todas as coisas criadas, está encerrado em si mesmo sob uma verdadeira fechadura de verdade.

O desprendimento do homem é a passagem do olho exterior ao olho interior, a conversão mais exatamente do olho exterior em olho interior, ou ainda, a transfiguração do homem exterior em homem interior. E essa passagem, essa páscoa, tem por fruto a visão em todas as coisas da honra de Deus:

Quem honra Deus? Aquele que tem em vista a honra de Deus em todas as coisas.

Se se considera uma mosca em Deus, ela é muito mais nobre em Deus que o anjo mais elevado o é em si mesmo.

Compreende-se agora toda a amplitude dessa enigmática oração de Eckhart:

É por isso que rezamos a Deus para sermos desapossados de Deus e acolhermos a verdade e dela gozarmos eternamente onde os anjos mais elevados e a mosca e o burro são iguais.

É no olho interior da alma, em Deus, que todas as criaturas tomam sua igual nobreza e dignidade.

Prestai atenção! Sabei isto: aqueles que se abandonam a Deus e buscam somente sua vontade com todo seu zelo, seja o que for que Deus dê a tal homem, é o melhor, sê tão certo disso como o és que Deus vive: é aí necessariamente o melhor e nenhum outro modo poderia ser melhor.

Se acontece que alguma outra coisa te pareça melhor, não seria no entanto tão bom para ti, porque Deus quer esse modo e não outro modo, e é necessário que esse modo seja para ti o melhor modo. Seja doença ou pobreza ou fome ou sede, ou seja o que for que Deus te imponha ou não te imponha, te dê ou não te dê, tudo isso é o melhor para ti; seja piedade ou interioridade, que não tenhas nem uma nem outra, e seja o que tu tenhas ou que não tenhas: estabelece-te bem somente nessa disposição de considerar em todas as coisas a honra de Deus e seja o que ele te reservar então, é o melhor.

Mas o que vale para a criação vale também para si mesmo:

Desprende-te de ti mesmo e de todas as coisas, e de tudo o que és em ti mesmo, e apreende-te segundo o que és em Deus.

Apreender-se a si mesmo segundo o que se é em Deus, isto é, apreender-se a si mesmo como Deus, como pai, como insondabilidade, como inominabilidade, como unidade, o que é senão estar desprendido, em verdade?

É aqui aliás que convém salientar que os sermões do dominicano só tomam seu sentido no conjunto de uma démarche pedagógica que ele propunha às monjas cuja instrução espiritual lhe estava confiada.

Isso diz o quanto o diálogo é importante na prática eckhartiana. O pregador não o tematiza como tal. Parece ter-se contentado em praticá-lo. Não obstante, a regra de ouro de tal acompanhamento poderia expressar-se assim: sempre considerar o outro em Deus.

A relação verdadeira do mestre e do discípulo pode aliás ser estendida a toda relação humana marcada pelo selo da verdade. Simplesmente, cada um será por vez, como na amizade, por exemplo, o mestre do discípulo e o discípulo do mestre.

É necessário, de fato, o olho interior para que à força de afeto, de respeito, de confiança, de prevenção e de ternura, o outro invente meu verdadeiro rosto e solicite minha conversão. E minha protestação sincera, que ele não me conhece verdadeiramente tal como sou, que esse rosto é demasiado nobre para mim, que permaneço mentiroso e gozador, virá a gastar-se sobre sua teimosa benevolência. E acabarei por assemelhar-me ao meu rosto interior porque o outro, mestre ou amigo, terá comovido em mim um ser oculto, cuja existência eu queria ignorar, mas que não poderá impedir-se de surgir um dia, pois é solicitado em verdade. O outro assim faz nascer o filho em mim! O outro então é graça sobre graça e a mim, dá-me de Deus estar desprendido. Isso é a criação, a criatividade do amor, a fecundidade da amizade em Deus.

Mas, para além do rosto interior do outro, é o rosto de Deus que Eckhart nos exorta a ver com o olho de Deus: a pequena centelha da alma é uma potência que, quando é reavivada, apreende Deus em seu vestiário.

Os anjos mais elevados apreendem Deus em seu vestiário antes que esteja revestido de bondade e de justiça ou de alguma outra coisa que se pode exprimir por palavras.

Pois a bondade e a justiça são uma vestimenta de Deus porque o envolvem. É por isso que tirai de Deus tudo o que o envolve e apreendei-o em sua nudez, em seu vestiário, sem nada que o cubra e em sua pureza, tal como ele é em si.

Tal é a condição do beijo da deidade e do nascimento do Filho na alma: abraçar Deus em sua nudez, na qual ele se apreende a si mesmo.

Mas um tal abraço provoca um novo basculamento. Eckhart dizia: "Assim permanecereis nele" e não mais: "Assim ele permanecerá em vós." Esse reverso discreto da frase anuncia uma nova grande mutação de ser que espera a alma abraçada por Deus: o desprendimento.

Escrevi um dia em meu livro: o homem justo não serve nem a Deus nem as criaturas, porque é livre, e quanto mais próximo está da justiça, mais é ele mesmo a liberdade, mais é a liberdade.

Aquele que se desprendeu é a liberdade! Mas se tal é o caso, que se torna Deus? O que acontece ainda com a vontade de Deus?

Vede o que um homem bom pode junto de Deus. É uma verdade certa, uma verdade necessária: aquele que dá totalmente a Deus sua vontade capta Deus, liga Deus, de sorte que Deus não pode nada além do que o homem pode.

Àquele que dá totalmente sua vontade a Deus, Deus dá em retorno sua vontade tão totalmente, tão verdadeiramente, que a vontade de Deus se torna o bem próprio do homem, e Deus jurou por si mesmo que não pode nada além do que o homem quer; pois Deus não se torna o bem próprio de ninguém que não se tenha antes tornado seu bem próprio a ele, Deus.

É por isso que o homem humilde não precisa pedir a Deus, pode bem comandar a Deus, pois a altura da deidade não pode considerar nada senão na profundidade da humildade, o homem humilde e Deus sendo um e não dois. Esse homem humilde tem Deus em seu poder tanto quanto Deus tem poder sobre si mesmo.

E compreende-se que, meditando sobre o rebaixamento de Deus, o místico tenha pressentido sua própria destinação:

O homem que se abandonou a si mesmo é tão puro que o mundo não pode suportá-lo.

Pensei bem seguramente que Deus devia ser despossuído de sua sublimidade, não absolutamente, mas bem antes interiormente, o que quer dizer um Deus rebaixado; isso agradou-me tanto que o escrevi em meu livro. Isso significa, um Deus rebaixado, não absolutamente mas interiormente, para que sejamos elevados. O que estava no alto tornou-se interior. Deves ser interiorizado por ti mesmo, em ti mesmo, para que ele esteja em ti. Não que tomemos algo do que está acima de nós, devemos bem antes tomá-lo em nós e tomá-lo de nós mesmos em nós mesmos.

Por outras palavras, é o próprio Deus que se tornou o familiar daquele que se desprendeu.