VIDE: DUALIDADE; POLOS; YIN-YANG; MULTIPLICIDADE
Mitologia Grega
Mircea Eliade e Ioan Couliano:
A palavra dualismo foi inventada em 1700 para caracterizar a doutrina iraniana dos dois espíritos. Mais tarde, os estudiosos descobririam que os mitos dualistas têm uma difusão universal e conhecem inúmeras transformações a todos os níveis culturais e num grande número de religiões, desde as que se centram na etnologia até às «grandes religiões» como o budismo, o cristianismo, a religião grega, o hinduísmo, o islão, o judaísmo, etc. A definição mais simples do dualismo é: oposição de dois princípios. Isso implica um julgamento de valor (bom/mau) e uma polarização hierárquica da realidade a todos os níveis: cosmologia, antropologia, ética, etc.
Reconheceu-se tradicionalmente a existência de duas formas ou tipos de dualismo religioso: o dualismo radical, que dá origem a dois princípios co-eternos responsáveis pela criação do que é; e o dualismo mitigado ou monárquico (que não põe em questão a monarquia de um criador supremo), onde o segundo princípio se manifesta mais tarde, estando a sua origem num erro no sistema posto em prática pelo primeiro princípio.
Ugo Bianchi, autor da monografia Il dualismo religioso (1958, 1983), constatou que os mitos que têm como protagonista um Trickster são frequentemente dualistas. Um Trickster é um personagem malicioso, humano ou animal, capaz de se transformar, divertido, que está presente nos mitos de todos os continentes e se camufla frequentemente numa das divindades ou semi-divindades das grandes religiões, como Seth na religião egípcia, Prometeu na religião grega, ou Loki na religião escandinava. Na maior parte dos casos o Trickster é homem, mas existe também nos mitos típicos que têm como protagonista um Trickster mulher. Em toda a categoria de mitos, o Trickster age como colaborador do criador do mundo ou de parte do mundo e desempenha sobretudo o papel daquele que corrompe a criação da divindade suprema, introduzindo no mundo todos os males atuais: a condição mortal dos homens, as dores do parto, etc. Trata-se, em geral, de episódios míticos pertencentes ao dualismo radical. Reconhecemos no mito bíblico da Gênesis a presença discreta de um Trickster (a serpente) ex machina, que revela a sexualidade ao casal humano primordial, resultando na sua expulsão do paraíso, marcada pelo parto na dor, a dominação do homem sobre a mulher, a maldição do trabalho, a morte. O dualismo radical foi mantido sob uma forma mitigada: a serpente foi criada por Deus. Mas quando se começam a pôr questões sobre a natureza inteligente e maligna, entrevê-se já que este mito pode-se prestar a numerosas transformações interpretativas. Em todo o lado — nas duas Américas, na Eurásia, em África e na Oceania — o Trickster pode ser um «demiurgo maligno», autor de uma contra-criação de consequências frequentemente funestas.
Paralelamente aos mitos de conteúdo dualista, há religiões e correntes dualistas cuja atitude perante o mundo e o homem pode variar desde o anti-cosmismo (o mundo é mau) e o anti-somatismo (o corpo é mau) até ao pró-cosmismo (o mundo é bom) e ao pró-somatismo (o corpo é bom). O zoroastrismo é uma religião dualista, pró-cósmica e pró-somática; o orfismo é uma corrente religiosa dualista anti-cósmica e anti-somática; o platonismo, corrente de ideias cuja influência religiosa foi enorme em todas as épocas, é fortemente anti-somática mas não anti-cósmica; outras religiões, enfim, como o gnosticismo, maniqueísmo, paulicianismo, bogomilismo e o catarismo foram sempre analisadas como grupos à parte, sendo certo que foram interpretadas como heresias cristãs. Os seus traços distintivos serão brevemente analisados nos parágrafos seguintes.
