FAIVRE, Antoine (org.). Sophia et l’âme du monde. Paris: Albin Michel, 1983
A Arte Divina da Alma do Mundo em Athanasius Kircher
-
A Rejeição e a Reapropriação da Alma do Mundo em Athanasius Kircher
- A aparente paradoxalidade de investigar a Alma do Mundo a partir da obra de Athanasius Kircher, um jesuíta que expressou aversão ao termo por seu caráter pagão.
- A ausência de uma doutrina precisa sobre a Alma do Mundo em Kircher, mas a sua persistência como uma noção subjacente que permeia sua obra pansófica.
- A estratégia de analisar traços esparsos em seus volumes para delinear um dos rostos da Alma do Mundo no Ocidente cristão.
-
As Denegações e os Equivalentes Trinários da Alma do Mundo
- A rejeição explícita do termo anima seu mens mundi em obras como Musurgia Universalis e Iter exstaticum.
- A proposta de equivalentes: natura rerum, entelechia mundi, ars Dei (τέχνη τοῦ θεοῦ).
- A identificação da "natureza" com uma força aristotélica, princípio de movimento e repouso.
- A significativa identidade Alma = Natureza = Arte (techne), introduzindo uma perspectiva platônica-barroca.
- A definição deste movimento como a "impressão inerente às coisas" de uma "arte divina", uma potência harmônica que adapta e ajusta todas as coisas.
- A comparação barroca entre a criação do mundo e a fabricação de um clavicórdio de órgão.
-
A Fundamentação Teogônica no Tratado Magnes
- A distribuição das três forças do magnetismo – vis attractiva, vis dispositiva, vis connectens – pelas pessoas da Trindade.
- A atribuição ao Pai da força atrativa, que abraça todas as coisas na unidade "abissal".
- A atribuição ao Filho, ou à Sabedoria, da força que distingue, determina e dispõe, conferindo a essência e a diversidade das formas.
- A atribuição ao Espírito Santo da força de conexão (vis connectens), que articula as coisas em um mundo.
- A identificação do Espírito Santo como omnium artium magister, o substituto mais autêntico da Alma do Mundo, conforme uma tradição que o assimila à terceira hipóstase neoplatônica.
-
O Amor como Noção Intermediária e a Doutrina do "Tudo em Tudo"
- A conexão entre o Espírito Santo e a Ars Dei através da noção de amor.
- O princípio fundador do "consenso magnético": omnia in omnibus (tudo está em tudo).
- A concepção do universo existindo de forma "contraída nas coisas" (contracte in rebus), onde cada coisa contrai em si todas as outras.
- A interpretação de que a forma que confere o ser à coisa é o próprio ser, e que o doador das formas não dá outra coisa senão a si mesmo.
- A "recepção descensiva" do dom divino, onde o infinito é recebido de modo finito, o universal de modo particular.
- A identificação do Espírito Santo como a instância doadora que distribui a cada coisa sua porção devida, a medida do mundo, o amor e o consensus das coisas.
-
A Encarnação Física: a Panspermia e a Luz Primigênia
- A manifestação física da fórmula "tudo em tudo" na panspermia (semen mundi, semen generale), a semente universal.
- A ilustração do princípio através da analogia com a câmara escura, onde a matriz ou o foramen punctuale é o centro de projeção e difusão.
- A transferência deste esquema para o macrocosmo, comparando a terra a uma matriz central a partir da qual o espírito do criador desenvolveu todas as formas do cosmos.
- A radicalização da ideia: uma semente universal presente em tudo, que é "pedra na pedra, planta na planta, animal no animal... e em Deus, por assim dizer, o próprio Deus".
- A identificação final desta semente universal com a primigenia lux, a luz primigênia do primeiro dia da Gênese.
-
A Articulação Óptico-Trinitária da Luz
- A distinção trinitária no seio da luz: a lux (Père, no sol, centro e fonte), o lumen (Filho, luz difusa, portadora das sementes) e o calor (Espírito Santo, calor que implanta as sementes na matéria).
- A outra articulação: o raio direto (Filho) e o raio refletido (radius reflexus, Espírito Santo), responsável pela conexão e textura do mundo concreto.
- A física kirchneriana como veículo de uma metafísica: a emanação em linha recta produz princípios desconexos, enquanto os raios refletidos, ao se unirem, totalizam a manifestação divina.
-
O Lado Noturno: A Panspermia Terrestre e o Sal
- A dupla modalidade da semente do mundo: uma fixa (na terra) e outra volátil (difundida pelo mundo).
- A panspermia inferior como um "húmido radical", princípio passivo, vestígio do tohu-wa-bohu primitivo, fecundado pelo Espírito Santo.
- A sua composição alquímica tripartida: uma "vapor espírito-sulfuro-salino-mercurial".
- O enxofre (sulfur) como o elemento seminal propriamente dito, o "sol terrestre".
- O mercúrio (mercurius) como o húmido caótico, o princípio passivo.
- O sal (sal) como o princípio de fixação, o facto do terrestre, definido metaforicamente como a "alma da terra", um corpo central que atrai por magnetismo.
- A terra pura e imortal, um "sal coagulado", no centro da qual se esconde o espírito animador.
-
A Vida na Fronteira e o Papel Singular do Homem
- A vida como o resultado do encontro entre a luz livre e celestial (panspermia superior) e a luz cativa e subterrânea (panspermia inferior, o sulfur).
- A ação do sol, por "similitude de natureza", excita e imprime a panspermia terrestre, dando origem a todos os seres.
- O homem como detentor de uma terceira panspermia, responsável, que contém as sementes de todos os níveis de ser (vegetal, sensível, racional, intelectual).
- A capacidade única do homem de se recolher no centro de sua unidade, superando todas as coisas e unindo-se a Deus.
- A atribuição ao homem do título de Alma do Mundo, na medida em que é o conector por excelência, traduzindo os inteligíveis em sensíveis e vice-versa.
- O homem como um potencial ponto de reflexão para o Espírito criador, fora do ciclo cósmico de solve et coagula, através do conhecimento perfeito como um "jogo de conexões" e "unidade analógica".