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id da página: 8362 Henry Corbin – No Islame Iraniano II – Theosophos Henry Corbin

Corbin Theosophos


CORBIN, Henry. En Islam iranien: aspects spirituels et philosophiques II. Paris: Gallimard, 1991

Quando Sohrawardi e seus companheiros empregam a expressão hakim ilahi, o «sábio divino» ou o «sábio de Deus», este termo, lembremo-nos ainda, é a transposição exata do grego theosophos. A hikmat ilahiya, frequentemente a hikmat simplesmente, é a Theosophia, a palavra sendo entendida em sua acepção etimológica. A «Theosophia oriental» (ihsraqiya) é a sabedoria do Sábio que acumula ao mesmo tempo o mais alto conhecimento especulativo e a mais profunda experiência espiritual, a qual pode ser dita também etimologicamente especulativa, neste sentido que ela transmuta o ser do sábio em um speculum, um puro espelho se levantando no Oriente do mundo espiritual. É sobre esta base que seria fundada a hierarquia dos sábios «orientais».

O sábio «oriental» perfeito é um hakim mota'allih. Não é simplesmente um místico tendo uma experiência da mesma ordem que aquela de muitos místicos desprovidos de formação filosófica, ou crendo que esta é supérflua, até perigosa; não é somente um filósofo como muitos outros filósofos que ignoram o pôr em prática espiritual, a «realização» pessoal de sua filosofia. A experiência espiritual integral deste «teósofo», este sophos ou sábio da Sophia divina, pode ser caracterizada como sofiânica.

Hikmat: a sabedoria divina

  • A natureza da hikmat: Os termos hikmat e hokama não podem ser traduzidos simplesmente como "filosofia" e "filósofos", nem como "teologia" e "teólogos". Eles representam uma sabedoria (sophia) com conotação gnóstica, ou seja, uma experiência de vida que se origina de três fontes: a tradição (naql), o intelecto ('aql) e a percepção espiritual (kashf), esta última sendo a fonte da teosofia (hikmat ilahiya) e da gnose mística ('irfan).
  • O sábio divino (hakim ilahi): O termo é uma tradução literal do grego theosophos. O sábio ideal é um hakim mota'allih, alguém que une o mais alto conhecimento especulativo com a mais profunda experiência espiritual. Essa experiência transforma o sábio em um "espéculo", um espelho que reflete as Luzes do mundo espiritual.
  • O significado de ta'alloh: O termo ta'alloh refere-se à deificação ou teomorfose (theosis), e à adoração. Sohrawardi alinha esta noção com a teurgia dos neoplatônicos tardios e dos Oráculos Caldeus, que se refere à "obra divina" que confere à alma uma natureza divina e a capacita para a união suprarracional com a Luz.
  • A visão teúrgica: Para os neoplatônicos, o intelecto humano é incapaz de perceber Deus em sua natureza perfeita. O objetivo supremo só pode ser alcançado através da "flor do intelecto", uma percepção suprarracional onde o sujeito se abandona ao objeto, em um estado de união (enosis), o que ecoa o que os místicos islâmicos e sufis descrevem como a emergência do Sujeito divino.
  • A ascensão da alma (anagoge): A virtude teúrgica, essencial para a ascensão da alma, permite a união ativa e suprarracional com seres espirituais. O sábio mota'allih de Sohrawardi, como o teurgo, alcança a supremacia sobre o filósofo convencional e está apto a praticar a ascese.
  • O "sacramento de imortalidade": A teurgia, também chamada de "hierática", é o mistério da comunidade dos Oráculos Caldeus. Seu objetivo é a imortalização da alma, uma separação do corpo físico antes da morte. Isso se alinha com o conceito islâmico de "morte mística" ou "morte iniciática" (tajarrod), que Sohrawardi descreve como a capacidade de se despir do corpo como uma túnica.
  • Morte mística e eschaton individual: A operação hierática, que antecipa a morte física, é vista por Sohrawardi como um evento escatológico individual que ele chama de "Grande Reviravolta" ou "Grande Abanamento" (al-tammat al-kubra), ecoando a terminologia corânica para o fim dos tempos.

A Luz de Glória (Xvarnah) e a Tradição Oriental

  • O Sábio oriental (ishraqi): Para Sohrawardi, o sábio mota'allih é, por definição, um sábio oriental (ishraqi). A qualificação de "oriental" é metafísica, não geográfica.
  • A fonte oriental: A via do ishraq convida a encontrar a "Fonte oriental", a Luz de Glória (Xvarnah, Khorrah), que é o conceito-chave da cosmologia e espiritualidade zoroastrianas. A Luz do Ishraq (Nur ishraqi) se identifica com essa Luz de Glória.
  • A reconexão com o zoroastrismo: A obra de Sohrawardi representa a reconexão do magianismo platônico com a tradição zoroastriana iraniana, baseada no Avesta.
  • O retorno da sabedoria: Sohrawardi se vê como aquele que "repatria" os Magos helenizados para a Pérsia islâmica, trazendo de volta os tesouros da teosofia acumulados por seus discípulos. Sua obra é a concretização do "Levain eterno" (al-Khamirat al-azaliya), a seiva que propaga a sabedoria.
  • Hierarquia dos Sábios: Sohrawardi traça uma "árvore genealógica" da sabedoria, com Hermes como raiz, e dois grandes ramos: o persa (Khosrawaniyun) e o grego, que se unem na comunidade da Sakina. Isso mostra que a distinção exotérica entre Sábios gregos e orientais desaparece na perspectiva esotérica.
  • Visão eschatológica: O Sábio mota'allih, ou ishraqi, não pertence mais ao "rebanho dos homens submetidos ao Destino", pois sua ascensão teúrgica antecipa o exitus da morte. É uma operação que, por meio do raio da Luz divina, "enflame a alma de fogo divino" e a transforma em um "anjo em potência".