VIDE: NASCIMENTO
Diz Santo Agostinho:
“Do que adiantaria que este nascimento ocorresse sempre se não fosse para ser realizado dentro de mim? Que isto ocorra dentro de mim é o que me interessa”.
Segundo Alain de Libera, toda a predicação alemã de Eckhart visa compartilhar este mistério: que o Verbo se fez carne, que assumiu a natureza humana com vistas a "minha" deificação: "Deve-se notar que (...) o primeiro fruto da Encarnação do Verbo, que é o Filho de Deus por natureza, é que sejamos filhos de Deus por adoção. Pois seria de pouco valor que o Verbo se tivesse feito carne para o homem no Cristo — supondo que fosse separado de mim — se não se fizesse também carne em mim pessoalmente, a fim de que eu também seja filho de Deus" (Comm. Jn, n.117). É a profundeza e a natureza mesma da relação entre a kenosis divina e a exaltação do homem que Mestre Eckhart se esforça por encontrar não somente no momento da eucaristia, mas bem em cada instante, onde, despojado dele mesmo e de tudo, o homem se faz o lugar de Deus, "abismo invocando o abismo", centro apelando o centro — quando, no absoluto repouso da alma enterrada em Deus, Deus, descendo em seu próprio coração e desprendido de tudo que não é ele, nasce Ele mesmo dEle mesmo nEle mesmo: "A alma dá a nascer dela mesma Deus a partir de Deus em Deus; ela dá a nascer verdadeiramente a partir dela mesma; ela faz isso a fim de dar a nascer Deus a partir dela mesma, aí onde ela tem a cor de Deus; aí ela é uma imagem de Deus" SERMÃO XLIII.
Johannes Tauler: SERMON POUR LA FÊTE DE NOÉL