KINGSLEY, Peter. Reality. Inverness, Calif: Golden Sufi Center, 2008
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A Reabilitação Histórica dos Foceenses e a Figura de Píteas
- As viagens dos foceenses, outrora consideradas incômodas, deixaram de ser um problema na contemporaneidade, graças ao progresso que sanou tais questões.
- Embora os historiadores persistam em divergir sobre pormenores, os fundamentos acerca das viagens foceenses se encontram plenamente estabelecidos.
- O processo de reabilitação histórica iniciou-se no século XVI, impulsionado pelas descobertas de novos exploradores como Colombo, o que compeliu os eruditos a admitirem a veracidade dos relatos foceenses.
- Foi necessário um intervalo de dois mil anos para que se alcançasse o consenso geral de que os foceenses não eram embusteiros.
- Reparações completas foram efetuadas, com a restauração da reputação de Píteas e a sua elevação a herói nacional e cultural por diversos países.
- No entusiasmo da reabilitação, a essência da realidade das suas experiências se perdeu, substituída por uma representação grosseira e artificial.
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A Natureza da Jornada de Píteas para Além do Comércio e da Ciência
- Outrora, a rejeição dos feitos foceenses era explícita, enquanto a aceitação, tal como os índios norte-americanos compreenderam, pode ocultar uma aniquilação mais amarga.
- Ao serem os seus feitos reconhecidos, impôs-se a necessidade de estabelecer limites e termos claros para a sua compreensão, circunscritos a motivações comerciais ou científicas.
- A crítica à perpetuação do debate estéril sobre a primazia do motivo científico ou comercial na jornada de Píteas, sem se questionar a validade dos próprios termos do debate.
- A concepção moderna de ciência era inexistente na Antiguidade, período em que ciência e religião coexistiam numa união indissociável que confunde a mentalidade contemporânea.
- Píteas, ao dirigir-se ao “mar sólido”, seguiu rotas comerciais celtas estabelecidas até às minas de estanho no sul de Inglaterra, mas que este não era o seu objetivo final, pois prosseguiu viagem.
- Pormenor, peculiar para os historiadores, de que Píteas percorreu grandes distâncias a pé, pormenor este que é significativo e não deve ser ignorado.
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A Jornada como Imitação Heróica e a Conexão com o Divino
- A história dos foceenses estava intrinsecamente ligada a heróis como Heracles, seres que alargavam os limites do possível e ligavam o humano ao divino.
- A referência a Parmenides e ao seu professor, que foram tratados como heróis em Velia após a sua morte.
- As viagens foceenses estavam igualmente ligadas a heróis, particularmente a Heracles, arquétipo do colonizador e explorador.
- Os melhores feitos de Heracles, do ponto de vista humano, foram as suas viagens de descoberta, pois “perscrutou” as águas e “tornou a terra conhecida”.
- A imitação de Heracles outrora foi tão significativa quanto a imitação de Cristo viria a ser, e que Píteas, ao viajar para além dos Pilares de Hércules a pé e por mar, imitava o mais perfeito dos heróis gregos.
- Ao fazê-lo, Píteas não apenas imitava, mas superava Heracles, proeza que apenas um verdadeiro foceense ousaria realizar.
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A Expedição de Píteas ao Norte: Avalon, Âmbar e o Reino de Apolo
- A descrição da rota circular de Píteas, que rumou não apenas a norte e a sul, mas também a leste.
- Sua chegada às regiões onde o Mar do Norte se encontra com o Báltico, na Escandinávia, e a menção a uma ilha central para o comércio de âmbar.
- Para os povos germânicos locais, tal ilha era rodeada de tabus, um lugar de reis míticos, campo da imortalidade e terra dos mortos.
- A palavra grega para âmbar significava “a resplandecente”, sendo considerada a substância do sol, transportada do Báltico pela “via sagrada” consagrada a Apolo.
- O âmbar era sagrado para Apolo por provir da sua casa no extremo norte, Hiperbórea, o mundo oculto atrás do vento norte.
- Hiperbórea como o local para onde o sol se dirige todas as noites no seu carro, estando ligado às Filhas do Sol.
- Píteas registrou o nome dado pelos povos locais à ilha do âmbar: Avalon.
