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id da página: 1591 Frithjof Schuon – Esoterismo como Princípio e como Via – Dimensões da vocação humana Frithjof Schuon

Schuon Vocação Humana

Dimensões da vocação humana


Resumo detalhado

  • A injustiça se configura como uma provação, mas a provação em si não constitui uma injustiça, sendo as injustiças provenientes dos homens, enquanto as provações emanações de Deus, de modo que o que é mal e injustiça na esfera humana, é prova e destino na dimensão divina.
  • É permitido, ou até mesmo um dever, combater o mal que se manifesta como injustiça, mas a atitude em relação à provação e ao destino deve ser de resignação e aceitação, exigindo uma combinação dessas duas posturas, visto que toda injustiça experimentada na relação com os homens é concomitantemente uma provação concedida por Deus.
  • Na dimensão horizontal, correspondente à esfera terrena, é possível evadir-se do mal através do combate e da vitória sobre ele, mas na dimensão vertical, de natureza espiritual, a fuga é possível, senão da provação em sua essência, ao menos de sua influência opressiva, alcançada pela aceitação do mal enquanto manifestação da vontade divina e por sua subsequente transcendência interior como um jogo cósmico, tal como se pode transcender espiritualmente qualquer outra manifestação de Maya.
  • O tumulto do mundo fenomênico não penetra no Silêncio divino, que reside na profundidade do ser e onde o mundo e o ego se extinguem ou são reabsorvidos, tal como os acidentes são na substância.
  • O homem está sujeito ao dever de resignar-se perante a vontade de Deus, possuindo, no mesmo grau, o direito de superar espiritualmente o sofrimento da alma, na medida de sua capacidade, o que é inviável sem a prévia e fundamental atitude de aceitação e resignação, que são as únicas capazes de liberar integralmente a serenidade da inteligência e de tornar a alma receptiva ao socorro do Céu.
  • É concebível que Deus possa enviar sofrimentos com o propósito de aprimorar nossa percepção do valor de Sua Graça libertadora, e para que nos dediquemos com maior fervor a atender às exigências de Sua Misericórdia.
  • O indivíduo que não reconhece estar em situação de afogamento não se empenha em clamar por socorro, sendo a salvação uma função intrinsecamente ligada ao nosso apelo, e nada é, em última análise, mais reconfortante do que esse clamor de confiança ou de certeza.
  • É crucial discernir as duas dimensões mencionadas, pois o fato de Deus enviar uma provação não anula a possibilidade de que, no plano humano, esta se manifeste como uma injustiça, e o tratamento injusto por parte dos homens não impede que seja considerado justiça na perspectiva de Deus.
  • É imprescindível evitar dois equívocos: o de considerar um mal como um bem em sua própria esfera de manifestação apenas porque é enviado ou permitido por Deus, ou porque tudo se origina Dele; e o de conceber uma provação, em sua natureza intrínseca, como um mal somente porque sua forma é indesejável e causa sofrimento.
  • Seria igualmente errôneo crer que merecemos uma injustiça diretamente porque Deus a permite, pois se fosse assim, a injustiça deixaria de existir e os injustos seriam considerados justos; do mesmo modo, é incorreto presumir que não merecemos uma provação por não termos realizado nada que a tenha logicamente provocado.
  • A gênese da provação reside, em essência, na própria relatividade do indivíduo, ou seja, no fato de sermos seres contingentes ou indivíduos, não sendo necessário recorrer à teoria transmigracionista do carma (seja ele bom ou mau) para reconhecer que a contingência implica falhas, tanto na sucessão quanto na simultaneidade.
  • A possibilidade cósmica que constitui a individualidade é precisamente o que deve ser, tanto em sua limitação quanto em seu conteúdo positivo e em sua potencialidade de autotranscendência: finita e suscetível ao sofrimento em seus contornos, é infinita e impassível em sua essência, razão pela qual as provações contêm em si o potencial para a liberação.
  • As provações atuam, portanto, como mensageiras de uma liberdade que, na realidade imutável e imanente do indivíduo, jamais deixou de existir, mas que se encontra obscurecida pelas névoas da contingência mutável, com as quais a alma dotada de inteligência tem, de certa forma, a falha de se identificar.
  • É uma afirmação justa que ninguém escapa ao seu destino, mas é prudente acrescentar uma ressalva condicional, notadamente a de que a fatalidade se manifesta em graus, refletindo a natureza gradual de nossa própria essência.
  • O destino de um indivíduo é determinado pelo estrato pessoal — seja ele superior ou inferior — no qual ele se fixa ou se confina, pois cada um é o que escolhe ser e padece as consequências de sua própria natureza.
  • Em termos práticos, isso implica que o destino pode experimentar uma alteração, senão em seu estilo, ao menos em seu modo ou intensidade, em conformidade com a mudança de plano que a ascensão espiritual efetua no indivíduo, como já se encontra mencionado em uma nota de rodapé no texto original.
