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id da página: 9836 Tomberg Tabla Esmeraldilna Valentin Tomberg

Tomberg Tabla Esmeraldilna

TÁBUA DE ESMERALDA — COMENTÁRIOS DE VALENTIN TOMBERG


Como o texto da Tábua de Esmeralda não foi conhecido no Ocidente antes de Alberto Magno (1193/1206-1280) e como não tinha sido encontrado nenhum texto ou manuscrito de data anterior, os historiadores do começo deste século pensavam que Alberto Magno fosse o autor da Tábua de Esmeralda. Ela era considerada apócrifa não só do ponto de vista de sua autenticidade enquanto obra de Hermes Trismegisto, mas também do ponto de vista de sua autenticidade intrínseca, como obra digna de ser incluída no Corpus Hermeticum ou coleção dos textos apócrifos dos primeiros séculos de nossa era atribuídos a autor conhecido pelo nome (ou pseudônimo) de Hermes Trismegisto. Ora, o texto da Tábua de Esmeralda não consta na edição considerada como a mais completa do Corpus Hermeticum — a Hermética, em 4 volumes, de Walter Scott (Oxford, 1924). A mesma observação vale também para o Corpus Hermeticum estabelecido e traduzido por Nock e Festugière (Belles Lettres, Paris, 1960). . . Scott escreve o seguinte: "The masses of rubbish which fall under the. . . head... of writings concerning astrology, magic, alchemy and kindred forms of pseudo-science" ("as massas de refugo que se incluem na categoria dos escritos concernentes à astrologia, à magia, à alquimia e a outras formas de pseudosciência", Scott, Hermética, vol. I, Introdução, p. 1); esse "refugo" entretanto, é também atribuído a Hermes Trismegisto ("the contents of which are also ascribed to Hermes Trismegistus", id., ibid.). O critério de Scott para estabelecer se um escrito atribuído a Hermes Trismegisto deve ser incluído no Corpus Hermeticum ou não é que ele deve tratar de problemas religiosos e filosóficos ou da natureza (de maneira "pseudoscientífica"). Em outras palavras, os escritos que tratam de problemas de religião e de filosofia pertencem ao Corpus Hermeticum, ao passo que outros não são dignos de serem incorporados a ele.

O próprio Hermes diz, no entanto (Prólogo de Asclepius, Scott, vol. I, p. 287): "...Sei que vários de meus escritos foram dirigidos a ele (Amon) e também que vários de meus tratados sobre a natureza . . .foram dirigidos a Tat". — Como permitir a rejeição de todos os escritos sobre a natureza e considerar só a categoria ("dirigida a Amon") como autêntica, quando se sabe que o autor de um dos escritos (Asclepius), reconhecido como autêntico no Corpus Hermeticum, proclamou explicitamente que ele é o autor de outra categoria de escritos, a saber, daqueles que tratam da natureza?

Quanto à Tábua de Esmeralda, o parentesco de suas ideias com Asclepius (Scott, vol. I, p. 289) salta aos olhos. Assim, por exemplo, Hermes diz:

"O ar entra na terra e na água, e o fogo entra no ar. Somente aquilo que tende para o alto dá a vida, e o que tende para baixo está subordinado a ele. Além disso, todo o que desce do alto é susceptível de gerar; e o que sobe, antes de sua origem em baixo, é nutritivo. A terra, a única que conserva seu lugar de maneira estável, recebeu tudo o que gera e restitui tudo o que recebeu".


Por que deveriam essas ideias ser consideradas mais "religiosas e filosóficas" do que as da Tábua de Esmeralda? Também esta fala do movimento de baixo e de cima e da geração pelo Pai Sol e pela Mãe Lua, bem como da função nutritiva da terra.

Seria porque não foi encontrado nenhum texto da Tábua de Esmeralda antes do século XIII?


O estado atual dos estudos históricos sobre a Tábua de Esmeralda é, pois, o seguinte: ela era conhecida em árabe, como tradução do siríaco, no começo do século IX; existem duas variantes em árabe; nada se opõe à tradição árabe segundo a qual ela foi traduzida do siríaco, nem à tradição segundo a qual ela provém de Apolônio.

Podemos acrescentar ainda que nada se opõe também à tradição segundo a qual Apolônio, por sua vez, tê-la-ia encontrado da maneira descrita pelo sacerdote Sagijus de Nabulus.

De qualquer forma, é certo que a Tábua é de origem mais antiga do que se pensava até 1923, e há motivos para se reconsiderar a opinião segundo a qual ela seria indigna de ser incluída no Corpus Hermeticum.

Quanto a nós, temos todas as razões — tanto subjetivas quanto objetivas, in foro interno ("no foro interno"), para afirmarmos com segurança e sem nenhuma dúvida que a Tábua de Esmeralda é a única peça autêntica de todo o Corpus Hermeticum, e isso no sentido de que seu autor não é o "terceiro" Hermes, nem o "segundo", mas o primeiro — isto é, o fundador da tradição hermética como tal — tradição cujos elos principais (segundo Ficino, em 1471) são Hermes Trismegisto — Orfeu — Pitágoras — Filolau (Divi Platonis nostri praeceptor, "preceptor de nosso divino Platão") — Platão — os neopitagóricos (Apolônio) — os neoplatônicos (Plotino).