- Muito depois, o nome Avalon foi transferido para Glastonbury, no sul de Inglaterra, famosa como o local para onde o Rei Artur foi levado após a morte.
- Análise etimológica que demonstra que “glas” ou “glez”, nas antigas línguas escandinavas, significa “a resplandecente”, termo que, antes de designar o vidro, se referia ao âmbar.
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A Chegada de Píteas aos Confins do Cosmos: O Limite da Existência
- Píteas, sendo foceense, prosseguiu para norte além de Avalon.
- Foi conduzido por guias e mostrado o local onde o sol vai dormir todas as noites.
- Para além do mundo Hiperbóreo de Apolo, estendiam-se os domínios da Noite, para onde o sol regressa para repousar.
- Lugar lendário como o ponto do lado oposto do oceano onde o cosmos termina e a existência conhecida se funde com o mundo inferior.
- Apolo e as Filhas do Sol estavam naturalmente ligados ao mundo inferior e às Mansões da Noite, local onde os opostos como noite e dia, brilho e escuridão, vida e morte, colapsam e se tornam um.
- O testemunho ocular de Píteas sobre este local, que descreveu como “o pulmão do mar”, um caos primordial de elementos indistintos, “nem transitável nem navegável”.
- Para os gregos, um local simultaneamente intransitável e innavegável representava o limite final da existência humana, a barreira última que divide o nosso mundo do além.
- A declaração crucial de Píteas: ter chegado ao “desmos de tudo, aos peirata da existência” – ao grilho e vínculo de tudo o que existe.
- Duplo significado de “peirata” como “limite” e “vínculo”, indicando que Píteas aludia a mais do que um simples fim de viagem.
- A interpretação, à luz da mitologia grega, de que Píteas tocou os vínculos e grilhões de toda a existência, que são o seu princípio e fim, o ponto de origem primordial junto às Mansões da Noite, onde os elementos se fundem no grande além, no abismo do Tártaro.
- Embora estes limites fossem considerados “além da compreensão do homem”, os registos históricos atestam que um único homem, Píteas, os alcançou e viu com os seus próprios olhos.
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A Jornada Circular de Parmenides: A Unidade Indissociável entre Mito, Filosofia e Ciência
- A percepção de que a investigação sobre o final do poema de Parmenides conduz de volta ao seu início, à sua jornada para encontrar a deusa.
- A crítica à tradição moderna que fragmenta o poema em três partes: mito pobre, filosofia e ciência inferior, privilegiando a filosofia e ignorando o mito.
- A menção a comentadores que, generosamente, assinalam as conexões das Filhas do Sol com a terra do âmbar de Apolo e as profundezas da Noite, mas que são ultrapassados pela tendência acadêmica de reduzir a jornada a uma alegoria.
- A refutação da interpretação alegórica que vê as Filhas do Sol como meros símbolos de “pensamentos iluminadores” e “compreensão clara”, exemplificada pela afirmação de que “qualquer resíduo de mitologia evaporou-se”.
- A denúncia da lógica circular que despoja o poema da sua mitologia e depois afirma que essa era a intenção de Parmenides.
- A crítica à negligência de pormenores como o som de flauta insistente na jornada de carro, associado a Apolo e ao sol, e particularmente à terra do âmbar de Apolo, bem como à evidência arqueológica de que Parmenides era um sacerdote de Apolo.
- A tese central de que o mito, a filosofia e a ciência são um todo indivisível no poema.
- A constatação de que o poema é não apenas uma sequência, mas um círculo, onde tudo se coaduna perfeitamente.
- A lamentação pela abordagem que, focando um ponto único na circunferência, se prende em teorias e abstrações infrutíferas, e pela satisfação das pessoas com tal pobreza interpretativa.
- A descrição do itinerário de Parmenides com as Filhas do Sol como uma jornada particular até ao local onde o sol repousa, às Mansões da Noite, ao vasto abismo do Tártaro, aos limites finais da existência, coincidindo com o itinerário básico de Píteas.
- A distinção fundamental entre a jornada exterior e física de Píteas e a jornada interior e imóvel de Parmenides.
- A explicação de que, para Parmenides, não há distinção entre interior e exterior, pois a realidade é contínua e sem costuras, sendo o que parece exterior realmente interior e vice-versa.
