KINGSLEY, Peter. In the dark places of wisdom. Inverness, Calif: Golden Sufi Center, 1999
Phocaea ou Phokaia ou Foceia
Eram comerciantes, exploradores, piratas. Aqueles que os têm estudado denominam-nos os vikings da antiguidade clássica. Foram os mais ousados aventureiros dentre todos os antigos gregos e tentaram ir além das fronteiras do desconhecido. Converteram em realidade o que para outros era um sonho.
Chamavam-se foceus e o nome de sua cidade era Foceia; este era um lugar pequeno, empoleirado na costa ocidental do que agora se conhece como Turquia, um pouco ao norte da atual cidade de Esmirna.
Tornaram-se famosos por avançar, desde seu lugar de origem, em direção ao oeste e ir mais longe de onde a maioria dos gregos acreditava ser possível que os seres humanos chegassem. Segundo contam antigas tradições, foram os primeiros a ir de maneira habitual além de Gibraltar e a adentrar-se no Atlântico; e isso nos séculos VII e VI a. C. E foram foceus os colonos que navegaram para o sul pela costa oeste da África e, para o norte, em direção à França e Inglaterra, Escócia e mais além.
E também pelo leste. A situação de Foceia era privilegiada, próxima ao extremo ocidental da rota das grandes caravanas que se estendia ao longo de milhares de quilômetros; partia do Mediterrâneo, cruzava a Anatólia e Síria e alcançava o Golfo Pérsico.
Este era o famoso Caminho Real: a rota que utilizaram durante séculos os reis da Ásia ocidental e da Pérsia, seguiu depois Alexandre Magno e, muito mais tarde, tomariam os cristãos para difundir sua mensagem. Por essa rota, chegaram ao mundo ocidental influências orientais, tanto à religião quanto à arte, mesmo antes que Foceia se tornasse famosa, e viajou a influência grega em sentido contrário. Converteu a Foceia num ponto chave no contato entre Oriente e Ocidente no mundo antigo.
Foceia quer dizer “cidade de focas”. Os próprios foceus eram anfíbios, viviam voltados para o mar. Escreveram grande parte de sua história na água, e o mar não conserva as pegadas.
Por isso é bom olhar ao redor, pode ajudar-nos a apreciar melhor o tipo de mundo em que viviam: um mundo ainda esquecido e quase desconhecido.
Aí temos Samos, uma ilha situada um pouco ao sul de Foceia, diante da costa continental asiática. Samos e Foceia tinham muito em comum. Os foceus eram os melhores especialistas no comércio a longa distância, mas os habitantes de Samos também eram famosos por esse mesmo motivo. Foceus e samios gozavam de uma reputação de proporções quase míticas graças ao comércio com a atual Andaluzia e o longínquo Ocidente. Algumas descobertas notáveis realizadas no que agora chamamos Espanha e em Samos confirmam esta fama.
Temos também o Egito. Não seria justo dizer que os samios e foceus se limitavam a comerciar com o Egito. Fizeram muito mais: construíram armazéns e lugares de culto ao longo do Nilo, juntamente com outros gregos. Para os samios ou para os foceus, o Egito não era um mero país estrangeiro, mas parte do mundo que conheciam, no qual viviam e trabalhavam.
Samos foi a terra de Pitágoras. Em qualquer caso, o foi até que zarpou rumo ao oeste e se instalou na Itália, por volta do ano 530 a. C. O que se disse século após século no mundo antigo foi que Pitágoras aprendeu tudo o que sabia viajando ao Egito e à Andaluzia; à Fenícia, região da atual zona costeira do Líbano e Síria; à Pérsia, Babilônia e Índia.
Atualmente, os eruditos riem dessas histórias e as rejeitam como fantasias românticas que, sobre um famoso grego das ilhas, inventaram outros gregos posteriores, desejosos de imaginar vínculos precoces entre a cultura oriental e a ocidental. Contudo, seria melhor ser um pouco mais prudente.
Segundo diz uma antiga tradição, o pai de Pitágoras era um talhador de pedras preciosas. Se se examina com cuidado esta tradição, ver-se-á que há motivos excelentes para dá-la por boa. E o que fizesse seu pai, Pitágoras aprenderia: como era natural na época, o educariam para desempenhar a mesma profissão que ele. Mas para um talhador de pedras preciosas da época, do século VI a. C., a vida significaria determinadas coisas. Implicaria aprender técnicas procedentes da Fenícia e comprar materiais do Oriente. Não é surpreendente que escritores gregos posteriores dissessem que o pai de Pitágoras se dedicava a comerciar entre Samos e a Fenícia.
Existia outra tradição sobre Pitágoras, uma tradição baseada nas melhores fontes, a qual diz que acostumava usar calças. Isso resulta muito estranho, já que os gregos não as usavam; era traje próprio de persas e iranianos. Mas, para começar a compreender a tradição, basta com voltar-se para outro habitante de Samos, um homem chamado Teodoro.
Teodoro viveu na época de Pitágoras e de seu pai. Era talhador de pedras, assim como um bom escultor e arquiteto. Os antigos cronistas dizem que trabalhou e aprendeu no Egito, e os achados recentes neste país têm confirmado de maneira categórica suas afirmações.
