A relação entre o engaste e a sabedoria que ele contém, e da qual ele é por sua vez o conteúdo, prefigura o tema fundamental das Fuçûç al-Hikam, tema que pode se resumir da maneira seguinte: a revelação divina se conforma à receptividade do coração, da mesma maneira que a luz, incolor nela mesma, colore-se segundo o cristal que refrata; o aspecto que a Divindade assume depende portanto de seu “recipiente”. Por outro lado, a Realidade divina sendo ativa e criadora, enquanto que o “recipiente” é passivo, toda qualidade positiva pela qual Deus Se manifesta deve emanar Dele; são portanto os conteúdos reais da Essência divina que determinam a qualidade de um estado contemplativo. Enfim, segundo uma visão mais ampla, o receptáculo, quer dizer o coração do homem, ou mais exatamente seu ser integral e essencial, é ele mesmo uma possibilidade divina: é esta possibilidade permanente e informal, o arquétipo, que “recebe” o mais imediatamente a “Luz” infinita.
Logos, a Realidade divina engloba portanto, ao mesmo tempo, o recipiente da revelação e seu conteúdo; só se A conhece, conhecendo a lei mesmo de Sua manifestação, de maneira que se A distingue de Seus receptáculos sem, no entanto, separar essencialmente e sob todas as relações os receptáculos e a Realidade.
O homem, que é o receptáculo por excelência da revelação divina, deve para conhecer Deus conhecer-se a si mesmo, na sua possibilidade permanente. Ora, ele não se conhecerá a não ser através de Deus: enquanto ele é, ele mesmo, o objeto do conhecimento, Deus disto é o “sujeito”, a Testemunha transcendente; enquanto Deus é o “objeto” do conhecimento, Ele “Se colore” em função do sujeito que O contempla.
Se há no ensinamento doutrinal de Ibn Arabi um sistema qualquer, é aquele de permutação de termos opostos e complementares. Este emprego metódico do paradoxo não deixa qualquer sossego ao espírito do leitor, naturalmente inclinado a fixar-se sobre uma noção definida, “dogmática”, se assim se quer, e o conduz em direção aquilo que Ibn Arabi denomina ele mesmo al-hayrah, quer dizer a “perplexidade” ou a “surpresa” diante daquilo que vai além da ordem racional; este hayrah, diz ele, deve se tornar um constante movimento circular ao redor de um ponto mentalmente inatingível, imagem que lembra os últimos versos da Divina Comédia: “... Tal estava eu quando desta nova visão: eu quis ver como a imagem (humana) convinha ao círculo (divino) e como ele aí se integrava. Mas para isto minhas próprias asas não foram suficientes. Meu espírito foi tocado por um raio, e imediatamente minha vontade se realizou. À alta imaginação [espiritual] faltavam aqui as forças; mas já meu desejo e meu querer giravam, como um roda que é uniformemente movida, pelo Amor que move o sol e as outras estrelas.”