- A afirmação de que Píteas alcançou os vínculos da existência através do esforço físico, enquanto Parmenides, em Velia, foi ainda mais longe permanecendo fisicamente imóvel.
- A reflexão sobre a possibilidade de, durante um passeio comum, se ser levado mais longe do que qualquer humano jamais viajou, independentemente da ação física, sendo a experiência tão real que deixa marcas para a vida.
- A resposta à questão sobre a ilusão da experiência: “é claro que é – mas não mais do que qualquer outra coisa”, pois a ilusão está em todo o lado, interior e exterior, sendo crucial viajar por ela até à sua fonte.
- A advertência de que, caso contrário, as vidas serão passadas à sombra do fracasso em empreender esta jornada ou da decisão de desistir a meio do caminho.
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O Ensinamento da Deusa: A Condição para a Validade das Crenças Humanas
- A introdução ao discurso da deusa a Parmenides, no qual ela resume o que irá ensinar-lhe.
- A citação da deusa: “o que é necessário é que aprendas todas as coisas: tanto o coração inabalável da Verdade persuasiva como as opiniões dos mortais, nas quais não há nada que possa ser verazmente confiável”.
- O aparente paradoxo de a deusa exigir que ele aprenda algo tão inverídico e inútil como as opiniões humanas.
- A apresentação do famoso enigma pela deusa para justificar o seu interesse pelas opiniões humanas: “mas mesmo assim, também isto aprenderás – como as crenças baseadas na aparência deveriam ser credíveis ao viajarem por tudo o que há”.
- A referência ao carácter controverso desta passagem, considerada “o texto mais controverso” de todo o poema.
- A crítica à controvérsia acadêmica como um jogo elaborado de amarrar a mente em nós sobre o nada.
- A defesa de que o significado da passagem é transparente e direto: a deusa explicará como as crenças, paradoxalmente, podem adquirir credibilidade se cumprirem uma condição específica.
- A identificação da condição: as crenças devem ser capazes de “viajar por tudo o que há, até ao fim”.
- A análise da palavra “peran” (viajar, atravessar), relacionada com “peirata” (limites, vínculos), significando atravessar completamente algo até chegar ao outro lado, ao limite mais distante.
- A interpretação de que Parmenides afirma que as opiniões humanas podem possuir certa validade desde que alcancem o limite último deste mundo de aparências, que toquem os “peirata”, os limites últimos da existência.
- A evocação do significado cultural para os gregos: “peran” descrevia a viagem através do grande oceano até aos “peirata” do universo, a tarefa do herói que toca a fronteira entre o humano e o divino, o reino de Perséfone, e, mais tipicamente, a rota diária do sol até ao outro lado do oceano, às Mansões da Noite.
- A identificação de “atravessar toda a existência e alcançar o seu limite mais distante” como a marca de um verdadeiro foceense, realizada por Píteas e por Parmenides.
- A observação sobre a situação única de Parmenides: a deusa, ao afirmar que as crenças só se tornam credíveis ao alcançarem os limites da existência, descreve a jornada que ele próprio acabou de realizar, apontando para o local distante onde ele já se encontra.
- A constatação de que o seu ensino forma, assim, um círculo perfeito, regressando ao ponto de partida.
- A análise do humor da deusa, que inverte o ponto de vista grego convencional: as crenças humanas não são credíveis perto de casa e incríveis nos limites do universo, mas sim incríveis em si mesmas e só credíveis quando alcançam o limite da existência.
- A interpretação da mensagem divina: “a menos que cada jornada que façamos nos coloque frente a frente com ela, não estamos a ir a lugar nenhum. A nossa existência é inacreditável. E, em última instância, a menos que encontremos a deusa da morte a cada passo que damos, estamos totalmente perdidos”.
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A Prática de “Peran”: Atravessar a Ilusão até ao Fim
- A exposição de que a ação de “peran” exigia mais do que determinação; requeria “metis” – astúcia, alerta, competência na navegação e capacidade de seguir sinais subtis.
- A ênfase na necessidade de um foco tremendo, uma energia de concentração que resiste à tentação de parar a meio caminho.
