- A leitura de Valentim desta parábola não é propriamente gnóstica, mas "gnosticante"
- Para Valentim "é ele, Jesus, o pastor, que deixou as 99 ovelhas que não se perderam; foi, buscou aquela que se perdera; se alegrou quando a encontrou: porque 99 é um número que é contado com a mão esquerda, ela mantém. No entanto, quando se se encontra o Uno, é todo o número interior que se desloca para a mão direita: assim também é daquele que falta do Uno, quer dizer, a mão direita inteira, que atrai o que é deficiente, o toma da parte esquerda e o desloca para a direita, e assim o número se torna cem" (alusão a uma antiga forma de contar: até 99 na mão esquerda e 100 na mão direita).
- Compreende-se porque o cem é mais importante, o mais belo, o que permite passar de uma mão a outra, de um estado de consciência a outro...
- No Evangelho da Verdade: "É ele, o Pastor, que deixou 99 ovelhas que não se perderam. Ele foi procurar aquela que se perdeu e se alegrou a tendo encontrado, pois 99 é um número que se conta na mão esquerda. Mas quando ele encontrou o Uno, o número inteiro passa para a mão direita".
- Uma leitura mais metafísica nos lembraria que perdemos o contato com o Uno, o Si, o Único necessário ou ainda o mais belo de nós mesmos...
- Perdemos nosso centro, este ponto de coesão e de harmonização dos diferentes níveis de nosso ser.
As provas que encontro no caminho do despertar me convidam ao discernimento.
O gnóstico sabe que se ele se atém ao Único, ele tem o Todo. Compreende que o Uno engloba o múltiplo (Evangelho de Tomé - Logion 58). Ele é como o pecador avisado que escolhe o grande bom peixe (Evangelho de Tomé - Logion 8).
A degradação da redação desta parábola se nota pela passagem de seu centro de atração, da ovelha para o pastor, nos sinóticos. Uma etapa intermediária nesta degradação é a passagem do Evangelho da Verdade (séc. II — trecho traduzido acima), que pode nos fazer perguntar: "como o Pastor pôde perder o Uno?".
- Reflexão sobre os personagens de elite nomeados "Viventes" (netoneh, hoi zontes), "Únicos" (monachos), "Eleitos" (nsotep, hoi eklektoi) e mais ordinariamente denominados "Espirituais" (pneumatikos), "gnósticos" (gnostike).
- Vários traços os caracterizam:
- Superioridade sobre os demais homens a quem se opõem como "grandes" a "pequenos" (como neste logion 107); sua raridade, seu número ínfimo em relação à massa, à multidão, aos polloi (como neste logion 107); sua situação excepcional, privilegiada em relação ao mundo e à humanidade ordinária.