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id da página: 10174 Angelus Silesius Laporte Theosis Angelus Silesius

Angelus Silesius Laporte Theosis

O PEREGRINO QUERUBÍNICO – Roger Laporte


ANGELUS SILESIUS. L’errant chérubinique. Tradução: Roger Munier. Paris: Éditions Planète, 1970

Como Angelus Silesius se posiciona dentro da tradição da teologia negativa e qual é sua contribuição?

Angelus Silesius se insere na longa tradição da teologia negativa, também chamada de teologia apofática, que sustenta que Deus está para além de qualquer conceito ou definição humana. Ele compartilha com seus mestres a convicção de que nada pode ser afirmado sobre Deus. Sua contribuição, no entanto, é o aprofundamento radical dessa via, distinguindo o "Nada" divino do "Vazio" e do "Não-ser". Silesius, assim como seus antecessores, defende que Deus está além de tudo, transcendendo até mesmo o conceito de Ser. Essa postura, embora possa parecer à primeira vista se alinhar ao ateísmo, é, na verdade, uma busca por uma compreensão mais elevada do divino.

Silesius se alinha a Mestre Eckhart ao afirmar que a verdadeira Divindade não é o "Deus" de que se fala, mas sim o "Além de Deus", uma "Surdeidade" que transcende a própria noção de Ser supremo. Ele sustenta que Deus é "Nada puro", e que toda tentativa de compreendê-Lo ou apreendê-Lo apenas o afasta. Essa ideia, que pode chocar um pensamento mais dogmático, é, na verdade, uma forma de afirmar a total transcendência de Deus. Ele não busca a negação por si mesma, mas sim o reconhecimento de que a realidade de Deus é infinitamente maior do que qualquer coisa que a mente humana possa conceber.

Angelus Silesius não equipara o "Nada" divino ao mero "Não-ser" ou ao "Vazio". Ele se distancia da "via de eminência", que tenta superar o negativo afirmando um Superlativo do Ser. Para ele, essa via ainda se refere a um Ser supremo, limitando, assim, a verdadeira natureza do divino. A contribuição de Silesius é a de conceber o "Nada" divino como uma "vacuidade verdadeira", um "nobre vaso" que contém um néctar insondável, algo que se possui sem saber exatamente o que é. Ele sugere que a ausência de forma, de nome e de ser é, paradoxalmente, a plenitude de tudo.

A originalidade e audácia de Angelus Silesius residem em levar a teologia negativa a seu limite mais extremo. Ele posiciona Deus não apenas além do Ser, mas além do "Além-da-Essência" e "além do Nada". Deus é, para ele, o "Outro" radical. Ele se recusa a aplicar a Deus qualquer categoria ou qualidade humana, seja "luz", "espírito", "verdade", "sabedoria" ou "amor". A única maneira de conhecer a Deus, segundo Silesius, não é através da razão ou da , mas através da transformação do próprio ser, tornando-se aquilo que Deus é (theosis). O divino, em sua essência, é incognoscível, e o caminho para Ele não é o conhecimento, mas o "tornar-se" (metanoia).