- A ligação entre “peran” e o seu oposto, “aporia” ou “impasse”, resultante de hesitar, duvidar sem coragem e questionar a possibilidade de ir até ao fim sem o fazer.
- A afirmação de que a situação com Parmenides é especial, sendo a jornada de Píteas até ao Círculo Polar Ártico “brincadeira de criança” em comparação.
- A explicação de que Parmenides espera que viajemos “para dentro e através de uma ilusão – e por todo o caminho através dela, até ao fim”.
- A elucidação do que isso significa: “beber esta decepção em que vivemos até às fezes”, sem paragens a meio caminho.
- A crítica ao caminho do covarde: perceber que o mundo é uma ilusão e depois vacilar na sua margem ou tentar afastar-se dela na esperança de encontrar a realidade noutro lugar, criando dualidades e conflitos.
- A descrição da dificuldade de “ir até ao fim através daquilo que se sabe ser uma ilusão e não ficar preso nela”, exigindo mais “metis” do que um humano poderia encontrar por si mesmo.
- A advertência sobre a armadilha de confundir crenças com conhecimento.
- A distinção crucial entre “empurrar para trás os limites do conhecimento” (expandindo a ilusão) e “chegar às bordas do conhecimento” (tocando a corda do carrasco que nos prende).
- A afirmação de que o que Parmenides descreve é a necessidade urgente de “chegar aos limites mais distantes de tudo o que pensamos saber sem acabar preso dentro disso”.
- A constatação de que isto não é abstracto, mas real, e que tentar compreendê-lo racionalmente imediatamente o arrasta para dentro dos limites do nosso conhecimento imaginado.
- A defesa de que este limite, embora elusivo, é o rochedo da nossa existência.
- A afirmação de que “para ir até ao fim através de tudo o que há”, é necessária uma inocência e simplicidade totais, pois o conhecimento tem os seus limites últimos, tal como o caminho da deusa tem o seu objetivo final.
- A crítica à nossa habituação a inquéritos infinitos, onde o fim de uma busca é apenas o início de outra.
- A caracterização da deusa como aquela que cumpre a sua promessa, oferecendo um caminho que nos leva até ao fim, até ao limite último de nós mesmos e de tudo o que há.
- A conclusão de que o objetivo deste caminho é “aqui mesmo: na imobilidade onde já estamos e sempre estivemos”.
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A Realidade como Vínculo e a Condição Humana de “Amechania”
- A constatação do regresso ao tema central dos vínculos (“bonds”).
- A observação de que Parmenides expõe os elementos básicos do seu ensino e espera que façamos as ligações naturais e tiremos as conclusões inevitáveis, confiando na inteligência do leitor.
- A descrição da linguagem obsessiva de Parmenides sobre grilhões e vínculos que rodeiam absolutamente tudo, mantendo a realidade firme numa prisão circular.
- A crítica às gerações posteriores de pensadores que interpretaram esta imagem como meramente simbólica da lógica inflexível ou como linguagem floreada.
- A defesa de que a imagem tem um significado, uma vida e uma lógica interna próprios.
- A tese de que o ensino de Parmenides sobre a realidade e a decepção é uma questão de praticalidades, não de teorias.
- A afirmação de que a realidade vinculada que ele descreve não é uma construção intelectual, mas a realidade em que vivemos e morremos, da qual nunca escapamos.
- A conclusão lógica: “porque toda a existência está presa em grilhões, também a nossa existência está. Porque a realidade está em vínculos, também nós estamos”.
- A explicação do significado para os gregos: estar preso em vínculos (“desma”, “peirata”) implicava estar aprisionado, indefeso, incapaz de escapar, um estado designado por “amechania” (desamparo, impotência).
- A referência à conexão linguística integral, exemplificada pela frase “peirat’ amechanies” (“os vínculos do desamparo”), usada para definir a condição humana na sua ineficácia essencial.
- A citação poética: “Os vínculos do desamparo, tão dolorosos, mantêm-nos no seu aperto. Tudo o que fazemos ou pensamos – nós, humanos que nada sabemos – é em vão, enquanto os deuses levam tudo à conclusão exatamente como têm em mente”.
- A síntese: a descrição da realidade pela deusa é inseparável da sua descrição da condição humana de “amechania”, do nosso desnorteio enquanto vagueamos presos e confusos nas nossas existências complicadas.
