Do terceiro ao nono dia: a travessia dos pedágios aéreos
1. A elevação da alma aos Ceús.
O terceiro dia após a morte constitui uma transição e inaugura uma nova etapa, particularmente importante. Eis porque a Igreja celebra neste terceiro dia um ofício para o defunto.
Segundo antiga tradição, durante os três dias que seguem a morte, na maior parte dos casos a alma permanece na terra. Segundo esta mesma tradição, no terceiro dia, ela deixa a terra e eleva-se para o céu por anjos.
Encontra-se mencionado na Escritura o fato que a alma é conduzida por anjos: o Cristo Ele mesmo diz, na parábola do Rico e Lazaro: «O pobre morreu e foi conduzido pelos anjos ao seio de Abraão».
A elevação ao céu é afirmada por numerosos textos patrísticos.
O ensinamento que este fenômeno se produz no terceiro dia se encontra menos frequentemente mas suficientemente atestado. Por exemplo, em texto atribuído a Macário de Alexandria, que põe em relação simbólica este terceiro dia em que a alma é elevada aos céus com o terceiro dia em que o Cristo se elevou, aquele da Ressurreição.
Os anjos que acompanham e sustentam a alma em sua elevação aos céus são aqueles que vieram junto ao em vias de morrer para recolher sua alma e que o acompanharam durante os três dias em que permaneceu na terra.
Vimos que estes anjos são mais ou menos numerosos. Eis porque os Padres deles falam frequentemente no plural e sem precisar o número.
O Anjo da Guarda está presente ao lado da alma (que agora o conhece) e ele a acompanha. Mas o papel principal corresponde a um anjo que mais particularmente encarregado da missão de conduzir a alma, e que é chamado «anjo psicopompo» ou «anjo psicagógico». É a ele que faz alusão Macrina em uma oração que dirige a Deus pouco antes de sua morte: «Ponha junto a mim um anjo luminosos que me conduza pela mão ao lugar do refrescamento, aí onde se encontra a água do repouso no seio dos santos patriarcas».
A elevação da alma aos céus pelos anjos luminosos, é evocada em numerosos textos. Em alguns dentre eles, é precisado que estes anjos são em número de dois: trata-se então do Anjo da Guarda e do anjo psicagógico.
Como se pode ver nas Vidas dos santos, é frequente que este fenômeno da elevação da alma aos céus pelos anjos seja percebido pelos discípulos próximos destes santos ou por espirituais se encontrando a certa distância. Em muitos casos no entanto, a ascensão aos céus segue imediatamente o falecimento: a etapa em que a alma passa três dias na terra concerne a maioria dos homens, mas os santos são frequentemente dispensados pela graça, dado seu perfeito desapego deste mundo e sua pressa em reunir-se ao Cristo, objeto de seu desejo.
2. A ação dos demônios para se apoderar da alma.
Como atestam numerosos textos patrísticos, quando da elevação da alma aos céus, os demônios buscam raptá-la dos anjos que dela se encarregam e a conduzi-la para baixo, ao Hades.
Alguns Padres apresentam face a face e em pé de igualdade a multidão dos anjos e a multidão de demônios prontos a se amparar da alma desde sua saída do corpo.
Alguns Padres afirmam que a alma pode então ser tomada e levada seja pelos anjos, seja pelos demônios, em função de seu estado espiritual: os poderes bons (os anjos) têm poder sobre ela em proporção a suas virtudes, os poderes maus (os demônios) têm poder sobre ela em proporção a suas paixões, a alma tendo engendrado, por sua intimidade com uns ou outros Poderes no curso de sua vida, uma espécie de comunidade de estado com eles que determina então seu devir.
Máximo o Confessor evoca o primeiro destes aspectos: «Lembremo-nos dos terrores da alma em sua saída do corpo, como vêm em seu encontro os Poderes do ar e as Forças tenebrosas, e como ela está dissociada e cortada em pedaços em proporção de sua funesta familiaridade com elas pelo jogo das paixões». Da mesma forma, Hesíquio de Batos, quando escreve: «Aquele que não anda na vigilância [...] não estará liberado das ações, das palavras e dos pensamentos maus odiados por Deus. Tais homens, quando deixarão esta vida, não passarão impunemente diante dos Príncipes do Inferno». Ou ainda Doroteo de Gaza, quando aconselha a alma insensível de «guardar o pensamento dos indubitáveis julgamentos de Deus, de se recordar que a alma sairá do corpo e encontrará os terríveis Poderes com os quais terá cometido o mal nesta curta e miserável vida». As mesmas considerações se encontram em Macário e Nicetas Stethatos.
