MICHEL HENRY: EU SOU A VERDADE
Não é somente sob o olhar da história que o texto admite sua incapacidade estabelecer por ele mesmo a realidade que enuncia, oferecendo-se ao cutelo da crítica, exigente de verificações ao infinito. Na história, a impotência do documento escrito a estabelecer a realidade do evento do qual se quer testemunha, repete a impotência do evento ele mesmo a se estabelecer no ser. Esta dupla impotência traça o círculo no qual toda a verdade histórica ou textual se auto-destrói. O desaparecimento das existências singulares na noite do tempo onde elas se dissipam só pode ser sobrepujadas nos anais da história. Mas estes anais só são verdadeiros que estas existências realmente existiram. Os fatos e gestos extraordinários do Cristo, seus companheiros, estas mulheres misteriosas que o serviam, só conhecemos pelo texto das Escrituras. Mas estas Escrituras só são verdadeiras se estes fatos e gestos, apesar de seu caráter extraordinário, realmente se produziram.
Notável é o fato que esta crítica da linguagem encontre sua formulação no Novo testamento ele mesmo. Este não cessa de desacreditar o universo das palavras e das falas, e isto não ao acaso das circunstâncias, segundo as peripécias do relato, mas por razões de princípio: porque a linguagem, o texto deixa fora dele a realidade verdadeira, se encontrando assim totalmente impotente a seu respeito, quer se trate de edificá-la, de modificá-la ou de destruí-la. A esta impotência inerente à linguagem se opõe de maneira radical o que aos olhos do cristianismo só importa e vale para ele como o Essencial, a saber precisamente o poder. "Pois o Reino de Deus não consiste em palavras mas em poder" (1 Cor 4,20). Até que ponto esta potência ultrapassa aquela de que temos a ideia, da qual podemos ter experiência em nosso próprio corpo e, nesta superação, só pertence a Deus, é o que o Apóstolo repete incansavelmente: "... Para que saibais (... ) qual a grandeza extraordinária de sua potência." De sua grandeza extraordinária esta potência dá prova no Ato inconcebível ao redor do qual se organiza o Novo Testamento, aquele pelo qual Deus ressuscita o Cristo morto. "O exemplo disto é dado na eficácia soberana da força que desdobrou na pessoa do Cristo, o ressuscitando" (Efésios I, 17-20).
A impotência da linguagem a dispor uma outra realidade que a sua no o deixa totalmente desamparado. Um poder lhe resta: dizer esta realidade quando ela não existe, afirmar alguma coisa, o que seja, quando não há nada, mentir. A mentira não é uma possibilidade da linguagem ao lado de uma outra que lhe seria oposta — dizer a verdade por exemplo. Esta possibilidade se enraíza nele e lhe é inerente como sua essência mesmo. A linguagem, enquanto só há ele, não pode ser mais que mentira. Donde a fúria do Cristo contra os profissionais da linguagem, aqueles cujo ofício consiste na crítica e na análise dos textos, até o infinito — os escribas e os Fariseus: "Geração de víboras! (...) hipócritas! (...) mentirosos! " (Mateus XXIII, 1-36). A impotência da linguagem se junta a todos os vícios que pertencem a impotência em geral: a mentira, logo a hipocrisia, o encobrimento da verdade, a má fé, a reviravolta dos valores, a falsificação da realidade sob todas suas formas e sob sua forma mais extrema, a saber a redução desta realidade à linguagem e, ao término desta confusão suprema, sua identificação.
A linguagem tornou-se o mal universal. E é preciso ver bem porque. O que caracteriza toda palavra, é sua diferença da coisa, o fato que, tomada em si mesma na sua realidade própria, nada contém da realidade da coisa, nenhuma de suas propriedades. Esta diferença para com a coisa explica sua indiferença à coisa. Posto nada há nela que seja idêntico ou semelhante àquilo que está na coisa, posto que sua relação à coisa é exterior, contingente e gratuita, pode muito bem se unir à toda coisa qualquer que seja. Pode-se denominar pelo mesmo nome duas coisas diferentes ou muito pelo contrário atribuir vários nomes a uma mesma coisa. Mas posto que, nela mesma, a palavra nada contém da realidade e ignora tudo desta, pode-se também conduzi-la a ela, se identificar a ela, a definir, de tal maneira que tudo que a palavra diz se torna realidade, pretende valer por ela. Advinda de sua própria impotência, o poder da linguagem se torna de repente assustador, sacudindo a realidade, a torcendo por seu delírio. Este delírio que queima tudo, o texto alucinante da Epístola de Tiago (3, 3) o exprime em sua concisão grandiosa: "Se pomos um estribo na boca de cavalos para nos fazer obedecer, é todo seu corpo que guiamos. Vide do mesmo modo os navios: tão grandes quanto sejam e tão bem impulsionados pelos ventos intempestivos, um pequeno timão os guia (...). Veja quão pequeno é o fogo que incendeia uma grande floresta. A linguagem também é de fogo, o mal na sua universalidade (...). Por ela bendizemos o Senhor e Pai, e por ela amaldiçoamos os homens que foram feitos à imagem de Deus: da mesma boca saem bendição e maldição". Se a linguagem bendiz e maldiz sucessivamente aquilo que é o Mesmo, o Senhor e sua imagem, Deus e seus filhos, se, na falta de penetrar no interior daquilo que pretende dizer e da qual, no louvor como na reprovação, só pode blasfemar, se portanto é por si mesma incapaz de dar acesso à realidade em geral, àquela da qual aqui se trata e que é precisamente a verdade do cristianismo, então a relação da linguagem a esta verdade não deve ser revertida? Não é o corpo dos textos do Novo Testamento que pode nos fazer ter acesso à Verdade, a esta Verdade absoluta da qual se fala, é esta ao contrário e apenas ela que pode nos dar acesso a ela mesma e ao mesmo tempo ao Novo Testamento, nos permitindo compreender o texto onde está disposto, de reconhecê-la nele.
