KINGSLEY, Peter. In the dark places of wisdom. Inverness, Calif: Golden Sufi Center, 1999
Momento: por volta do ano 540 a. C.
Naquele ano sucedeu algo em Foceia. Não se pode dizer que fosse inesperado, pois já fazia tempo que os foceus pensavam que algum dia iria acontecer. Inclusive os seus interlocutores comerciais do Atlântico lhes haviam dado uma fortuna para que erguessem uma muralha defensiva. Mas algumas coisas não se podem mudar, por muito que se as vejam a chegar.
Os foceus levavam anos a comerciar com a Pérsia e continuariam a fazê-lo durante os anos vindouros. Em qualquer caso, comerciariam aqueles que terminassem por encontrar o modo de regressar à cidade e mantê-la viva, ainda que como uma sombra do que havia sido.
Contudo, naquele momento a situação havia mudado. Por motivos religiosos, econômicos e políticos —mas, em última instância, tudo se reduzia à religião—, a Pérsia queria estender o seu império até os confins da terra. Os persas estavam sedentos. Já não desejavam comerciar com Foceia: desejavam ser donos de Foceia.
Chegou o exército e o comandante lançou um ultimato: aceitam as minhas condições ou morrerão. E nenhuma muralha, por grande que fosse, seria de utilidade. Os persas haviam aprendido um truque e sabiam trepar pelas muralhas amontoando terra no exterior.
Encurralados entre a muralha e o mar, aos foceus ocorreu-se-lhes outra astúcia: pediram que lhes fosse concedida uma noite para meditar. O comandante persa disse que sabia do que eram capazes, mas não desejava imiscuir-se. Algumas vezes o mais inteligente é deixar-se enganar.
Os foceus recolheram tudo o que puderam e levaram-no para os barcos: famílias e bens móveis. Tomaram as imagens e os objetos sagrados dos templos, tudo o que puderam carregar; só deixaram para trás as pesadas peças de bronze, as talhas e pinturas em pedra. E fizeram-se ao mar.
Escaparam à morte e à rendição, ao menos por agora, e os persas tomaram posse de uma cidade vazia.
O passo seguinte foi encontrar um novo lar. Perguntaram aos seus vizinhos de Quios se lhes podiam comprar umas poucas ilhas, o território disperso entre esta ilha e o continente asiático, mas os quios se negaram. Sabiam que os foceus eram muito bons comerciantes e não tinham intenção de fomentar a concorrência às portas da sua casa.
Mais uma vez, chegou o momento de partir. Mas, nesta ocasião, foi também a hora de deixar a parte do mundo onde haviam nascido e vivido.
Primeiro, todos eles fizeram um juramento. Atiraram uma peça de ferro ao mar e prometeram que nenhum deles voltaria a Foceia até que o ferro flutuasse na água. É um juramento antigo, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Séculos mais tarde, ainda se encontram poetas do amor chineses que juram assim: «Prometemos amar-nos até que o ferro flutuasse no rio».
Acordaram navegar para o oeste, para a Córsega. Córsega era uma escolha óbvia. Alguns foceus já haviam partido de Foceia e haviam fundado ali uma colônia uns vinte anos antes. Naqueles tempos, fundar uma colônia era coisa séria e era normal perguntar ao oráculo do deus Apolo em Delfos para que lugar deveriam ir.
Apolo podia responder com um enigma, como costumava fazer, mas o importante era a resposta.
Assim, pois, haviam ido de Foceia a Delfos para pedir conselho, e Apolo sugeriu que fundassem uma cidade em Cirno ou, ao menos, isso é o que creram entender. Cirno era o nome grego de Córsega e ali decidiram ir.
Vinte anos mais tarde, os foceus acordaram, pela segunda vez, navegar até a Córsega, mas nesta ocasião o pacto não foi suficientemente forte. A despeito dos persas, a despeito do juramento sobre o ferro e o mar, a metade da população não pôde ir: resultava-lhes demasiado doloroso deixar tudo para trás, sentiam demasiada nostalgia da sua terra. Regressaram e se inclinaram perante os persas, esmagados pela maldição do juramento quebrado.
Os demais embarcaram e, quando por fim chegaram à Córsega, lhes deram as boas-vindas os originários povoadores de Foceia. Viveram juntos durante vários anos e ergueram novos templos para alojar os objetos sagrados que levavam consigo.
Os bons tempos não duraram. Já eram demasiados e os meios de subsistência eram escassos, de modo que se dedicaram ao que melhor sabiam fazer: converteram-se em piratas. Não passou muito tempo antes que as suas vítimas se fartassem e unissem as suas forças para os destruir numa batalha naval.
Os foceus não pareciam ter a menor oportunidade de se defender, visto que estavam numa esmagadora inferioridade numérica, mas venceram. O único problema foi que, como sucede com frequência, quase os destruiu a vitória. Perderam tantos barcos e danificaram tantos outros, perderam tantos homens por um ou outro motivo, que já não lhes foi possível ficar e correr o risco de sofrer outro ataque.
Mais uma vez, encontraram-se sem pátria; mas nesta ocasião as coisas foram distintas. O oráculo de Delfos havia aconselhado os foceus a que fundassem a sua cidade em Cirno. Haviam feito exatamente o que dizia Apolo e os haviam destruído quase por completo. As coisas já não pareciam ter sentido. Ninguém os guiava, ninguém lhes dizia para onde ir. Começaram a derivar para o sul, pelo caminho que haviam seguido na ida, e para o leste, até que chegaram a uma população situada no extremo meridional da Itália, e ali se detiveram.
Ali conheceram o homem que mudou tudo. Era apenas um desconhecido que vinha de um lugar chamado Posidonia, situado um pouco mais ao norte, na costa ocidental da Itália. Mas dissipou todas as suas dúvidas.
«Entendestes tudo mal», disse o desconhecido. «Crêstes que Apolo vos dizia para que construísseis a vossa casa em Cirno; mas esta é só a vossa conclusão. O que ele queria vos dizer era para que construísseis algo em honra de Cirno».
Assim que se entendia, a explicação do desconhecido era bastante singela. Cirno poderia ser o nome de Córsega, mas também era o de um herói mítico, filho do maior herói de todos os tempos: Heracles. O grego clássico era uma língua sucinta na qual uma só palavra significava o mesmo que duas ou três noutro idioma, o que facilitava os equívocos, inclusive na fala cotidiana.
E, contudo, havia uma forma de linguagem que era a mais famosa de todas, inclusive para os gregos, pelas suas ambiguidades e duplos sentidos, e esta era a linguagem dos oráculos. Quando os deuses falavam através dos oráculos, aos homens lhes custava entendê-los. Nessa dificuldade reside a diferença entre o humano e o divino.
Os foceus fizeram sua a sugestão do desconhecido. Os havia tirado da sua confusão, das limitações de lugar, do «aqui» e «ali». A vida continuava à sua espera, aguardando que a vivessem. Até aquele momento, careciam de esperança; mas, na realidade, haviam interpretado o oráculo em um sentido demasiado estrito, haviam deduzido um significado físico em lugar de um mítico.
Edificaram um lugar de culto perto de Posidonia, a cidade natal do desconhecido. Instalaram-se ali e ali viveram durante séculos. E mudaram o curso do mundo. A sua cidade recebeu distintos nomes, segundo quem o escrevesse e pronunciasse: Hyele, Elea, Velia.