  • Este princípio esclarece o porquê de os Muçulmanos, embora possuam uma forte consciência da predestinação (qadar), ainda assim dirigem preces em certas ocasiões para que Deus elimine o mal registrado na tábua de seus destinos.
  • De uma maneira abrangente, seria ilógico e irracional que eles pudessem orar por qualquer coisa se não houvesse, dentro da predestinação, margens, modos ou graus de aplicação, ou seja, uma espécie de vida interna demandada pela Liberdade divina que contrapõe a cristalina e implacável rigidez do que está "escrito".
  • Este panorama também explica por que os dados astrológicos se mantêm fixos apenas na medida em que o ser humano negligencia ou se recusa a se autotranscender, sendo estas noções, talvez, de difícil apreensão para a razão, mas não mais misteriosas do que a ilimitação do espaço e do tempo, ou a singularidade empírica do nosso ego, e outros paradoxos naturais que somos compelidos a aceitar.
  • A autotranscendência representa o grande imperativo da condição humana, e há um outro que a antecede e simultaneamente a prolonga: o autodomínio.
  • O homem que se domina é caracterizado como nobre, e aquele que se autotranscende é definido como santo, assemelhando-se às duas dimensões, horizontal e vertical, aludidas ao tratar de injustiças e provações, sendo a primeira referente ao homem terreno ou exterior, e a segunda, ao homem celestial ou interior.
  • A obrigatoriedade do autodomínio, e com maior razão da autotranscendência, está intrinsecamente inscrita na inteligência e na vontade humanas, em virtude de esta inteligência ser total e esta vontade ser livre.
  • Sendo a alma humana total e livre, ela não possui outra opção positiva senão a de se dominar para que possa, então, se autotranscender.
  • A inteligência e a vontade humanas são proporcionais ao Absoluto, de tal forma que a vocação do homem é existencialmente definida por essa relação, e sem a qual o homem não seria propriamente humano.
  • A nobreza e a santidade constituem os imperativos do estado humano.
  • O homem deve exercer o autodomínio porque, sendo um centro, ele é chamado a dominar a periferia; se Deus, conforme o Livro de Gênesis, concede ao homem o domínio sobre todas as outras criaturas terrestres, isso significa que o homem, enquanto ser responsável e livre, deve prioritariamente dominar a si mesmo, dado que ele próprio possui uma periferia e um centro em sua alma.
  • Ninguém é capaz de governar outros sem antes saber governar a si mesmo.
  • O ser humano é, por definição, um cosmos completo, embora reduzido, o que é expresso pelo termo "microcosmo", e o espírito deve, portanto, exercer o domínio sobre as potências passionais da alma e manter em cheque os elementos sombrios, para que o microcosmo alcance a perfeição do macrocosmo, conforme já se encontra em uma nota de rodapé no texto original.
  • No domínio da experiência cotidiana, é inequívoco que a razão deve prevalecer sobre o sentimento e a imaginação, e que, por sua vez, deve submeter-se ao Intelecto ou à fé.
  • A fé atua como o intelecto para o indivíduo que não é metafísico, o que de maneira alguma implica sua ausência no metafísico, sendo para este o prolongamento psíquico ou a shakti (poder) do conhecimento, e não meramente um credo quia absurdum est (creio porque é absurdo), conforme já se encontra em uma nota de rodapé no texto original.
  • No entanto, o domínio sobre si também depende de uma realidade extrínseca, que é a inserção do indivíduo em uma coletividade.
  • Sendo a inteligência humana dotada da capacidade de transcendência e, por conseguinte, de objetividade, o homem supera o solipsismo animal e adquire a percepção de que não é o único a ser "eu mesmo", o que resulta, vocacionalmente ou de forma natural, na virtude da generosidade, por meio da qual o indivíduo demonstra que sua vontade é autenticamente livre.
  • A liberdade da vontade é uma função diretamente proporcional à totalidade da inteligência, o que significa que, sendo a inteligência capaz de objetividade e transcendência, a vontade é necessariamente capaz de liberdade.
  • Se a inteligência humana impõe a obrigação do autodomínio, em razão de o superior dever reger o inferior e de o espírito, em nossa essência, estar sob ameaça das paixões e dos vícios, ela exige a fortiori (com ainda mais razão) a autotranscendência.
  • Essa inteligência, conforme foi definida, reconhece inevitavelmente que o homem não possui seu fim em si mesmo, e que, consequentemente, encontra seu sentido e sua plenitude unicamente naquilo que constitui sua razão de ser.
  • A transcendência não é um mero produto de um raciocínio humano, sendo, ao contrário, evidente que o inverso é verdadeiro: se o homem é capaz de raciocinar com base nos dados da transcendência e se este raciocínio se impõe à sua mente quando esta é fiel à sua vocação, é porque a transcendência está inscrita na própria essência da inteligência humana, podendo-se afirmar que a inteligência é feita de transcendência.
  • A deiformidade humana implica que o espírito seja constituído de absoluto, que a vontade seja feita de liberdade e que a alma seja composta de generosidade.
  • Autodominar-se e autotranscender-se equivale a remover a camada de gelo ou escuridão que aprisiona a verdadeira natureza do homem.