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id da página: 5743 Pertencimento

Pertencimento

PERTENCIMENTO
VIDE: Participação, Ser

Filosofia

Marcia Sá Cavalcante Schuback

Excertos de "Para Ler os Medievais"

Para compreendermos o sentido religioso de "lugar", tanto o lugar de deus como o lugar das criaturas, é necessário conceber em que sentido o medieval diz "ser". Ou ainda, só é possível entender o lugar como estrutura de modalidade, como advérbio, se tivermos em mente que, para o espírito medieval, ser é pertencer e não simplesmente existir-aí. O pertencimento é, porém, orgânico, como entre os membros do corpo e a alma que lhe anima e reúne. Os medievais não usam o termo "orgânico", que traduz uma concepção moderna. Mais consonante com o espírito medieval é o termo "dinâmico". Assim como entre a alma e as partes do corpo, o pertencimento entre deus e as criaturas é dinâmico. Dinâmico significa em movimento e, portanto, sem forma ou modo rígido. Mestre Eckhart caracteriza esse pertencimento dinâmico como um "modo sem modo". Cita uma passagem de De diligendo Deo de São Bernardo que diz: "(O modo) de se amar a Deus é um modo sem modo". Um modo sem modo é um modo que não segue nenhum modo predeterminado, mas que se faz dentro da possibilidade mais própria de cada um, de cada parte. Ele traz como exemplo o médico que quer curar um paciente. O médico tem, sem dúvida, um modo com o qual ele busca curar o paciente. Mas o quanto ele quer curar o paciente é "um modo sem modo", pois ele cura como pode e o paciente se cura como pode. O pertencimento dinâmico entre deus e as criaturas é um pertencimento que encontra sempre modos próprios e singulares, vários modos de acordo com o que se pode. Sendo deus o que tudo pode, o modo de deus é inteiramente e, portanto, um modo sem modo predeterminado. No entanto, o modo sem modo determinado de deus não é o limite do que ele pode, mas o seu poder inteiramente, integralmente, indivisamente. O caráter dinâmico do pertencimento entre o criador e as criaturas indica o quanto cada coisa se movimenta dentro da totalidade integradora de deus e o quanto a totalidade integradora de deus está sempre além de qualquer modo rígido de configuração. Longe de um mero existir-aí, de mera parte individualizada, as coisas são concebidas como "criaturas", ou seja, como ser num pertencimento dinâmico a deus (ser num modo sem modo)1 . Esse "sentido de ser" como pertencimento pouco tem do caráter de substância que, de imediato, se atribui a todo ser. Mestre Eckhart, de forma bem representativa para a espiritualidade medieval, indica que o horizonte para se apreender o ser das coisas é o modo de ser de deus e não vice-versa. Ele mostra que não se pode conceber deus com base na ideia de coisa-substância, mas que se deve conceber as coisas com base na experiência de deus como o que é "além" da substancialidade de ser. "Dizer que deus é um ser é dizer algo tão incorreto como dizer que o sol é pálido ou negro. Deus não é nem isso, nem aquilo". Todo isso ou aquilo, ou seja, toda determinação pela qual se diz nominativamente cada coisa está sempre articulando, em maior ou menor grau, uma ideia de substância. Por substância entende-se o que possui consistência, permanência e, portanto, um modo rígido e determinado. O pertencimento dinâmico não se deixa, porém, elucidar com base em nenhuma substancialidade. Principalmente o pertencimento de deus que não é como ele pode mas sim inteiramente, pois ele tudo pode. Dizer que deus não é isso ou aquilo, que deus não é um ser não significa bem afirmar o que deus é. Explicita, ao contrário, a reivindicação de que se conceba tudo o que é, a partir desse pertencer inteiramente, a partir de deus. Para o espírito medieval, a questão fundamental é redimensionar o ser das coisas a partir do modo integral de deus e é nesse sentido que Mestre Eckhart afirma que "ao dizer que Deus não é nenhum ser e que é além do ser, não estou negando a deus o ser, mas ao contrário estou em deus elevando o ser". Essa passagem é muito importante, pois nos fala sobre o caráter desse redimensionamento do ser de tudo o que é, a partir do ser uno de deus.