GNOSTICISMO: O DUALISMO GNÓSTICO
PERENIALISTAS: DUALISMO SEGUNDO OS PERENIALISTAS
André Chouraqui: CAMINHOS DOS SALMOS
Notemos aqui a dialética constante que anima, no Saltério, a relação do homem à coletividade, à comunhão dos homens. Dois atores, como dissemos, dividem a cena de nosso drama, o inocente e o criminoso. Na realidade, eles são assistidos por um séquito inumerável, e a guerra das nações contra Israel ecoa o combate do criminoso contra o justo. Um paralelismo absoluto parece reger a existência desses pares. Jamais a lei da ambivalência dos símbolos, que reina soberana nos Salmos, atuou com tanto rigor; assim como o criminoso é o inimigo do justo, as nações são as inimigas de Israel; o criminoso é o inimigo de YHWH Adonai: as nações odeiam YHWH Adonai e se prostituem aos ídolos. Na verdade não devemos nos surpreender com esse rigor que atua como por petição de princípio. Israel se define por sua conformidade ao justo; todo aquele que, em Israel, viola a lei da aliança perde sua dignidade e cai no reino das trevas. Do mesmo modo, as nações se definem por sua conformidade às obras do criminoso; mas todo aquele que, entre as nações, abandona a idolatria tem acesso às graças advindas da aliança e se torna Israel. A fratura do mundo, que permite o assassinato do inocente, implica a rejeição de Israel, que conserva na noite do exílio, entre as nações, a função do pária. Depositário da Revelação, Israel tem, como o inocente, a vocação da abjeção: seu exílio, suas carências e seus sofrimentos correspondem à noite expiatória do justo; em muitos textos é possível perguntar-se se o salmista tem em vista o inocente ou o povo da aliança; na realidade, tanto um como o outro são os servidores de YHWH Adonai, uma vez que, em espírito e em verdade, ambos se definem e se nomeiam por seu amor.
O julgamento de YHWH Adonai regula o conflito que opõe não apenas o criminoso ao inocente, mas também Israel às nações. Vimos que as intervenções de YHWH Adonai na história de Israel não são senão as imagens, as figuras do Juízo final.
A exegese hebraica insiste sobre o caráter escatológico dos Salmos e os interpreta em seu pleno sentido messiânico. A ascese do justo, seu retorno à adoração de YHWH Adonai preparam o perdão e a redenção de Israel. Em breve ressoarão as grandes trombetas do Julgamento que consumarão a união do justo e de YHWH Adonai e marcarão a hora da reunião dos exilados. Toda a literatura dos Salmos vibra e arde dessa esperança. A época messiânica é primeiramente marcada pelo retorno dos cativos de Israel (14,7; 53,7: 85,2; 106,47; 107,3; 126,1; 147,2). Eles retornam de todas as extremidades da terra, do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul. Retornam como num sonho, trazidos de volta por YHWH Adonai ao país de seus antepassados de onde haviam sido expulsos por causa de suas faltas. São arrancados da escravidão em que os mantinham as nações e reconduzidos a Siôn (Sião) para cantar a glória de YHWH Adonai e reconstruir Jerusalém, leroushalaîms. A punição do criminoso é acompanhada do julgamento das nações. A revolta delas, as guerras que elas desencadeiam determinarão seu castigo e sua conversão. As nações que resistem a YHWH Adonai, ou a seu messias, serão derrotadas e destruídas, os reis que atacam Siôn serão tomados de pânico e postos em fuga; pois Elohims se levanta para defender sua herança, ele mesmo calca aos pés seus inimigos, que são consumidos pelo fogo, arrastados pela tempestade. O sangue inocente é vingado; os que escapam à destruição se submetem a YHWH Adonai; ele prende os reis às cadeias de ferro. A estrondosa vitória do Elohims de Israel leva à conversão das nações. YHWH Adonai é o escudo e a esperança dos justos: encerrado o criminoso em sua cova, os inimigos de YHWH Adonai definitivamente castigados, todas as extremidades da terra abandonarão seus falsos deuses e reconhecerão que eles são ídolos impotentes e mortíferos. Elas retornarão ao Elohims de Israel. Todas as famílias das nações se prosternarão diante dele; o celebrarão e se regozijarão quando ele vier julgá-las e salvá-las; o orgulho dos poderosos será rebaixado; o justo mortificado, o povo votado à abjeção tornam-se pedra angular; eis a obra de Elohims, um milagre aos olhos de todos.
A reconciliação cósmica permite assim a reconstrução de leroushalaîms. O Templo que David (Davi) havia jurado a YHWH Adonai construir para ser sua morada, esse edifício que ele dedicara ao Poderoso de Ia'acob (Jacó) para abrigar a Arca, volta a ser o lugar da presença real do Elohims de Abrahâm (Abraão). YHWH Adonai novamente se enamora de seu lugar e o abençoa. Paramenta seus sacerdotes de salvação, e seus homens consagrados se manifestam em cantos de alegria. Das extremidades da terra as nações e os povos, os antigos e os novos, as virgens e os velhos trazem oferendas ao Elohims de Israel, pois ele faz reflorescer o chifre de David, restaura seu trono, prepara a luz do Messias e seu diadema que resplandece nas auroras da glória (132,89).