VIDE: SABEDORIA DOS PROFETAS; DA SABEDORIA DA INSPIRAÇÃO DIVINA NO VERBO DE SETH
A SABEDORIA DA EXPIRAÇÃO NO VERBO DE SETH
Este capítulo trata de dois tópicos principais, do doação divina e das respectivas funções do Selo dos Santos e do Selo dos Apóstolos. Em conexão com o primeiro desses tópicos, Ibn Arabi toca também no assunto da latência e da predisposição e da possibilidade de se conhecer a própria predisposição.
Na primeira parte do capítulo ele trata da questão da doação divina e do favor. Ele divide a doação divina de várias maneiras e discute toda a relação entre o pedido e a doação em resposta a um pedido, quer proferido ou implícito.
Este primeiro tópico do capítulo fornece, talvez, uma pista para o título do capítulo, A Sabedoria da Expiração no Verbo de Seth. A palavra árabe usada para «expiração» é da raiz nafakha, que significa literalmente «soprar». Ora, o dom divino por excelência é o da própria existência, cuja realização está intimamente relacionada ao conceito de Ibn Arabi da Misericórdia criadora, cuja criatividade é frequentemente denominada o Sopro do Misericordioso [nafas al-rahman]. Em outras palavras, o sopro referido no título é precisamente essa projeção que sai inspirada pelo desejo divino de autoconsciência que, do ponto de vista da existência criada, é o ato supremo de doação e generosidade divina, sendo todos os outros dons particulares de Deus aspectos desse dom original da existência, uma vez que cada dom particular a uma criatura particular serve apenas para confirmar esse pacto ontológico pelo qual Deus afirma a significação ontológica do Cosmos. É o dom universal do devir que é o dom da Essência, enquanto o dom dos Nomes é a manifestação particular desse supremo auto-dom de Deus. Ibn Arabi retorna a este tema no capítulo sobre o Profeta Davi.
Como já mencionado, essa noção de doação divina está intimamente relacionada por Ibn Arabi ao conceito de predisposição latente em divinis. Isso significa que a qualidade e a natureza da existência de alguém como criatura, em geral e em detalhe, podem ser nada mais ou nada menos do que aquilo que ela está eternamente predisposta a ser em sua essência latente. Além disso, não apenas o dom ou a resposta, mas também o ato de fazer o pedido em si, é determinado pela predisposição latente de o fazer.
A consciência ou o conhecimento do que se está disposto a ser in aeternis é, para Ibn Arabi, uma parte essencial do que ele chama ma’rifah ou gnose, uma vez que envolve o conhecimento de si mesmo que é, ao mesmo tempo, conhecimento da Realidade divina da qual o ser é, latente e essencialmente, inescapavelmente um aspecto, que é o sentido do dito «Quem se conhece a si mesmo, conhece seu Senhor.» A gnose, segundo o autor, não é o saber adquirido do aprendizado profano, mas sim, como a raiz árabe sugere, um reconhecimento e uma compreensão imediatos não de algo novo ou estranho, mas sim do estado e do status das coisas como elas realmente são, sempre foram e eternamente serão, cujo conhecimento é inato no homem, mas depois coberto e obscurecido pela ignorância espiritual encorajada pela preocupação com dados efêmeros e parciais.
É precisamente essa gnose, que é potencial em toda a humanidade, que é a herança espiritual realizada dos santos, profetas e apóstolos, e particularmente do próprio Selo. Com efeito, é a cognição normativa do Homem Perfeito que percebe toda diferença e identidade em termos da Realidade, além da qual nada é ou existe.
Ibn Arabi conclui este capítulo com uma curiosa predição sobre o destino do homem tal como definido em seus ensinamentos. Ele diz que o último verdadeiro humano, na linha de Seth, nascerá na China e que ele terá uma irmã mais velha. Ele continua a profetizar que, a partir de então, os homens se tornarão como bestas, despojados de espírito e de lei, até a chegada da Hora. Assim, ele indica que essa síntese humana particular de espírito e natureza, da qual todos nós fazemos parte, chegará a um fim e o elo será quebrado.