- A constatação de que duvidar desta ligação é um sinal de como complicamos as nossas vidas, pois “tudo o que ela diz está interligado”.
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A Liberdade na Consciência do Aprisionamento e a Viragem da “Metis”
- A afirmação de que “só existe uma realidade: a que nos rodeia”.
- A explicação de que o sentimento de desamparo ou aprisionamento surge porque a realidade está firmemente presa em vínculos, dos quais não há absolutamente nenhuma escapatória, pois toda a existência está aqui – em vínculos.
- A rejeição da realidade transcendental: não há para onde escapar, seja ao lado, ao outro lado do mundo ou ao encontrar uma deusa; permanecemos presos na existência, prisioneiros dos nossos pensamentos e sonhos.
- A descrição do impacto devastador de compreender verdadeiramente que estamos presos, que não há para onde ir, nem possibilidade de transcendência: “tira o chão a tudo o que outrora pensámos saber”.
- A confrontação com “os terrores da completude”, onde “não há nada para se tornar. Não há mais nada para esperar. A busca interminável acabou”.
- A exposição do grande truque da existência: “fazer-nos esquecer que estamos presos, porque então estamos irremediavelmente presos. Quando continuamos a acreditar que somos livres, isso é cativeiro”.
- A formulação do paradoxo central: “a maior liberdade de todas reside em saber, sem a menor margem para dúvidas, que se está preso, porque então a luta e a pretensão cessam”.
- A ponderação sobre a inutilidade de tomar consciência do aprisionamento se essa consciência nada alterasse.
- A introdução da solução: “a capacidade de prender e vincular com sucesso tinha um único nome – metis”.
- A explicação de que, para um perito em “metis” que está preso, a questão mais importante não é a possibilidade de escapar, mas sim a de “prender quem prende: virar a mesa, dirigir a força da entidade mais poderosa de volta contra si mesma”.
- A identificação do nosso maior problema como humanos: “estamos à mercê da realidade. Continuamos a perder-nos dentro dela; esquecemos como terminar o que foi começado, como ligar o princípio ao fim”.
- A proposta da solução prática: “tudo o que precisamos de fazer é voltar a nossa consciência, a cada momento, para a sua fonte”.
- A descrição do resultado: “basta o mais ligeiro movimento de consciência, o mais sutil movimento de awareness, e em vez de estarmos vinculados e desamparados, estamos a vincular quem nos vincula. Completámos o círculo, dentro e fora de nós mesmos”.
- A conclusão transformadora: “então os vínculos e limites da existência já não estão num lugar distante, nas bordas ilusórias do cosmos. Estão onde quer que estejamos. E somos absolutamente livres – não porque estamos livres de algo, mas porque contemos tudo, cada percepção e pensamento, dentro de nós mesmos”.
- A definição desta experiência como “a experiência da imobilidade total: mais requintada, mais plena, do que qualquer coisa sob o sol”.
- A observação final de que Parmenides nos deixa “mesmo no meio da nossa vida muito comum”, mas que, se algo foi compreendido, se percebe que “não há partida. Não há chegadas, nem partidas; nem despedidas. E decerto não há morte”.
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A Chave do Poema: A Ilusão como Feitiço e os Vínculos como Decepção
- A introdução da “chave que abre e fecha todo o poema de Parmenides”.
- A reformulação da questão essencial: “como as duas metades do seu ensino, a sobre a realidade e a sobre a decepção, se mantêm unidas”.
- A recordação das explicações anteriores sobre a ligação através de “metis” e da deusa que é misteriosamente duas e uma.
- A proposta de “uma resposta mais essencial”: a realidade é mantida por grilhões e vínculos, e nós vivemos num mundo de ilusão, e estes dois traços básicos da existência estão longe de não estar relacionados.
- A exposição da conexão linguística e cultural: na época de Parmenides, a ideia de vínculos e grilhões estava inseparavelmente ligada à noção de decepção.
- A afirmação de que “falar de ‘vincular’ pessoas era uma forma standard de dizer que se estava a enganá-las”, sendo expressões como “os grilhões da decepção” (“apates desma”) perfeitamente rotineiras.