Uma série de orações no «Ofício de intercessão à Mãe de Deus antes da separação da alma do corpo» demandam a assistência da Mãe de Deus para impedir os demônios que se apressarão então a se amparar da alma: «aqueles que conduzem ao além-túmulo me pressionam, me apressam de todos os lados; minha alma está suspensa, amedrontada, cheia de imensa agitação: venha portanto a consolar por tua visita, ó Virgem imaculada»; «seguro refúgio dos pecadores, assegure-me, Virgem pura, tua misericórdia e salva-se da mão dos demônios: ei-los, tais uma matilha de cães, que fazem círculo ao meu redor»; «como leões rugindo, os demônios me cercam: buscam me raptar, e me despedaçar cruelmente; seus dentes e suas mandíbulas, as quebre, Virgem pura, e salva-me».
3. A travessia dos pedágios aéreos ou "telonias”.
Os textos patrísticos citados anteriormente não dão uma apresentação simplificada do devir da alma, levada pelos anjos ou os demônios, segundo, por seu estado espiritual, ela esteja próxima de uns ou de outros.
Outras fontes patrísticas nos apresentam um processo detalhado e mais complexo, pondo em operação uma discussão e um combate entre os anjos e os demônios que se disputam a alma do defunto. Isso se compreende na medida que, aparte os raros casos dos santos, a maioria dos homens se situam em um estado intermediário, e podem apresentar um balanço de sua vida onde o bem e o mal se misturam em proporções variáveis. Os anjos e os demônios se disputam então para reivindicar, uns e outros, a parte que lhes cabe, os demônios buscando reter a alma, e impedir os anjos de elevá-la aos céus.
Um apoftegma relata:
Aba Teófilo dizia: «Que medo, que tremor, que angústia, conheceremos quando a alma se separar do corpo! Pois virão então sobre nós os exércitos e as Forças dos Poderes adversos, os Príncipes das trevas, a força da malícia, os principados, os Poderes e os espíritos do mal. Em uma espécie de processo, perseguem a alma, exibindo todos os pecados que cometeu, cientemente ou por ignorância, desde sua juventude até o momento que foi tomada. Se alinham portanto para acusá-la de tudo o que ela fez. Então, que tremor pensas que alma terá nesta hora até que a sentença seja pronunciada e que sua liberação venha? É essa a hora de sua angústia até que ela veja o que deve resultar para ela. E por outro lado os Poderes divinos (os anjos) se alinham face aos adversário e discorrem todas suas boas obras. Pense então em que temor e frisson a alma se mantém no meio, até que seu julgamento receba a sentença do justo Juiz.
Numerosos outros textos evocam o encontro dos demônios pela alma no curso de sua ascensão, como em Aba Isaías e em João Clímaco. A ideia mais precisa de um investigação e de uma colocação em evidência pelos demônios das más ações e das más paixões do homem é também evocada por Macário do Egito, assim como Hesíquio de Batos, e Gregório Magno.
Alguns textos patrísticos não evocam a defesa do defunto pelos anjos mas apresentam o episódio como a alma é levada a responder ela mesma diante de seus maus juízes e obrigada a garantir ela mesma sua defesa face a acusadores de má-fé, podem até acusá-la de faltas não cometidas. Assim o faz João Clímaco relatando uma visão de um certo monge lhe apresentando por antecipação o que viveria depois de sua morte (Escada VII).
Este face a face com os caluniadores espertos faz crescer evidentemente as dificuldades e os riscos da provação, e faz aparecer ainda mais indispensável uma assistência angélica e divina. João Carpatios evoca um contexto semelhante ao precedente, mas faz notar no entanto que a alma justa, sustentada por sua fé em Deus e encorajada pelos anjos que a acompanham, é finalmente mais forte que seus acusadores.
Uma tradição ortodoxa desde o século IV e que se manteve até nossos dias, fala de «telonia», palavra grega que designa os posto ou escritórios de publicanos, perceptores de impostos. Tratam-se de «alfândegas celestiais» ou «pedágios aéreos», e evoca etapas que a alma deve atravessa sucessivamente em sua ascensão. Este percurso da alma é situado por certos textos entre o terceiro e nono dia em seguida a seu falecimento. Cada posto de controle corresponde a uma paixão particular, a um tipo de má ação ou um gênero de pecado de que um certo tipo de demônio é o inspirador e que representa. Esta concepção se associa a uma identificação, muito acentuada na obra de Evágrio e retomada em seguida por toda a tradição ascética da Igreja ortodoxa, entre as paixões hierarquicamente ordenadas e demônios correspondentes. Quanto aos «escritórios de alfandegários» ou aos «pedágios», estão perfeitamente representados, na iconografia, sob a forma de uma escada com seu degraus ultrapassados sucessivamente por personagens cercados de anjos e de demônios, os primeiros puxando para cima, e os últimos para baixo.