Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 6529 MISTÉRIOS CRISTÃOS — DISCIPLINA ARCANI

disciplina arcani

MISTÉRIOS CRISTÃOS — DISCIPLINA ARCANI


VIDE: ARCANO

Pierre Riffard
A DISCIPLINA ARCANI, ‘MISTÉRIOS CRISTÃOS’ (80? — meados do séc. VI)

Este trecho do romance de Morris West, Os fantoches de Deus (1961), dá uma boa ideia da disciplina arcani: “O artigo sobre a Disciplina do Segredo viera de ‘Paris’ e estava assinado por um certo Jacques Mendel. Dizia respeito à prática em vigor, nas comunidades cristãs primitivas, chamada disciplina arcani. O termo propriamente dito só surgiu no século XVII (por J. Daillé, De usu patrum, Genebra, 1686), mas essa disciplina era uma das mais antigas nas comunidades cristãs e consistia no segredo obrigatório sobre os ritos e as doutrinas mais secretas da Igreja. Não se devia jamais revelá-los aos incrédulos ou mesmo aos aspirantes que se iniciavam. Toda a referência necessária devia ser feita em termos ocultos, sibilinos e mesmo enganadores. O exemplo mais célebre dessa linguagem era uma inscrição descoberta em Autun em 1839: ‘Tomai o alimento doce como o mel do Salvador bem-aventurado. Comei e bebei com o peixe em vossas mãos’. A palavra ‘peixe’ significava ‘Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador’. O ‘alimento doce como o mel’ simbolizava a eucaristia”.

Fazia-se uma distinção — como nas organizações iniciáticas — entre três graus: os Principiantes, os Adiantados, os Perfeitos. Era necessário manter secretos alguns sacramentos, em particular a eucaristia, mas também alguns ritos (fórmulas), alguns dogmas (trindade, transubstanciação), alguns símbolos (o peixe), aos catecúmenos, aos infiéis, aos pagãos, até mesmo aos fiéis.

Destacam-se na disciplina arcani: Clemente de Alexandria (morto em 215), Orígenes (morto em 254), São Basílio (morto em 379), são Cirilo de Jerusalém (morto em 386), santo Inocêncio I (morto em 417), o pseudo-Dionysios o Areopagita.

Em meados de 490, um monge, admirador de Proclo, escreveu. Atribui-se esses textos a são Dionysios o Areopagita, discípulo de São Paulo confundido geralmente com são Dionísio de Paris. O papa Martinho I declarou esses textos canônicos. A teologia mística do pseudo-Dionysios conserva a ideia platônica do Um que está acima e para além da essência (Platão, A república, 509 b), mas dá a ela um sentido cristão transcendente, teísta. Ele introduziu no pensamento cristão a união dos complementares: ele fala das “trevas além da Luz”, do “desconhecimento”, da ignorância que seria o verdadeiro conhecimento. Dá à noção cristã de mistério um teor próximo dos mistérios antigos: “Comunique as verdades sagradas somente de uma maneira sagrada aos homens sagrados por meio de uma sagrada iluminação” (Hierarquia eclesiástica, I, 1).

A Igreja, pode-se dizer, luta com uma energia extrema para minimizar essa tendência da teologia. A partir do século VI, não se trata mais de disciplina do arcano no cristianismo: os catecismos triunfarão sobre a gnose.