- A ampliação do significado: “a linguagem do engano e a imagética do vínculo partilhavam um fator muito específico em comum. É que ambas eram as formas mais tradicionais de se referir a um feitiço de magia”.
- A explicação de que as palavras “vincular” e “vínculo” eram termos-chave para descrever procedimentos mágicos, quase intercambiáveis com “enfeitiçar” e “feitiço”, particularmente feitiços acompanhados de encantamentos.
- A análise do termo “enganadora” (“apatelos”) usado pela deusa: implicava muito mais do que duplicidade intelectual, sendo “apate” o termo normal para descrever os efeitos de um encanto mágico.
- A reinterpretação de “amechania”: o seu sentido literal, “sem um mecanismo” ou “sem um truque”, referia-se ao predicamento de alguém apanhado numa situação complicada e completamente ludibriado, sendo uma expressão comum para descrever o estado de alguém que foi enganado ou vítima de “apate”, e também de alguém que foi encantado e enfeitiçado.
- A conclusão sobre a linguagem de Parmenides: “a linguagem do desamparo, dos vínculos e do engano de Parmenides é perfeitamente consistente”.
- A síntese final das implicações: “a congruência, a harmonia, a integridade do seu poema como um todo é imaculada e completa”, remetendo até ao seu uso deliberado de repetição encantatória no início.
- A afirmação de que a solução do enigma é acessível e fácil de alcançar, mas que “o preço que temos de pagar por isso é pesado. É cada única ideia que prezamos, incluindo a realidade da nossa própria existência”.
- A advertência contra a rejeição desta dimensão mágica, pois sem ela seremos sempre “forasteiros do poema de Parmenides – vagueando, tal como ele descreve, perdidos num sonho”.
- A reflexão sobre a magia: “não é algo que ultrapassámos. Pelo contrário: até a nossa crença determinada na sua não-realidade é simplesmente um sinal de quão potente é a magia de que existimos na sua garra”.
- A crítica ao equívoco fundamental dos intelectuais: acreditar que Parmenides, ao descrever a realidade como imóvel e una, falava de um mundo diferente daquele em que vivemos.
- A reafirmação do monismo parmenidiano: “para ele não há outra realidade, nunca poderia haver. Essa realidade é esta. Só existe uma única existência, que é o mundo em que vivemos – rodeado pelos seus grilhões”.
- A formulação derradeira do paradoxo: “a realidade está presa em vínculos. Nós estamos presos em vínculos. A realidade é imóvel. Nós parecemos estar rodeados de movimento”. A razão para a não óbvia conexão é que “a existência está firmemente presa em vínculos”.
- A conclusão final: “as coisas de que Parmenides fala estão destinadas a soar ridículas para aqueles que vivem as suas vidas inteiras a mover-se encantados, cativados, acorrentados, num mundo de decepção. Pois as palavras-chave nas duas metades do seu poema – vínculo e decepção – são dois lados da mesma moeda. O que pode ser descrito do exterior como o vínculo da existência é experienciado, do interior, como isto: o mundo maravilhosamente encantador que vês e ouves à tua volta”.
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Zeno de Eleia: O Filho Adotivo e os Paradoxos como Destruição do Senso Comum
- A informação de que Parmenides teve um filho, o seu principal discípulo e sucessor, Zeno, que era seu filho adotivo.
- A contextualização de Parmenides na tradição sacerdotal de Apolo Oúlio em Velia, onde a sucessão se baseava na adoção de discípulos por parte dos professores.
- A caracterização de Zeno como “um bom filho para o seu pai”.
- A recordação da mensagem central de Parmenides: a realidade é total e completa, plenitude e simplicidade totais.
- A referência ao pormenor fundamental no poema de Parmenides, esquecido posteriormente: a impossibilidade de compreender a realidade sem antes tomar consciência das autocontradições das nossas crenças e ideias.
- O elogio a Zeno por não se ter esquecido disto, focando-se não na realidade, mas em argumentar que, partindo dos nossos pressupostos de senso comum, somos forçados a aceitar que não pode haver movimento, separação ou tempo para além do agora.
- A menção aos seus quarenta paradoxos, que continuam a fascinar e a preocupar filósofos e matemáticos.
- A descrição do paradoxo da seta: em cada momento da sua jornada, a seta ocupa um espaço equivalente a si mesma, estando, portanto, perfeitamente imóvel em cada instante.