Conhecemos também outras coisas de Teodoro: agora sabemos que trabalhou pessoalmente para os reis da Anatólia ocidental —o que é agora o oeste da Turquia— e para o rei da Pérsia. Há bons motivos para vinculá-lo com a melhor arquitetura que se construiu no próprio coração da antiga Pérsia.
Isso poderia parecer extraordinário e, em certo modo, o é. Mas Teodoro, igual a Pitágoras, vinha de Samos: uma ilha que, século a século, manteve os vínculos mais estreitos com o comércio, a diplomacia e a arte persa.
E Teodoro não estava sozinho, já que, casualmente, conhecemos outro escultor grego que trabalhou para duas gerações de reis persas, muito longe de sua terra natal. Chamava-se Telephanes e não procedia de Samos, mas sim de Foceia.
Todos temos motivos distintos para viajar: uns se veem obrigados, outros creem que escolhem.
Mas o importante é que então se viajava a longa distância e, ademais, em grande escala. No mundo antigo era mais frequente do que nos têm feito crer, igual que na Idade Média. E o mais surpreendente de tudo é que, mesmo quando a Grécia se encontrava no ponto culminante de sua luta contra a Pérsia, no momento mais inesperado, alguns gregos inteligentes introduziram-se sub-repticiamente na Pérsia para aprender, ganhar dinheiro e tratar com homens mais sábios do que eles mesmos.
Os artistas e artesãos instalaram-se ali com suas famílias e, ao pôr em comum seus recursos, ajudaram a construir o império persa. Muito antes, a arte grega de talhar a pedra havia sido modelada e influenciada pelo Oriente; depois foram os gregos que deram forma às maiores realizações da arquitetura persa.
Contudo, isto é só uma pequena parte da história. Os maiores especialistas têm averiguado algo que custa admitir: na realidade, as descobertas mais famosas de Pitágoras não foram tais: fazia já séculos que se conheciam na Babilônia e o maior mérito de Pitágoras foi levar esses conhecimentos à Grécia e adaptá-los ao mundo dos gregos. Mas inclusive estes eruditos têm passado por alto até que ponto a ilha natal de Pitágoras explica de modo natural o vínculo com a Babilônia.
O maior templo de Samos estava dedicado a Hera, mãe dos deuses, e era famoso em todo o mundo grego. Durante o século VI a. C. aumentou-se e reconstruiu-se amplamente; o novo projeto baseou-se em modelos egípcios.
E no interior dos recintos sagrados do templo, têm-se encontrado uns estranhos objetos de bronze, depositados ali antes do período de que estamos falando, no século VII a. C., como oferenda. São estranhos do ponto de vista dos gregos, mas não para o Oriente.
São imagens que pertenciam ao culto de Gula, a deusa babilônica da cura. E não chegaram ali por questões relacionadas com o comércio, mas porque a religião e os distintos cultos cruzavam as fronteiras dos diversos países e passavam por alto os limites das línguas. O mesmo sucedia com a arte. Os artistas de Samos copiaram as imagens do culto babilônico, imitaram os traços de seus demônios.
As importações orientais procedentes da Síria e Babilônia inundaram Samos entre os séculos VII e V a. C. Os comerciantes estrangeiros vinham do leste, mas também sucedia o contrário: os samios viajaram também para o oriente e as rotas comerciais seguiram transitadas até a época de Pitágoras.
Aí onde há movimento de bens e objetos, o caminho está aberto aos viajantes. Aí onde existem caminhos para o contato cultural, há um convite permanente para as pessoas inquietas. Isso deveria ser óbvio; em qualquer caso, o era. “Comércio” e “curiosidade”: aos gregos lhes agradava unir os dois termos porque sabiam que iam de mãos dadas.
Quanto ao templo de Hera, não só se converteu na sede de importações procedentes da Babilônia, Egito ou Pérsia, mas foi também um armazém de objetos trazidos da Andaluzia e Fenícia, do Cáucaso, da Ásia Central. Algumas das importações foram belos seres vivos: os pavões se introduziram em todo o mundo ocidental a partir do templo de Hera em Samos. Criavam-se no recinto do templo e os tratavam como objetos sagrados, próprios da deusa.
Chegaram a Samos, passando pela Pérsia, desde a Índia.
Passou o século VI e a Babilônia se converteu em parte do império persa. Mas, na realidade, as coisas não mudaram muito: Babilônia, Pérsia e Índia haviam estado unidas durante muito tempo pelos laços mais estreitos. Naquele momento, simplesmente, havia mais motivos para viajar. Na Babilônia era possível encontrar nativos da Mesopotâmia, da Pérsia e comunidades inteiras de indianos.
Também havia assentamentos de gregos que trabalhavam e comerciavam na Babilônia desde princípios do século. Eram antecessores diretos das comunidades gregas que seguiriam vivendo ali durante setecentos anos mais. E entre estes primeiros povoadores havia gente de uma zona concreta da Anatólia chamada Cária. Mais adiante dir-se-á mais coisas sobre os carios e seus vínculos com Foceia.
Durante muito tempo, tem-se-nos dito que os antigos gregos formavam um povo fechado em si mesmo, relutante a aprender línguas estrangeiras, que criou sem ajuda de ninguém a civilização ocidental. Isso não se ajusta exatamente à verdade. Para começar, aí estavam os vínculos com o Oriente, por detrás de tudo o que ia acontecer e tem acontecido desde então.
Seria bom não o esquecer.