R. Kuntzman e J.-D. Dubois, Nag Hammadi
A Antiguidade conservou poucos traços escritos das comunidades gnósticas. Até os séculos XVIII e XIX, só encontrávamos alguns traços da gnose antiga nos primeiros escritos cristãos (Evangelho de João; epístolas a Timóteo e Tito; 2a epístola de Pedro; Inácio de Antioquia, por volta de 110; Hermas, por volta de 140) ou em citações de obras gnósticas nos textos dos Padres da Igreja. Desse modo, Clemente de Alexandria (fim do século II e começo do século III) conservou Extratos de Teodoto (editados em francês por F. Sagnard, in Sources Chrétiennes, n. 23, Paris, 1970, reimpressão); foi assim que Orígenes retomou, para refutá-las, numerosas passagens do Comentário ao 4o Evangelho, do gnóstico Heráclio, em seu próprio Comentário sobre João (editado por C. Blanc, in Sources Chrétiennes, n. 120, 157, 222, 290, Paris, 1966-1982); ou então Epifânio, bispo de Salamina, que cita a carta do gnóstico Ptolomeu Epístola a Flora (editado por Gilles Quispel, in Sources Chrétiennes, n. 24bis, Paris, 1966).
Poderíamos citar ainda extratos de obras de filósofos como Celso (por volta de 170), Plotino e Porfírio (no fim do século II) ou de teólogos cristãos como Clemente de Alexandria (cf. vários volumes de Sources Chrétiennes: "Le Pédagogue", n. 70, 108 e 158; "Le Protreptique", n. 2; "Stromates", n. 30, 38, 278-279) ou o monge Evágrio Pôntico (Sources Chrétiennes, n. 170-171, e Patrologie Orientale, n. 28, p. 1, Turnhout, 1958), que viveu na segunda metade do século IV. Entretanto, a maior parte da documentação antiga sobre a gnose remonta a fontes indiretas, sobretudo à refutação dos gnósticos pelos Padres da Igreja. É conhecida a existência dessas refutações: hoje, algumas delas encontram-se perdidas, como o Sinagma, de Justino Mártir (meados do século II), ou a refutação de Egesipo século II). As principais refutações aos gnósticos provêm de Ireneu de Lião por volta de 185), em Contra as Heresias (cf. a tradução francesa, Contre les Hérésies, Cerf, Paris, 1984), de escrito atribuído a Hipólito, o Elenchos (ou Refutação, depois do ano de 222), e de Epifânio de Salamina, o Panarion, ou "caixa de remédios contra as heresias" (por volta de 375), do qual uma parte referente aos gnósticos foi traduzida em francês por Michel Tardieu (in Tel Quel, n. 88, 1981, pp. 64-81, com comentário a pp. 81-91). Algumas páginas dessas refutações contêm citações ou paráfrases fiéis dos sistemas gnósticos. Mas o fato de que as gnoses antigas tenham sido tratadas sobretudo pelos Padres da Igreja explica por que elas vinham sendo consideradas, pelo menos até o século XIX, como heresias cristãs, contaminadas por sistemas filosóficos e astrológicos.