Esta é uma das afirmações mais essenciais do cristianismo: que a Verdade que é a sua só pode dar testemunho dela mesma. Apenas ela pode atestar a si mesma — revelar-se ela mesma, dela mesma e por ela mesma. Esta Verdade que ela só tem o poder de se revelar ela mesma, é a de Deus. É Deus ele mesmo que se revela, ou o Cristo enquanto é Deus. Mais radicalmente a essência divina consiste na Revelação ela mesma como auto-revelação, como revelação de si em si a partir de si. Somente aquele a quem esta revelação é feita pode entrar nela, na sua verdade absoluta. Apenas aquele que entrou nesta verdade absoluta pode esclarecer por ela, entender aquilo que é dito no Evangelho e que precisamente nada mais é que esta Verdade absoluta que, se revelando a ela mesma, se revela a ele. Que a Verdade absoluta se revelando a ela mesma, se revela também àquele a quem lhe é dado entendê-la, é o que faz dele que a entende o filho desta verdade, o Filho de Deus — segundo a tese que se vai demonstrar que ela é constitutiva do conteúdo essencial do cristianismo. Mas a verdade desta tese última, não é dado a nenhum texto promovê-la ou entendê-la.
A linguagem portanto não pode nos abrir um acesso nem à realidade nem à verdade — o que, por momento, dissociamos ainda. A linguagem se oferece como o meio de comunicação por excelência, precisamente pelo meio de comunicar e de transmitir a verdade. Mas lá está sua maior ilusão, se apenas a verdade que pode transmitir é uma verdade que já existe, que já se revelou, revelada a ela mesma por ela mesma, independentemente da linguagem, antes dela. Esta indigência da linguagem, que vem contradizer e extinguir a finalidade pela qual se tem o costume de definir sua essência, não se deve somente a este fato decisivo que ela não constitui nela mesma e por ela mesma nossa abertura à realidade, que não é produtora nela mesma da verdade. Uma reflexão mais radical, que terá lugar mais adiante, mostrará que desta realidade, de toda realidade concebível, a linguagem é propriamente a negação — se se excetua esta pálida realidade que lhe pertence enquanto sistema de significações e que se acha ser uma irrealidade de princípio. Esta irrealidade principial, é precisamente a verdade da linguagem.
A indigência da história não é menor. Ela brilha abertamente do momento que cessando de definir esta disciplina a partir de um conceito restritivo, como o fazem os especialistas, a gente se questiona sobre sua condição de possibilidade, sobre o horizonte de visibilidade onde se tornam visíveis todos os eventos e notadamente os eventos humanos, os fatos históricos que a histórico fará seu tema de investigação. Este horizonte nada mais é que o mundo. É também, veremos, aquele do Tempo. Este horizonte de visibilidade do mundo enquanto horizonte do Tempo, é a verdade da história, uma verdade tal que tudo o que aparece nela não cessa do mesmo modo de desaparecer. Nela, dizemos, cada um dos milhões de seres humanos que habitaram a terra desde a época pré-histórica se perdeu para sempre, dissipado, desaparecido em sua bruma.
Mas a verdade designada aqui como a da história enquanto sua condição de possibilidade, é também aquela da linguagem. Pois, como será demonstrado, a linguagem só é possível se deixa ver aquilo do qual fala e aquilo que disto fala. Mas o fazer ver no qual toda linguagem, e notadamente a dos Evangelhos, mostra o que diz e o que não diz, não é possível por sua vez a não ser neste horizonte de visibilidade que é o mundo, que é o Tempo e a verdade da história.
A verdade da história e a verdade da linguagem são idênticas. Remetendo a eventos humanos perdidos nos documentos onde estão supostamente conservados, a história faz apelo apenas a sua própria verdade, àquela também da linguagem. Os documentos são fugitivos e incertos como os fatos que aportam. Porque estas duas verdades, agora, não contentes de deixar escapar aquilo que deveria constituir seu objeto, deixam escapar igualmente a verdade do Evangelho, a ponto de não poder dizer uma palavra a este respeito, é o que importa entender. Verdade da história, verdade da linguagem, verdade do cristianismo são três formas de verdade — mas porque a terceira tem o poder de rejeitar as duas outras na insignificância? Aqui dever ser entendida a questão angustiada que Pilatos endereçou ao Cristo, face ao tumulto da populaça excitada pelos sacerdotes: "O que é a verdade? " (João XVIII, 38).