René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973
P. BARBANEGRA. — Falastes-nos um dia do rei e de sua função, de sua capacidade de englobar nas sociedades tradicionais. Poderíeis repetir essas explicações? Como e por que ocorreu a separação dos poderes? Nossa sociedade adoeceu por causa dessa separação, que teria instaurado o caos?
P. LAVASTINE. — O epítome encontra-se no rosto. A sagração será a imposição de um rosto sobre o corpo social — um corpo social até então sem rosto. A administração dos Kshatriyas existia, mas não tinha rosto. Alguém virá ser esse rosto, e o seu rosto será feito da parte branca, “sáttvica”, dos Kshatriyas, dos Vaishyas e até dos Shudras. Pois é somente no sattva — lembrai-vos dos três gunas: tamas, rajas, sattva — que pode descer o que está além.
Ramana Maharshi, que foi um dos santos mais autênticos da Índia contemporânea, gostava de contar uma velha história tradicional ensinada às crianças: a dos Dasa Mudaha, os dez idiotas. Dez idiotas partem em peregrinação e encontram um rio em cheia. Procuram o vau, mas mesmo ali a corrente é forte e profunda. Quando chegam à outra margem, decidem contar-se para ver se todos atravessaram. Contam apenas nove. Cada um, por sua vez, conta — e sempre nove, porque todos esquecem de contar a si mesmos. Concluem, então, que um deles se afogou. Erguem um cenotáfio e começam a celebrar o ofício fúnebre pelo décimo homem. Nisso chega um sábio, que os interroga sobre o defunto invisível; ele os conta — e constata que são dez.
Essa história, de aparência ingênua, era muito estimada — e com razão profunda — por Ramana Maharshi, que queria dizer com isso: há em nós um homem essencial, o Testemunho, aquele que vê em todas as coisas, mas que esquecemos sempre de levar em conta. Eu vejo alguém — e esqueço aquele que vê. Assim, na medida em que o homem se identifica com aquilo que vê, ele se esquece de si mesmo.
O rei é, essencialmente, definido nas tradições iraniana, indo-europeia e hindu como o “décimo homem”, sendo os nove uma combinação de três vezes três. O homem é tradicionalmente tríplice: céu, atmosfera e terra. O céu é representado pela abóbada craniana; a atmosfera, pelo peito — região das tempestades; e a terra, pelo ventre. Há em nós o ventre, o peito e a cabeça, assim como há a terra, a atmosfera e o céu no cosmos — daí a ideia de microcosmo e macrocosmo.
O mundo terrestre é também dividido em três, da mesma forma: há uma parte elevada e consciente do ventre — com meu instinto, posso ter uma inteligência à qual minha cabeça não tem acesso. Assim, há uma parte nobre, sáttvica, do ventre; do mesmo modo, existem sentimentos nobres, passionais e vis, tamásicos. Do mesmo modo ainda, há uma parte mecânica e inferior do pensamento, uma parte emocional e, por fim, o pensamento puro — correspondente ao azul de um céu sem nuvens.
Quando um homem consegue se manter na região superior dessas três partes, esses três elementos se reúnem num centro: pode haver harmonia entre o pensamento, o coração e o corpo, desde que o pensamento seja o mais elevado, o sentimento o mais nobre e o instinto o mais justo. Aí estão os devas. Pela base, a reconstrução do homem é impossível — aí estão os asuras.
Retorna-se sempre à mesma ideia: os devas se reúnem facilmente em um único deva, Indra, o rei dos deuses. Não há rei dos asuras; cada asura age por conta própria, é ultraindividualista. Os asuras correspondem à parte inferior de cada centro. Pode haver asuras intelectuais, emocionais ou instintivos. A melhor tradução de Asura seria “os intoxicados pela vida”. Asu é a vida, a força suprema, nada há além.
O rei situa-se essencialmente como o “reunidor”. Pode-se dizer que sua fórmula é a do Cristo: Sint unum sicut et nos — “Que sejam um, como nós somos Um.”
Indra tornou-se rei dos deuses porque foi o primeiro a conhecer o Brahman; tornou-se o chefe ritual. O primeiro que viu o Princípio recebeu a realeza. Portanto, não pode haver realeza se ela não for manifestação de um princípio espiritual — eis a lição de todas as doutrinas tradicionais, e o que lhes dá atualidade, pois torna-se cada vez mais evidente, como já dizia Platão, que jamais haverá ordem na cidade enquanto os reis não forem espirituais — ou enquanto os espirituais não tiverem o reino.
Na tradição chinesa, diz-se que, se o imperador é virtuoso, através dele se expressa o Tao. O termo que traduzimos como “virtude” é o chinês Te. Tao te king significa “O Tao e sua virtude”. Essa virtude é mágica por excelência. Se o Tao está presente, dele emana uma força, sem agir — o rei não age; é através dele que passa o Tao, sinônimo do Rita hindu, a ordem do mundo.
O divino só pode descer em nós na parte intelectualmente pura — o que coincide com o pensamento de Guénon.
J.-P. LAURANT. — Para relacionar o que dissestes com Guénon, seria preciso precisar o sentido que Guénon deu a Manas.
P. LAVASTINE. — Sim, mas não devemos esquecer que há dois manas: o puro e o impuro. É impuro quando se identifica às coisas, quando é escravo das coisas; é puro quando se separa delas. Mas aí reside o perigo de um ultraspiritualismo: esquecer que o espírito precisa da matéria para nela imprimir sua forma — e assim tornar-se ele mesmo.