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Filosofia
Sérgio Fernandes: Filosofia e Consciência
Proponho-lhe, caro amigo desconhecido, que a Filosofia — a verdadeira Filosofia — exercite-se no domínio do Sagrado, que é aquele domínio geral da atividade humana em que o simbólico é Arcano, ou seja, não se presta, sob pena de infidelidade ao Ser, a "hermenêuticas do sentido", mas, ao contrário, a "interpretações como testemunho". Vamos passear mais um pouco, você e eu, juntos.
Há quem pense que o Sagrado é um "valor", por oposição ao "profano". Mas tomar o Sagrado axiologicamente é, de um modo ou de outro, limitá-lo, por subordiná-lo à nossa concepção de "valor", além de restringir, pela oposição ao "profano", seu domínio, à Religião e à experiência religiosa. Estas, quando autênticas, têm, realmente, três dimensões, uma das quais é o Sagrado. As outras duas são a mística e a profética. Não há Religião sem essas três dimensões, embora uma delas possa estar mais enfatizada que as outras, assim como não há sólido sem largura, altura e profundidade, ou não há triângulo sem três lados, embora um deles possa ser muito menor que os outros dois. E mais: ainda que claramente distinguíveis, essas dimensões se interpenetram, de modo que há o sagrado e o profético na mística; o místico e o profético no sagrado; e o sagrado e o místico no profético. Não só não há Religião sem as três, mas também não há cada uma das três sem as outras duas.
A dimensão da mística é a da união; seu "sentido espiritual" é o tato — aquela experiência cuja outras características, como a cor etc., só nos poderão ser dadas pela gnose. A união não se restringe, como dimensão, às religiões em que Aquilo com que nos unimos seja concebido como um Outro. Sendo todo o "voltar-se para" Aquilo com que nos unimos ontologicamente equivalente ao "voltar-se dAquilo para nós", haverá união, ou haverá o que unir, ainda que "Aquilo" seja concebido, não como um Outro, mas como "Nossa Verdadeira Natureza" (Tathagata). É a ponte dessa concomitância que dá ao contraste entre o Eu e o Tu sua verdadeira condição de Mistério, e à união em si seu caráter profundamente escuro, noturno; pois é aí o intelecto que se ofusca pela presença da Luz. A "noite escura" corresponde, caro amigo, ao Sol da Meia Noite, ou casamento alquímico do Sol e da Lua.
Já a dimensão profética é a da escuta; seu "sentido espiritual" é a audição — aquela experiência que eventualmente "precipita" a palavra, ou a Escritura. Sua condição absoluta é o silêncio, que há de estender-se para além de todo "conflito de interpretações". Pois a gnose não se restringe, seja à dispersão da mensagem em Escrituras concêntricas — o que gera, como no Ocidente, as dogmáticas e as "pertenças"- , seja à concentração da mensagem em Escrituras dispersas — o que gera, como no Oriente, a excentricidade dos cânones. A condição absoluta do Silêncio dá, na verdade, ao contraste dispersão-concentração, sua verdadeira condição de Arcano, assim como a "condição da concomitância" ou a "equivalência ontológica", a que me referi acima, dá ao contraste entre o Eu e o Tu, sua condição de Mistério. Se a mística é fonte de Vida, o profético é fonte de Verdade.
No entanto, caro amigo desconhecido, o Sagrado, e só o Sagrado, põe-nos a Caminho. E aqui está o que nos interessa em Filosofia. Pois a dimensão sagrada é a dimensão, já não exclusiva da Religião, mas de toda a atividade humana, em que o Arcano não se limita à gnose, mas ultrapassa-a pelo "testemunho", ou seja, pela ação. O "sentido espiritual" do Sagrado é a visão — aquela experiência que, longe de ser "contemplativa" no (errôneo) sentido passivo, torna a ação inerente à compreensão, na harmonia da espontaneidade. Esta dimensão, ao contrário de ser apenas uma dimensão da Religião, é também, por exemplo, a dimensão precípua da Arte, e de toda atividade humana em que se ultrapassa o "segredo", ou o simbólico como veladura de sentido, em direção à ação que não é reação. Enquanto o profético é ainda o Arcano do sentido, o Sagrado é o Arcano da ação, ou concentração sem esforço — magia espontânea, vida como obra de arte, em que fazer é dizer, e dizer é fazer, no desaparecimento completo da possibilidade de se destacar o conteúdo para examiná-lo "nos seus méritos intrínsecos".
Eis o que é comum à Arte e à Filosofia, além de ser em geral mal compreendido na Religião. No Sagrado, como Arcano, o que vela, revela, pelo próprio ato de velar; e o que revela, vela, pelo próprio ato de revelar. Não se trata de uma ambiguidade "hermenêutica", mas "estrutural". Assim como na Arte o tornar sensível é um fazer eterno, na Filosofia, o tornar articulado é um fazer silêncio. É por isso que a Filosofia não é mística, nem profética, mas sagrada. Assim como, num extremo, segredos escondem, ou são decifrados, no outro extremo, mistérios tudo revelam, embora não possam ser conhecidos, mas somente vividos. Entre esses dois extremos, o arcano esconde ao revelar, e revela ao esconder. Enquanto o segredo nos convida à reação, a mística à vivência, e o profético à interpretação, a Arte e a Filosofia transformam o mundo, ao invés de apenas "pensá-lo". De modo que será assim, liberta da hermenêutica e de Escrituras transmitidas sem as "chaves", que a Filosofia poderá responder à famosa crítica. Mas isso exige uma postura de guerreiro, não de comerciante. Ambos têm muito a ganhar, e a perder. Mas o primeiro terá a arete, ou coragem de tudo arriscar a cada momento, pela qualidade e pela intensidade da atenção exigida para o conhecimento de si mesmo. É isto que significa, na Filosofia, o que comumente se entende por "sagrado": a manifestação ou presença "sensível" do divino, que se torna acessível à percepção, aos sentidos, nas coisas, nos lugares, nos rituais e nas liturgias.