EVANGELHO DE JESUS: Parábola da Rede
Roberto Pla
A parábola da rede é apresentada nos canônicos, em Mateus que a inclui no capítulo denominado "discurso parabólico", onde o engloba sete relatos desta espécie com explicações substanciais acerca das parábolas e sua significação.
Destes sete relatos há quatro, as parábolas da cizânia, do tesouro, da pérola e da rede, que encerram um significado paralelo ou comum e outros três, as parábolas do semeador, do grão de mostarda e do fermento, que descrevem uma valorização do conhecimento do Reino.
- A LEVEDURA — O FERMENTO (Mt XII, 33; Lc XIII, 20-21)
- A PARÁBOLA DO SEMEADOR (Mt XIII, 3-23)
- A CIZÂNIA (Mt XIII, 24-30, 36-43)
- O GRÃO DE MOSTARDA (Mt XIII, 31-32)
- O TESOURO OCULTO (Mt XIII, 44)
- A PÉROLA PRECIOSA (Mt XIII, 45-46)
- A PARÁBOLA DA REDE (Mt XIII, 47-50)
O motivo de Jesus falar em parábolas, ou seja, por meio de uma forma expressiva com desdobramentos naqueles assuntos que vai penetrar, é que sua fala só é acessível para aqueles que possuem algum conhecimento prévio do Reino.
- Escutai o meu ensino, povo meu; inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha boca. Abrirei a minha boca numa parábola; proporei enigmas da antiguidade, (Sl 78,1-2)
O que está "oculto" e que Jesus quer pôr manifesto, seja parabolicamente, é a Palavra, a qual é, segundo está dito, a luz dos homens, a Palavra semeada entre eles, nos homens, por Deus.
- Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; (Jo 1,4)
- E os que estão junto do caminho são aqueles em quem a palavra é semeada; mas, tendo-a eles ouvido, vem logo Satanás e tira a palavra que neles foi semeada. (Mc 4,15)
O primeiro resplendor do conhecimento do oculto pode ser descrito como a primeira intuição do ser, o primeiro contato, embora seja como um sopro, como a pérola ou tesouro verdadeiro que anima o homem, a revelação sutil do mistério do Reino que uma vez conhecido servirá para fundamentar nele um ver e um ouvir certos, um entendimento desde o coração puro endereçado para a salvação e a Vida.
Para os que uma vez despertos a sua luz eterna interior, começam a tomar posse dela como crianças recém-nascidas, é para quem é dito: a quem tem se dará e sobrará, mas ao que não tem, ainda o que tem se tirará
- ...pois ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. (; PARÁBOLA DO SEMEADOR).
Aquele que tem a primeira intuição de que ele é essencialmente o Ser, tem semeada com ele a semente do conhecimento do Reino, conhecimento que receberá de mãos cheias a partir de então e ainda o sobrará, porque é esta uma semente que uma vez alojada na consciência se desenvolve por si só (SEMENTE QUE GERMINA).
No entanto "o que não tem", o que não percebeu, sequer seja entra a névoa, as primeiras auroras de sua luz interior, da pérola que "em seu si mesmo" repousa, é só erva, ou talvez já espiga, mas o tesouro, o trigo, não terá germinado ainda de maneira manifesta; permanecerá "oculto" e quando chegue o tempo da sega, não terá ali em sua consciência manifesta, mais que palha para ser levada pelo vento (João Batista).
Quanto ao grão, ele é sempre o "eleito", o habitante desse Reino que está dentro e fora de nós e do qual o evangelista João diz "em enigma", que é o Filho do Homem, "o qual não subiu ao Céu senão que baixou do Céu (em nós) e está no Céu (Jo 3,13; NASCER DO ALTO).
- Nossa inteligência é uma rede mais ou menos cerrada com a qual "apreendemos" muitas coisas — os pequenos peixes simbolizam todos nossos pequenos saberes e as ciências em sua diversidade. O grande peixe é o conhecimento do Ser.
- Guardar o grande peixe é se aprofundar no conhecimento de si, o conhecimento do Ser, conservar a Presença do Uno no meio do múltiplo.
- O pescador avisado sacrifica uma multidão de peixes pequenos para reter o grande e bom peixe.
- A escolha é dolorosa, os condicionamentos diversos que representam os peixes pequenos (hábitos, segurança, práticas religiosas, ritos, família, meio, cultura, etc.) é sem peso em relação à maravilha que aporta a descoberta do Absoluto.
- Uso frequente no Evangelho de Tomé, da expressão "quem tem ouvidos, ouça", também encontrada nos canônicos e no Apocalipse.