Relato do Arcanjo Empurpurado
Henry Corbin: Tradução do persa
O Conhecimento de que se trata não será, portanto, nunca um conhecimento teórico, mas por essência um conhecimento salvífico, o que desde sempre tem sido o sentido dado à palavra gnosis.
Ora, essa passagem se cumpre sob a condução de um guia sobrenatural que é o iniciador pessoal do «peregrino» que é o pesquisador. Esse guia não é outro senão o Anjo designado no primeiro dos relatos agrupados aqui na segunda parte como «o Arcanjo purpúreo». Ele nos terá sido apresentado já nos tratados filosóficos da primeira parte, e não cessará de estar presente ao longo dos relatos místicos da segunda parte. Essa presença sempre recorrente manifesta a necessária função mediadora do Anjo na espiritualidade ishraqi: função teofânica, função iniciática, função salvífica. Sohravardi considerará que é sob a inspiração direta deste Anjo-Espírito Santo que ele concebeu e redigiu o seu grande «Livro da Teosofia oriental». Um comentador ishraqi nos ensinará (cf. Tratado X) que se o Anjo é sempre designado como o sábio guia (em persa o pir, em árabe o shaykh), é porque os Ishraqiyun têm o Anjo diretamente como guia e mestre espiritual, sem ter necessidade de intermediário nem de um shaykh entre os homens. Daí o título mesmo sob o qual se reuniram aqui quinze tratados do Shaykh al-Ishraq.
Haverá um lugar para explicar mais adiante as razões e o sentido desta cor purpúrea sob a qual o Anjo se manifesta ao visionário no início do relato que tem por título «o Arcanjo purpúreo» (cf. segunda parte, Tratado VI, apresentação e notas). O que importa anunciar aqui, são o sentido e a função da pessoa do Anjo ao longo dos tratados e relatos traduzidos no presente compêndio. O «Arcanjo purpúreo» é também aquele que designam muitas outras denominações tradicionais em Sohravardi. Ele é a décima das Inteligências hierárquicas do pleroma, aquela que os filósofos designam como a «Inteligência agente». Ele é o Anjo da raça humana (Rabb al-nu' al-insani). Ele é o Anjo que o Corão designa como Gabriel, o Espírito Santo (Ruh al-Qods). Sohravardi o designa ainda como «Sabedoria eterna» (Javid-Kharad, Sophia aeterna), e finalmente o identifica com o Anjo que, no Avestá, leva o nome de Sraosha. Este Anjo-Espírito Santo é ao mesmo tempo o anjo do Conhecimento e da Revelação. Aqueles que no Ocidente creram poder falar de uma «racionalização» do Espírito em consequência da identificação entre o Espírito Santo da Revelação e a Inteligência agente dos filósofos, simplesmente passaram ao lado do que faz a essência da espiritualidade ishraqi: porque elas têm a mesma fonte, sabedoria e profecia são indissociáveis, da mesma forma que filosofia e mística são indissociáveis. As «encontros com o Anjo» dos quais se lerá mais adiante o relato não têm, portanto, nada a ver com o ponto de vista de um racionalismo filosófico ou teológico.
Ver-se-á que este Anjo é o parente celestial, o «pai» da raça humana, o Noûs patrikos da humanidade, em terminologia neoplatônica. O «Livro dos Templos da Luz» mostrará esta relação invocando em apoio certos textos do Evangelho de João. Esse joanismo ishraqi, que confirma a menção do Paracleto, é uma característica extraordinária. O papel do Anjo se afirma nos relatos onde ele é ora o guia, ora aquele que acolhe o peregrino místico na saída da via, da mesma forma que nas invocações que o «Livro de horas» lhe dirige.