Na sequência de sua análise, Mestre Eckhart menciona os dez modos de ser concebidos desde Aristóteles como categorias. Detém-se no primeiro e no último modo, ou seja, nos extremos do ser. O primeiro modo, que possui mais ser, é a substância. O último modo, que possui menos ser, é a relação. E diz que esse último modo, a relação, "é em deus igual ao maior, ao que possui mais ser". A relação, o modo de ser que menos possui a substancialidade rígida das determinações, é o que mais se aproxima do que é deus. A relação é relação de pertencimento dinâmico. Mas pode-se dizer que deus "pertence" às coisas? Dizer isso não seria atribuir a deus o caráter de parte? O pertencimento de deus é ser inteiramente em cada parte de tal modo que cada parte só é parte, só possui o seu ser próprio e específico, nesse pertencimento. Pode-se, portanto, indicar que o ser inteiramente de deus é a participação integradora e distintiva de cada parte, a qual "participa" a cada coisa o seu ser específico. O verbo participar, usado aqui na acepção de comunicar, conferir é o que mais corresponde ao verbo usado por Mestre Eckhart, mitteilen, cujo sentido primordial é doar. As coisas são partes de deus, participam de deus, sendo deus quem dá a elas o que têm de próprio. Mestre Eckhart exemplifica dizendo que o sol dá o seu brilho, permanecendo onde está, o fogo dá o seu calor permanecendo fogo. deus, porém, diz ele estabelecendo uma diferença decisiva, "participa (dá) o seu, porque o que ele é, é a partir de si mesmo e em todas as doações que dá, ele primeiramente e sempre dá a si mesmo. Ele se dá como deus, como ele é em todas as suas doações, enquanto permanece junto àquele que o acolheu". Deus participa (dá) o seu, Gott aber teilt das Seine mit. Ele não dá isso ou aquilo, não o brilho ou o calor, mas simples e radicalmente o "seu", dá o seu ser-si-mesmo, dá-se inteiramente. O próprio, o distinto, o parcial de cada coisa mostra-se, porém, desde a inteireza radical de deus. É a inteireza de deus que "participa" a cada coisa o que lhe é próprio. Mestre Eckhart exprime, aqui, uma das experiências mais profundas da religiosidade medieval que é a apreensão de que o próprio das coisas, a sua unidade, não é uma "construção" de deus, mas uma participação ou doação da inteireza de deus. O que Mestre Eckhart quer indicar, nesse uso do verbo participar (mitteilen), é que o pertencimento dinâmico entre deus e as coisas é a relação entre doação integral de deus e acolhimento dentro das possibilidades de cada criatura.


NOTAS

1 A análise que Heidegger faz, em Ser e Tempo, da espacialidade do manual intra-mundano, novamente, é aqui uma referência valiosa. Heidegger mostra como "o lugar é, a cada vez, o 'lá' e 'cá' determinados do pertencimento de um instrumento" (parágrafo 22). Esse pertencimento constitui o caráter não só do instrumento em geral, mas fundamentalmente o que constitui a presença humana. A presença humana é mais do que um ser-humano porque pertence ao seu próprio destino, e tudo o que é, faz e deixa de fazer define-se a partir desse pertencimento. Não obstante o pertencimento em Heidegger não signifique o mesmo que o pertencimento religioso a deus, a compreensão religiosa medieval ganha uma grande clareza através das análises das estruturas de pertencimento em Ser e Tempo. Para o medieval, é inadmissível um sentido de existência como ser-simplesmente-dado, como Vorhandenheit, ou seja, como existência desvinculada, autônoma, desdivinizada em si.