Ora, as Heidelberger Akten der Von-Portheim-Stiftung, IV, publicadas em obra por Julius Ruska: Tabula Smaragdina. Ein Beitrag zur Geschichte der hermetischen Literatur (um exemplar desse livro, publicado por volta de 1932, encontra-se na biblioteca documentária do Nederlandsch Tijdschrift voor Geneeskunde, "Jornal neerlandês de medicina", em Amsterdão). Esse livro traz a descrição do "manuscrito" de G. Bergsträsser na língua árabe, manuscrito que compreende 97 folhas, das quais 25 folhas contêm a história de José, 40 trazem um tratado químico que inclui, a título de resumo, o texto da Tábua de Esmeralda (em árabe, como o conjunto do manuscrito), seguido de 32 folhas consagradas a outros assuntos, especialmente as informações sobre o calendário do profeta Daniel. O tratado químico teria sido escrito por um sacerdote chamado Sagijus de Nabulus, e seu conteúdo proviria do Mestre Balinás, o Sábio (nome árabe de Apolônio de Tiana), que o teria descoberto num cômodo subterrâneo. Eis a tradução do texto árabe da Tábua de Esmeralda como se encontra no manuscrito de Bergstrásser (Ruska, pp. 113-114):
Eis o que o sacerdote Sagijus de Nabulus ditou sobre a entrada de Balinas no quarto escuro:
Depois de minha entrada no quarto em que se encontrava o Talismã, cheguei perto de um velho assentado num trono de ouro,
O qual tinha em uma de suas mãos uma tábua de esmeralda. Nessa tábua lia-se escrito em siríaco, a língua primordial:
1 —. Aqui (está) a explicação verdadeira, da qual não se pode duvidar.
2 —. Ela diz: O que é superior (provém) do que ê inferior, e o que é inferior (provém) do que é superior, obra das maravilhas da Unidade.
3 —. E foi por um só procedimento que as coisas se formaram desse princípio primeiro. Como a sua obra é maravilhosa! Ele é o senhor (o Princípio) do mundo e seu conservador.
4 —. Seu pai é o Sol, e sua mãe, a Lua; o vento o trouxe em seu ventre, e a terra o alimentou.
5 —. Ele é o pai dos Talismãs e o Preservador dos milagres.
6 —. As suas virtudes são perfeitas e as suas luzes (verificadas?).
7 —. Um fogo que se torna terra. Tu separarás a terra do fogo; então o subtil será mais inerente do que o espesso, com suavidade e sabedoria.
8 —. Ele sobe da terra para o céu, a fim de se apropriar das luzes do alto e desce (de novo) para a terra, reunindo em si a virtude do superior e do inferior, porque a luz das luzes (está) nele, de modo que a escuridão se afasta dele.
9 —. (Ele é) a força de toda força, vence toda coisa sutil e penetra toda coisa sólida.
10 —. A estrutura do pequeno mundo (microcosmo) corresponde à estrutura do grande mundo (macrocosmo).
11 —. Este é o modo pelo qual procedem os sábios.
12 —. E foi a isso que também Hermes se aplicou, ele, que possui o tríplice dom da Sabedoria.
13 —. E este é seu último livro, o qual ele ocultou no quarto".
Julius Ruska não é o único a ter o texto árabe da Tábua de Esmeralda. E. J. Holmyard, autor de Alchemy (Pélican, Londres, 1957), afirma que encontrou um texto abreviado da Tábua de Esmeralda em árabe. Esse texto faz parte do Second Livre de l'Élément du Fondement de Jabir ou Geber (722-815). Antes dessa descoberta, feita em 1923, só se conhecia o texto latino medieval. Posteriormente foi descoberta por Ruska outra variante em árabe, em livro intitulado Le secret de la Création, atribuído a Apolônio. Jabir (ou Geber), ao publicar o texto da Tábua, declara que cita Apolônio. Ora, Kraus demonstrou que Le Secret de la Création foi escrito, pelo menos em sua redação final, durante o califado de Al-Ma'mun (813-833) e que tem paralelos com um livro escrito na mesma época por Job de Edessa, erudito, cujas traduções do siríaco para o árabe mereceram o louvor de um crítico tão severo como Hunain Ibn Ishaq. É provável, portanto, que, ainda que Job não tenha escrito Le Secret de la Création, tanto ele como o autor desse tratado tenham usado fontes mais antigas e idênticas. Kraus mostrou que uma dessas fontes são os escritos de Nemesius, bispo de Emesa (Homs) na Síria, na segunda metade do século IV. Nemésio escreveu em grego, mas seu livro Sobre a natureza do homem não traz a Tábua. Resumindo, podemos concluir que a mais antiga forma conhecida em árabe da Tábua é talvez uma tradução do siríaco, mas que ela pode também ter por base um original grego. Esse original remontaria ao tempo de Apolônio? Essa questão é insolúvel (op. cit, pp. 78, 79, 96, 97).