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id da página: 6512 SABER NÃO-SABER

Saber e Não-Saber

Filosofia

Glória Ribeiro: Ensaio sobre o SERMÃO II de Mestre Eckhart, em "ENSAIOS DE FILOSOFIA"

O saber teórico é representado no sermão de Eckhart, por Maria que ao se manter parada aos pés de Jesus, "suspirava por algo sem saber o quê; e procurava algo, sem saber o quê!"

Nesta procura, neste desejo de Maria está em jogo um certo saber disto que ela busca, mas que não possui totalmente. Maria suspira por este Uno que ela sabe se encontrar aquém das coisas e do qual permanece separada. Em outra formulação: o saber teórico procura por este Uno essencial, nas imagens. Nesta procura abstrai tudo o que, nestas imagens, permanece de particular e de individuante, despojando-as de tudo o que ainda há de mutável e material. E, em assim o fazendo, este saber ainda se mantém preso às imagens e às coisas que estas representam. Ou seja, mantém-se preso à multiplicidade do devir e, desta forma, não acolhe o Uno em sua unidade. Por conseguinte, este saber não é ainda o saber verdadeiro — a união adequada entre aquele que conhece e aquilo que é conhecido — já que ainda pressupõe uma diferenciação entre estes termos, e, ao pressupô-la, corre o risco de lá (na diferenciação) se manter. E Eckhart quem nos diz:

"Ela não era ainda a verdadeira Maria (o verdadeiro saber), ela já o era segundo o nome, mas não segundo o ser (pois ela ainda se detinha), na delícia e no doce sentimento".


E este se deter de Maria (do saber) que preocupa a sua irmã Marta (o não saber): "ela temia que Maria ficasse parada neste suave sentimento, sem progresso". Ela temia que a irmã não conseguisse acolher em si o verdadeiro sentido da existência. Por isso, a dedicada Marta pede a Jesus que mande Maria sair deste seu estado contemplativo. No entanto, Deus chama a atenção da própria Marta. Consoante Eckhart, Deus, em assim o fazendo, mostra o quão desnecessária é a sua preocupação. Maria já começará a aprender a viver porque mesmo se mantendo presa às imagens das coisas, Maria sabe que estas não lhe deixam unir-se àquilo pelo que anseia. Donde ela já começará a ter o Uno, o Ser que desejava, embora não tivesse clareza de O ter, assim já era Maria (saber) pelo nome, mas ainda não O tinha perfeitamente, logo, não era Maria segundo o ser. Mas, em que consiste a sua perfeição, o seu perfazer-se? Qual o ser de Maria?

A plenitude do ser de Maria, do saber teórico, não é senão o de ser Marta, o não saber. Neste a alma prescinde de todos os meios com os quais opera e se une de forma imediata a Deus — ao Ser. Sendo que nesta união a alma torna-se semelhante a Ele. Como vimos na passagem do evangelho de S. Lucas, analisada por Eckhart, Deus — o Ser Absoluto, o Uno do qual participamos — se configura como um viajante. Como aquele que se constitui como uma errância. Deus, o Ser, permanece não como algo estático, mas extático; pura dinâmica de chegar e de partir — de vir a ser e deixar de ser. Assim compreendido, Deus expressa a dinâmica onde o tempo se constitui. Pois bem, é a esta dinâmica que a alma, em seu ser mais íntimo, se une numa semelhança. Ou seja, é esta dinâmica que dá medida, que dimensiona a alma na sua intimidade.

Assim, Marta é aquela que, devido a sua idade de matrona, sabe como orientar-se de modo a bem servir ao Senhor. A idade de Marta expressa a sua experiência no tempo, sendo esta experiência o que constitui o seu saber que não sabe. Como vimos, o tempo é o modo como Deus se concretiza. Marta sabe, sem saber, que mais importante do que contemplar a Deus, do que se quedar aos seus pés, é se empenhar no tempo, na existência — porque é justamente aí que nos é dado participar do seu Ser eterno: "Deus nos colocou no tempo para que, mediante ocupação sensata durante o nosso tempo, nos tornemos mais semelhantes a Ele". Por isso Marta abandona Deus — que se lhe mostra na imagem de Jesus — para melhor servi-lo. Abandona Deus, isto é, abandona qualquer tentativa de apreendê-lo teoricamente, para poder ganhá-lo.

Pois bem, Marta, o não saber, diz o ser mais próprio de Maria, do saber teórico. E somente desde a experiência do tempo, da existência que se pode dar qualquer teoria; que se torna possível o saborear da diferença onde se busca voltar à unidade. É Eckhart quem nos diz: "...também Maria tinha sido uma tal Marta antes de ser uma tal Maria". E nós, por nosso lado, diremos: o destino de uma tal Maria é o de ser novamente uma tal Marta; é o de retornar à experiência da unidade de Deus (do Ser). É (re)começar a aprender a viver. A excelência de Marta sobre Maria se encontra, precisamente, no fato de Marta ser o princípio — a coincidência do começo e do fim — de Maria.