- A descrição do paradoxo da dicotomia: para percorrer uma distância, é preciso primeiro atravessar metade, depois metade da metade, e assim ao infinito, nunca se chegando ao destino.
- A análise da reação instintiva de rejeitar os paradoxos como “falácias”, seja por apego ao senso comum, seja por uma busca sofisticada do seu erro sutil.
- A defesa de Zeno: ele não pretendia negar a infinita ingenuidade da inteligência humana, mas sim “negar a realidade deste mundo para o qual nos levantamos da cama todas as manhãs”.
- A reflexão sobre a natureza dos paradoxos: “algo que perturba as nossas percepções; viola as nossas opiniões aceites sobre como as coisas são”, sendo frágeis e belos.
- A descrição do seu paradoxo mais famoso, Aquiles e a tartaruga: o herói mais rápido nunca consegue alcançar a tartaruga mais lenta, pois sempre que chega ao ponto de onde ela partiu, ela já avançou.
- A observação crucial: “o corredor mais rápido nunca alcança o mais lento”, e para os gregos, o único fator capaz de tal proeza era a “metis” – a sutileza que reverte tudo.
- A conclusão sobre o objetivo de Zeno: “não estava apenas a realizar um truque engenhoso. Estava a revelar, com a sua metis, que todo este mundo em que acreditamos é uma ilusão”.
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A Morte de Zeno e a Natureza Sacra do Ensino de Parmenides
- A referência às muitas histórias sobre as mortes dos primeiros filósofos, frequentemente descartadas como ficções.
- A menção à narrativa mais detalhada sobre a morte de Zeno: torturado brutalmente ao ser apanhado a contrabandear armas de Velia para Lipara.
- A importância religiosa de Lipara para os gregos: uma ilha perto de atividade vulcânica dramática, ligada às forças do mundo inferior, inspirando imagética no Fédon de Platão.
- A descoberta arqueológica em 1978: evidências de laços estreitos entre Lipara e Velia, incluindo uma inscrição com a palavra “Oulis”, confirmando a veracidade da história.
- A incompreensão moderna da ideia de que Zeno morreu “testando o ensino do seu pai no fogo, como o ouro”, porque já não se compreende que “o ensino de Parmenides outrora era muito mais do que algo a ser usado para coçar a comichão nas nossas mentes”.
- A afirmação: “o seu poema, o seu ensino, era parte de uma tradição sagrada”.
- A interpretação de uma antiga menção à importância de viver “uma vida parmenidiana”, que só faz sentido quando se redescobre o poema como “um guia para a transformação”.
- A citação do texto antigo sobre o poder divino do engano, as opiniões humanas como seres vivos que nos ludibriam, e o nosso vaguear desamparado.
- A advertência do texto sobre o perigo de contactar com tal ensino: a abordagem com respeito conduz à sabedoria; sem ela, torna-se mais tolo, desperdiçando uma oportunidade extraordinária.
- A descrição do ensino como um enigma: “se perdermos a verdadeira solução, perdemos tudo. Acabamos, simplesmente, destruídos – ‘não de uma vez, como no caso de pessoas que morreram quando foram devoradas pela Esfinge, mas pouco a pouco ao longo de toda a vida’”.
- A definição do poema de Parmenides como “um grande enigma a reflectir o enigma da existência”.
- A conclusão prática: “se algo pode ser testado através da morte, então as probabilidades são de que vale a pena viver por isso”.
- A questão final: “seremos capazes de reconhecer o seu valor enquanto vivos, ou continuaremos a passar por ele?”.
- A menção ao outro enigma: o do esquecimento deste aspecto do ensino de Parmenides.
- A resposta: os atenienses, o povo que iria invadir Lipara, e a nossa idealização de Atenas, “a cidade que aprendemos a idealizar acima de tudo”, levaram ao esquecimento de outras culturas gregas importantes que resistiram à sua hegemonia.
- A caracterização final de Zeno: “com a sua cautela, ele claramente tinha um forte sentido do que estava por vir”.
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A Apropriação Platónica e o “Parricídio” Filosófico de Parmenides
- A afirmação de que Platão, em Atenas, “claramente tinha um forte sentido do que era importante”, impressionando-se profundamente com Parmenides.
