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id da página: 8111 Indivíduo Vida

Indivíduo Vida

INDIVÍDUO E VIDA

Filosofia

Michel Henry: EU SOU A VERDADE

Designaremos doravante sob o termo de Indivíduo, esta palavra escrita com uma maiúscula, a essência verdadeira disto que a linguagem corrente designa sob este nome. Esta essência verdadeira, é de ser um Eu transcendental vivente, é a essência verdadeira do homem. A extrema originalidade do pensamento cristão do Indivíduo, é de ter ligado de partida este conceito de Indivíduo e aquele da Vida.. O que faz a profundidade sem limite de um tal pensamento, é que a relação assim estabelecida entre Indivíduo e Vida não é precisamente uma relação no sentido ordinário desta noção, a saber alguma ligação entre dois termos separados e suscetíveis cada um de existir sem o outro. Mas não é também uma relação “dialética” no sentido que o entende o pensamento moderno, a saber uma relação entre dois termos tais que um precisamente não possa existir sem o outro — esta existência, aquela de um como aquela do outro, não podendo vir senão de sua posição conjunta, de sua sín-tese. A relação dialética deixa indeterminada a essência fenomenológica na qual esta relação se produz; embora, ela interprete sub-repticiamente esta essência de maneira fenomenológica como a verdade do mundo. É desta verdade que se mostram a relação tão bem que os termos entre os quais esta se estabelece.

A relação entre Indivíduo e Vida no cristianismo é uma relação que tem lugar na Vida e que procede dela, não sendo outra senão o próprio movimento desta. Este movimento é aquele pelo qual, vindo constantemente ela mesma em si em seu se experienciar a si mesmo e assim no seu “viver”, a Vida se engendra constantemente ela mesma em engendrando nela a Ipseidade sem a qual o se experienciar a si mesmo deste viver não seria possível. A relação do Indivíduo e da Vida se identifica assim ao processo de auto-geração da Vida como geração do Arque-Filho, à relação de interioridade recíproca do Pai e do Filho — relação primordial situada no coração do cristianismo e longamente estudada por nós. Desta relação primordial de interioridade recíproca entre a Vida e o Indivíduo — entre a Vida e o Arque-indivíduo deveria se dizer —, os conceitos de Vida e de Indivíduo saem abalados. Um tal abalo age em para trás sobre tudo o que precedeu o cristianismo, adiante sobre tudo o que virá depois dele. Agir quer dizer aqui tornar caduco, virar de ponta cabeça. Consideremos logo sucessivamente o abalo que o cristianismo fez sofrer ao conceito de vida a princípio, de indivíduo em seguida — estando entendido que não é possível considerá-los separadamente e que é precisamente esta impossibilidade, o co-pertencimento originário da Vida e do Indivíduo, que constitui uma das afirmações mais essenciais do cristianismo.


Contentemo-nos aqui de um breve retorno à Schopenhauer. O problema da individualidade desempenha ele um papel decisivo e isto porque, pensando a vida como uma vida anônima e inconsciente — inconsciente porque anônima, porque privada de individualidade e de indivíduo — é preciso que pelo menos proponha desta uma teoria precisa. A Ipseidade transcendental na qual se cumpre a auto-doação da vida e assim sua revelação originária, Schopenhauer dela não tem nem mesmo ideia. Assim como a filosofia ocidental em seu conjunto. A individualidade, então, não pode se compreender senão à luz da fenomenalidade que se conhece, aquela da representação ou, se se prefere, do mundo. Quer dizer que Schopenhauer só faz retomar a interpretação da individualidade que reina desde sempre — se não a formula no sistema de conceitualização e na terminologia que acaba de herdar de Kant. A concepção de Schopenhauer da individualidade não só se elabora à luz de uma teoria da verdade do mundo, ela coincide com esta, para só ser na verdade uma aplicação ao problema do indivíduo ou, melhor, a re-formulação a respeito deste problema.

A individualidade daquilo que se propõe como “individual”, é aquela de tudo o que se mostra em um mundo, qualquer que seja, de uma coisa qualquer consequentemente. O que individualiza uma coisa qualquer se mostrando no mundo, é que ela aparece neste lugar do espaço, neste momento do tempo. Assim dois objetos rigorosamente idênticos diferem no entanto em razão da diferença dos lugares que ocupam. Assim ainda dois sons semelhantes por suas qualidades sonoras — por sua altura, sua intensidade, seu timbre — duas notas que seriam no limite idênticas em virtude da similitude destas propriedades, diferem no entanto pelo fato que ressoam em dois momentos diferentes do tempo. O que individualiza em último lugar, não são portanto as propriedades das coisas, estas propriedades podendo ser idênticas e as coisas serem no entanto diferentes. O que individualiza, o princípio da individuação, é o espaço e é o tempo. Ora o espaço e o tempo são maneiras de algo se mostrar. Em Kant, espaço e tempo são precisamente formas “a priori” da intuição, quer dizer das maneiras de aparecer e de fazer aparecer que é o mundo. O princípio que confere a cada coisa sua individualidade e a diferencia assim de todas as outras, é o aparecer do mundo, é sua verdade.

E isso vale tanto para os homens quanto para as coisas. O que individualiza um homem, o que faz dele este indivíduo e não aquele outro, é o lugar que ocupa neste mundo, é o momento onde intervem no tempo deste mundo e e em sua história. E cada um de seus atos, cada movimento de preensão de sua mão, da mesma maneira cada um de seus pensamentos, recebe esta marca, que o individualiza absolutamente — fazendo dela, esta ou aquela à diferença de toda outra — do lugar que ele ocupa no tempo. E eis nos no coração do absurdo de todo pensamento que reduz a essência àquela do mundo. Enquanto o princípio que individualiza se identifica no emergir deste mundo, a individualidade do homem é idêntica àquela de todo ente se mostrando neste mundo e não é compreendida de outro modo — outro modo que não seja de um ente qualquer, de um evento histórico, de uma ferramenta ou de uma simples coisa. Ela, a individualidade, não é compreendida de outro modo e não o pode ser, porque o princípio que individualiza é o mesmo em todos os casos.

Convém então aqui fazer detonar esta pretensa unidade do princípio que individualiza. Unidade impossível se se trata de um princípio fenomenológico remetendo como tal à essência da fenomenalidade e da verdade. Mais precisamente se cinde segundo os dois modos de fenomenalização que são a verdade do mundo e a Verdade da Vida. O que individualiza algo como o Indivíduo que somos cada um, em sua diferença de outro — cada eu e cada ego transcendental jamais distinto e insubstituível — não se encontra em nenhuma outra parte no mundo. A individualidade do Indivíduo nada tem a ver com aquela de um ente, a qual a princípio não existe, não resultando jamais de outra coisa senão da projeção antropomórfica do que encontra sua condição na essência única da individualidade. É assim porque, no final das contas, o princípio que individualiza é tão único quanto o que ele conduz cada vez na condição que a sua. Não individualidade do ente mas somente uma designação exterior espaço-temporal tornando possível uma eventual determinação paramétrica ulterior. Não há individualidade senão do Indivíduo. A individualidade não existe jamais senão como sua ipseidade.