Leo Schaya: HOMEM E ABSOLUTO SEGUNDO A CABALA
O Amor de Deus que, em sua operação universal, é ao mesmo tempo a irradiação e a atração de Sua Beleza, cria o mundo segundo o princípio da Harmonia de Suas Possibilidades causais. Esta Harmonia, Tiphereth, determina a Forma principial ou ideal do Cosmo. É uma Forma puramente espiritual e supraformal: o «Mundo da Criação» prototípico (Olam ha-Beriyah), que se pode chamar a «Esfera cujo Centro está por toda parte e cuja circunferência não está em nenhuma parte»1 , posto que é habitado pela Shekinah, a Omnipresença infinita, única. Quanto à forma esférica, esta exprime a Plenitude e a Harmonia, que caracterizam a Bondade; mas é preciso adicionar que se trata aí mais do que uma simples esfera que, ela, não tem senão um único centro, conforme à ordem espacial, enquanto no seio da Forma principial, cada «ponto» que é agrupado ao redor do Centro, é simultaneamente e misteriosamente este Centro mesmo: aí também não há senão um centro único, mas cada «ponto» aí é um Arquétipo espiritual, um Aspecto imanente de Deus que não faz senão um com Sua Omnipresença; e em cada «centro», idêntico ao Centro divino, todos os «centros» se refletem em suas «cores» particulares: há interpenetração, fusão sem confusão, e omnipresença de todos os Arquétipos. Desta Plenitude ou Beleza imanente de Uno procedem todas as formas criadas, em sua beleza e sua perfeição primeiras.
Uma coisa é bela e perfeita quando manifesta, sob tal ou tal modo harmonioso, a plenitude das possibilidades de sua espécie, e quando esta espécie revela, de uma maneira ou de outra, um Arquétipo espiritual ou Aspecto divino em sua pureza. Ora, posto que todo Aspecto do Uno contém e exprime, a sua maneira, todos Seus Aspectos, cada manifestação perfeita de uma espécie «deiforme» revela, à luz de sua qualidade própria, a Plenitude das Possibilidades causais: a Beleza universal e divina. Uma coisa é feia, se ela não participa senão imperfeitamente a seu Arquétipo puro, ou se sua espécie não é conforme à Perfeição divina. Sobre o plano do homem — criatura mais complexa, em sua constituição e suas transformações — esta verdade deve ser compreendida sob sua aplicação particular, quanto aos aspectos respectivos da beleza «interior» e «exterior». Nas espécies humanas, o aspecto exterior revela a qualidade interior do ser ou da coisa, e isto em razão de seu caráter passivo que não permite dualismo existencial. Na espécie humana, dotada de razão, de vontade livre e de uma relação consciente com o Espírito divino, o aspecto exterior ou corporal de um ser pode exprimir tal resultado estático de seu desenvolvimento pessoal, realizado no curso de «vidas anteriores», enquanto o aspecto interior — psíquico ou espiritual — pode se transformar, em um sentido ou outro, no curso desta vida, seja pelas virtudes e o conhecimento, seja ao contrário pela ausência. Com efeito, um homem pode nascer feio, do ponto de vista físico, enquanto sua alma pode desdobrar, durante esta vida, uma beleza ética e espiritual; e neste caso, é possível que sua beleza interior eclipse, em grande parte, sua feiura corporal. Ao contrário, há homens de beleza exterior — resultante de «méritos anteriores» — e cuja alma se corrompe nesta vida; então é a feiura interior que se expressa finalmente e torna a beleza corporal mais ou menos ilusória.
O ser humano é verdadeiramente belo, quando nele a generosidade da Gratia se exprime pela medida harmoniosa das formas; quando a obscuridade de seus limites é apagado pela Luz do infinito que jorra de seu profundo; quando o Espírito penetra sua substância e revela, de uma maneira ou de outra, a Plenitude beatífica do Uno.
NOTAS: