VIDE: Vida e Mortos
Que diferença poderia haver entre “viver” e “morrer”? “Viver” é apenas a elaboração, em duração sequencial, daquilo que, de outro modo, é conhecido como “morte”.
Quando o que somos funciona, estendendo-se em três aparentes dimensões espaciais e outra que as interpreta como duração — ambas conhecidas como “espaço-tempo” —, há o que conhecemos como “vida”. Quando esse processo cessa, já não estamos estendidos em duração sequencial, já não somos elaborados em “espaço”; o “espaço-tempo” deixa de existir, e o universo aparente desaparece.
Então dizemos que estamos “mortos”.
Mas, enquanto o que somos, nunca “vivemos”, e não podemos “morrer”.
Onde poderíamos “viver”? Quando poderíamos “morrer”? Como poderiam existir tais coisas como “nós”? “Viver” é uma ilusão espacial, “morrer” é uma ilusão temporal, e “nós” somos uma ilusão espaço-temporal baseada na interpretação serial de “quadros” ou “quanta” dimensionais, reconhecidos como movimento.
Somente os conceitos de infinito e de intemporalidade podem sugerir intelectualmente uma noção daquilo que somos como fonte e origem da aparência ou manifestação.
A respeito da dualidade vida-morte e a seu aparente correlato dual de Schaya Vigília do Coração-vida mortal, vide Evangelho de Tomé - Logion 98. Convém no entanto fazer um breve resumo para confirmar que na verdade não há segundo o evangelho duas ordens de Vida, senão uma só Vida na unidade do Reino de Deus.
Quando o evangelho se refere à Vida (eterna) em oposição à vida (mortal), faz uma transposição pela qual fala, em primeiro caso, da Vida em si mesma, e em outro menciona o vivente.
A Vida é uma propriedade do Ser em si mesmo (como o calor é propriedade do fogo), pois entra em sua natureza ser Vida como propriedade inesgotável sua. Daí que quando se diz que o espírito tem a Vida, não é que tem a Vida como um agregado a sua existência de espírito, senão que em sua natureza entra ser a Vida.
Pelo contrário, quando dizemos de algo que “morre”, não é que vejamos com ele morrer a Vida, pois a Vida ao ser Vida não pode ser morte, senão que a Vida “cedida” temporalmente em usufruto, se apartou daquele que por usar a Vida parecia viver.
Quanto ao vivente que parece morrer, há que entender bem que nunca viveu, pois nunca foi outra coisa que aparência de Vida; e se nunca foi (ou esteve) vivo, tampouco pode se dizer que morreu alguma vez, pois a única verdade é que foi tido como vivo quando a Vida o converteu em vivente, e logo foi contado como morto quando a Vida que o convertia em vivente se apartou dele.
Quando chegue a consumação do mundo, permanecerá a Vida onde sempre esteve, no Reino de Deus; e a palha que pareceu ser Vida, será reconhecida como palha, o que sempre foi, e se dissipará como fumaça. [Evangelho de Tomé: Evangelho de Tomé - Logion 106]
Por otra parte, la misma transmutación puede ser considerada como proceso temporal, que es lo que hace Zhuangzi. Una cosa, a, subsiste como a durante un tiempo. Luego, cuando llega el límite natural que le ha sido asignado, deja de ser a y se transmuta o transforma en otra cosa, b. Desde el punto de vista de la supratemporalidad, a y b son, metafísica-mente, una sola cosa. Lo único que las diferencia es una cuestión de fenómeno. En este sentido, incluso antes de que a deje de ser a, o sea desde el principio, a es b, y b es a. Por tanto, no se plantea que a «se convierta en» b, porque a, por el hecho mismo de ser a, ya es b.
Sin embargo, desde la segunda perspectiva, a no es más que a, y se convierte en otra cosa, b, en un proceso temporal. Aquélla «se transforma» en ésta. Pero una vez más encontramos la misma Unidad metafísica por una vía indirecta, por así decirlo, ya que a, al «convertirse» y «transformarse» en b, regresa a su propio origen. El proceso entero constituye un círculo ontológico, ya que, a través de su conversión en b, a no se transforma más que en sí misma, aunque bajo una forma diferente.
Aplicada a los conceptos de «vida» y «muerte», esta idea genera una filosofía de la Vida peculiar, una visión de la existencia humana básicamente optimista. Es «optimista» en el sentido en que elimina la distinción entre la Vida y la Muerte. Desde esta perspectiva, el problema de la Muerte no es más que un pseudo-problema.
Si bien se trata de un pseudo-problema desde el punto de vista de quienes han visto la Verdad, Zhuangzi aborda a menudo el tema y desarrolla mi pensamiento en torno a él. De hecho, es uno de sus temas favoritos. Y es así porque, en realidad, es un problema, o el problema. La Muerte, en particular, constituye el problema más inquietante para la mente humana corriente. Y el hecho de que un hombre haya vencido la angustia existencial de enfrentarse en cada momento al horror de su propia aniquilación es señal de que dicho hombre ha alcanzado el grado de «hombre verdadero». Además, dado que se trata de un problema tan vital, su solución revelará a la mente el significado del concepto de Transmutación, ya que todo lo demás se encuentra exactamente en la misma situación ontológica que la Vida y la Muerte. [Toshihiko Izutsu – Sufismo e Taoismo]