- A ambição de Platão: “também quis a sucessão do ensino de Parmenides para si mesmo”, o que exigiu “alguns pequenos ajustes”.
- O contexto histórico: “escrever história e escrever ficção ainda não eram as duas coisas separadas em que parecem ter-se tornado”, permitindo a Platão moldar o passado através dos seus diálogos ficcionais.
- A estratégia de Platão para “eliminar” Zeno: “retratá-lo como imaturo e até comovemente apologético por ser imaturo: um homem obviamente indigno da sucessão”.
- A caracterização de Parmenides por Platão: “um homem idoso muito simpático de cabelos brancos que não só adora discutir minúcias infinitas como também gosta de se contradizer”, cedendo convenientemente às ideias de Platão.
- A constatação do poder desta ficção: “podemos achar extremamente difícil afastarmo-nos de tomar este retrato pela realidade”.
- A acusação central: “havia uma outra coisa que Platão percebeu que tinha de fazer se quisesse ter o seu caminho. Ele tinha de matar Parmenides, o ‘pai’”.
- A descrição do ato como um tabu: “nenhum assunto estava mais rodeado de tabu no tempo de Platão do que o parricídio”.
- O método do “crime ideal”: “através dos seus escritos ele foi capaz de realizar o assassinato sem parecer ser responsável por nada”, atribuindo a um personagem fictício, um visitante de Velia, a declaração da necessidade do ato.
- A justificação fictícia para o “parricídio”: o ensino de Parmenides colocou “um bloqueio de estrada em frente da mente”, negando a não-existência e prendendo a mente na realidade, paralisando-a e silenciando-a.
- A análise do génio de Platão: perceber que “a única maneira de a dominar seria ir com ela em vez de tentar pará-la, seria enganá-la para acreditar que realmente poderia fazer algo útil”.
- O mecanismo platônico: “trouxe a não-existência de novo pela porta dos fundos: para podermos dizer com segurança que mesmo que algo exista ‘num sentido’, não tem de existir noutro”.
- A consequência: “com este pequeno ‘num sentido’ – tão apelativo para a razão e para o que em breve seria conhecido como senso comum – a filosofia com que agora estamos familiarizados pôde vir a existir”.
- O objetivo de Platão: “começar a estruturar um mundo inteiro de separação, a começar a articular teoricamente o princípio da transcendência”.
- A metáfora: “fez isto de acordo com o mesmo princípio que usamos quando damos uma bola a um cão para o manter feliz”.
- O contraste entre os usos da lógica: para Parmenides, “a lógica é algo divino, um presente dos deuses”; Platão “pegou na lógica e colocou-a nas mãos de todos: encorajou as pessoas a pensar e a argumentar por si mesmas”.
- O balanço da conquista platônica: “foi um tremendo feito. Exigiu todo o tipo de distorções, falsificações, obscurecimentos”, aperfeiçoados por Aristóteles.
- O resultado positivo imediato: “através dos seus escritos Platão foi capaz de transmitir ensinamentos revelados, tradições, ideias, de uma forma que as tornaria não apenas acessíveis, mas também intrigantes para a mente”.
- A citação de um historiador: Platão “‘por um ato verdadeiramente criativo transpôs estas ideias definitivamente do plano da revelação para o plano da argumentação racional’”.
- O balanço final, após 2300 anos: “em todos esses anos as nossas mentes permitiram-nos fazer grandes coisas. Quanto à realidade, porém, e à alma, e a todas essas questões que Platão insistiu que mais importavam: não chegamos absolutamente a lado nenhum”.
- A conclusão contundente: “através das nossas mentes não conseguimos compreender uma única coisa”.
- O veredicto histórico: “o tempo para pensar e para raciocinar acabou agora. Eles cumpriram o seu propósito”.
- A chamada à ação: “já não é suficiente ler o que Platão ou outros dizem e ser inspirado, estimulado intelectualmente, emocionalmente tocado, agitado por um anseio pela realidade. A realidade está aqui, no meio da ilusão; esteve sempre, ansiando por ser reconhecida. Agora precisamos de nos tornar essa realidade, assumir a responsabilidade por ela, torná-la real outra vez”.