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wujud

SUFISMO – WUJUD

Ao longo dos séculos, Ibn Arabi tem sido muito proximamente associado ao princípio da wahdat al-wujud, que pode ser traduzido como Unicidade do Ser. Não é exagero dizer que suas formulações sobre este pensamento têm profundidade, clareza e sutileza ímpares. Esta Unicidade não é simplesmente igualável à crença no Deus Único da maneira professada nas religiões ocidentais, pois ela é uma formulação de um princípio gerado por uma compreensão particular. Tal crença em Deus parece com muita frequência excluir outras formulações, tais como as doutrinas não teístas do budismo ou as notáveis crenças espirituais dos índios americanos. A Unicidade do Ser, por outro lado, é o princípio absoluto e inclusivo, que abarca todas as crenças e doutrinas. Sem limites e além das oposições, é como a água que nutre igualmente toda a criação, sem restrição à espécie ou gênero, de acordo com as necessidades de cada um.

Tampouco deve ser vista simplesmente como um conceito filosófico. A palavra árabe wujud também significa “experiência” ou “descoberta” e, portanto, o Ser não pode ser entendido ou avaliado somente como uma ideia intelectual. É a busca da vida, a ser encontrada e compreendida. A Unicidade do Ser, exposta no pensamento de Ibn Arabi, não é na verdade uma doutrina ou um dogma, e sim está contida no coração da verdadeira natureza das coisas. Como a própria vida, não pode ser encaixada num corpo de crença ou estar contida em uma única descrição. Mana de todas as coisas e, ao mesmo tempo, não está contida em nenhuma. Na verdade, a própria descrição da wahdat al-wujud não é prevalente na obra de Ibn Arabi. Além do mais, ele usa diversos termos para expressar a natureza da Realidade, quase que para garantir que a tendência natural que temos para fixar e compartimentar seja anulada. Essas descrições que fluem do que ele vê e experimenta estão assentadas em termos islâmicos precisos, mas ele está constantemente apontando para significados ilimitados, compreendidos dentro do coração humano.

Para Ibn Arabi, a Unicidade de Deus é fundamentalmente uma questão de introspecção espiritual e experiência, o que significa uma mudança radical de visão. Ele inverte nossa maneira normal de ver as coisas para nos trazer a uma diferente compreensão. Na verdade, coloca-nos uma séria pergunta: na verdade de quem é a visão que está invertida? Normalmente acreditamos que o que vemos é real, considerando a aparência das coisas como sendo o que realmente existe. Deus, Unicidade, a fonte essencial das coisas é algo que conseguimos imaginar em nossas mentes, removida do mundo visível — tal realidade essencial pode até ser uma fantasia de nossa imaginação, ou tão distante de nós que não se choca com nossa vida diária, e pode até não existir.

A criação é inteligível e Deus, o Real, é perceptível e visível segundo as pessoas de Fé, e as pessoas de Experiência e Insight verdadeiros. Quanto aos que não pertencem a nenhuma dessas duas categorias, o Real é inteligível e a criação é visível. Estes últimos são como a água amarga e salgada, enquanto os primeiros são como a doce e agradável água, própria para beber.

A verdadeira condição das questões, na visão de Ibn Arabi, é bem diferente do que é normalmente considerado como real: a única verdadeira existência pertence ao Um e é esse Um que é visível em todas as manifestações. “As Coisas” não têm existência nelas mesmas exceto como lugares de manifestação e reflexos das expressões da Unidade primordial. Pode-se muito bem perguntar: que diferença faz se este é o caso? Uma visão da realidade não é tão válida como a outra? Ibn Arabi responde com surpreendente clareza: uma completa diferença de sabor. Aqueles que possuem verdadeiro insight apreciam e são imbuídos de tudo o que é bom e verdadeiro e, assim, alcançam o significado da verdadeira felicidade. A doçura e o prazer inerentes à existência estão aí para qualquer um que vê as coisas como elas verdadeiramente são, ou acredita nesta visão. Vale notar que esta “crença” não é uma apreciação intelectual nem tampouco uma convicção cega, mas algo intrínseco e que é sentido mais no coração. Como é próprio de Ibn Arabi, um mestre do Alcorão e do Hadith, aqui também ele está sutilmente aludindo à imagem alcorânica como base para aquilo que explica:

Foi Ele quem fez fluir os dois mares: um de água doce e agradável ao paladar e o outro de água salgada e amarga à língua, e entre eles colocou um istmo e uma barreira para que ficassem separados.


Este verso alcorânico é seguido de outro que descreve a criação da humanidade como vinda da água. Ibn Arabi, por isso, emprega os dois mares para referir-se a dois grupos distintos de pessoas. Nós — que somos feitos de água — necessariamente pertencemos a um dos dois mares. Aqueles que consideram a criação visível e Deus invisível permanecem na ilusão da multiplicidade e, portanto, sentem o gosto do amargo e do salgado; aqueles que encontram a Realidade da Unicidade veem Deus diretamente e sentem o gosto da doçura e do prazer. O istmo ou barreira que separa os dois é a discriminação, a capacidade de distinguir a realidade da ilusão, a Unicidade da multiplicação. [Stephen Hirtenstein, O compassivo ilimitado: a vida e o pensamento espiritual de Ibn Arabi]


We return to the word wujud, “finding,” “being,” or “existence.” Ibn Arabi employs the term in a wide variety of ways. Without getting embroiled at this point in philosophical niceties, we can discern two fundamental meanings that will demand two different translations for a single term. On the one hand we “find” things wherever we look, both in the outside world and inside the mind. All these things “exist” in some mode or another; existence can be said to be their attribute. The house exists and the galaxy exists in the outside world, the green-eyed monster exists in the hallucinations of a madman, on the film screen, and on the written page. The modes are different, but in each case we can say that something possesses the attribute of being there. When Ibn Arabi speaks about any specific thing or idea that can be discussed, he uses the term existence in this general sense to refer to the fact that something is there, something is to be found. In this sense we can also say that God exists, meaning, “There is a God.”

In a second sense Ibn Arabi employs the word wujud when speaking about the substance or stuff or nature of God Himself. In one word, what is God? He is wujud. In this sense “finding” might better convey the sense of the term, as long as we do not imagine that God has lost something only to have found it again. What He is finding now He has always found and will ever find. Past, present, and future are in any case meaningless in relation to God in Himself, since they are attributes assumed by various existent things in relation to us, not in relation to Him. But “finding” is perhaps not the best term to bring this discussion into the theological and philosophical arena where Ibn Arabi wants it to be considered. We are better off choosing the standard philosophical term “Being, ” which has normally been chosen (along with “existence”) by Western scholars when they have wanted to discuss the term wujud in English. However, one needs to keep in mind the fact that “Being” is in no way divorced from consciousness, from a fully aware finding, perception, and knowledge of the ontological situation. Since this point tends to be forgotten when the term is discussed, I will have occasion to come back to it, hoping for the reader’s indulgence. [William Chittick: Caminho Conhecimento]




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