Contribuição e tradução de Antonio Carneiro do Capítulo VIII — páginas 205-213
O fundamento dogmático do ícone
O Concílio VII formulou o Cânone que determina a veneração do ícone. As precisões dogmáticas estão dispersas nos ensinamentos dos Padres e se emanam principalmente do mesmo ícone, de sua evidência luminosa, de sua vida prodigiosa na qual se pode seguir passo a passo o dinamismo da Tradição. Ela é o lugar em que Cristo, mediante diversos elementos da vida da Igreja (liturgia, sacramentos, patrística, ícone), comenta suas próprias palavras.
“Martyrum signum est maxime caritatis”. O mesmo ícone é martírio e traz as pegadas de um batismo de sangue e fogo. O sangue dos mártires se misturou com as partes dos ícones, salpicados pela luz, durante a perseguição encarniçada exercida pelos iconoclastas. O patriarca Germano deposto declara retirando seu pálio1 : “sem a autoridade de um Concílio, tu não podes, “basileus”2 , mudar nada da fé”. O papa Gregório II disse por sua vez à Leão o Isáurico: “os dogmas da Igreja não são assunto teu... abandona tuas loucuras”. No caso do ícone, não se trata de simples ilustrações. Unidos então na mesma Tradição, o Oriente e o Ocidente se levantaram juntos contra a heresia, pois, tocando o ícone, se tocava também o dogma, se socavava toda a economia da salvação. As venerações do Evangelho, da Cruz e do Ícone, formam um todo com o mistério litúrgico da presença que a Igreja proclama desde o fundo do cálice. “Nossa doutrina está de acordo com a eucaristia, e a eucaristia a confirma”, disse São Irineu.
Se toda arte digna desse nome não pretende nunca duplicar o real mas sim que aspira a revelar seu sentido, a decifrar sua mensagem secreta, a captar seu logos, a sugerir a vocação mais alta das liberdades que o animam, a iconografia, em seu topo, surge claramente da pneumatologia. Por isso São João Damasceno atribui ao ícone a presença do Espírito Santo3 .
“A vida estava em Ele” disse o prólogo do Evangelho de São João (1,4). O Espírito — a Vida — desde a eternidade era interior ao Verbo. No momento da Epifania, desce do céu feito uma Pomba e se detém, pousa-se sobre Jesus. Em suas aparições, é um movimento “em direção a Jesus”, em direção ao Cordeiro, a fim de fazer manifestar sua divindade. “Situa-se atrás”, em Cristo, para anunciá-lo “para frente”, seu alento leva a palavra de Cristo, a faz audível, a amplifica, confere-lhe respiração de vida e dimensão escatológica: “Bebendo na fonte do Espírito, bebemos a Cristo”4 , diz admiravelmente São Atanásio. O Espírito nos introduz em Cristo e em Cristo é onde encontramos plenamente o Espírito e somos “inspirados” por Ele para captar o sentido último da Gordon Estado Primordial.
A ação santificadora do espírito condiciona todo ato no qual o espiritual toma corpo, encarna-se, faz-se “cristofania”, manifestação de Cristo. Assim, o espírito “incubava” o abismo para fazer surgir dele o mundo, lugar da Encarnação. Pela boca dos profetas, todo Antigo Testamento é o Pentecostes preliminar com vistas ao Advento da Virgem e de seu “fiat”. O Espírito desce sobre Maria e faz d’Ela a “Theotokos”, de Jesus faz Cristo-Ungido e revela n’Ele “ao Cordeiro imolado desde a fundação do mundo”. Das suas línguas de fogo nasce a Igreja, Corpo de Cristo. De um batizado, faz um membro de Cristo, do vinho e do pão, o sangue e o corpo do Senhor; Iconógrafo divino, faz o ícone “não feito por mão humana”, a Santa Face, e desse Arquétipo vem todos os ícones feitos com as formas deste mundo e com a luz tabórica.5
A teologia dos Padres mostra a importância excepcional da “epiklesis” que ultrapassa o plano litúrgico da eucaristia, se universaliza e faz ver no Espírito o poder divino da revelação e da manifestação do invisível. É Ele quem pronuncia em nós, conosco: “Abba”, “Pai”, para deixar-nos suplicar: Abba Pai, envia teu Espírito Santo para que possamos contemplar seu rosto e por meio de sua humanidade deificada, “tocha de cristal”, ver a “Hypostasis do Deus Homem”.
O dia de Pentecostes, o Espírito Santo volta-se ativo dentro da natureza e se estabelece como “fato interior” do ser humano, se faz o co-sujeito de nossa vida em Cristo, mais íntimo que nós mesmos. “Pelo espírito Santo toda criação se renova em sua condição primeira”6 , em sua verdade inicial e última, a qual faz ver na Igreja o ícone da unidade diversa da Trindade, e em todo homem um ícone vivo, imagem de Deus.
NOTAS:
De Imaginibus orationes. 1,19.
L'image attire notre vénération et notre prière à qui en mérite l'hommage : au Christ roi, aux princes de sa milice, aux plus vaillants de ses soldats, qui sont les Saints ; car c'est justice qu'en tout triomphe, le roi partage avec son armée ses honneurs (Damasc., De Imaginibus, I, 19-21)
Diante desta nota não consegui evitar de mencionar esta passagem da mesma obra:
« Arrière, Satan et ton envie, qui ne peut souffrir de nous laisser voir l'image de notre Seigneur et nous sanctifier dans cette vue ; tu ne veux pas que nous contemplions ses souffrances salutaires, que nous admirions sa condescendance, que nous ayons le spectacle de ses miracles pour en prendre occasion de connaître et de louer la puissance de sa divinité. Envieux des Saints et des honneurs qu'ils tiennent de Dieu, tu ne veux pas que nous ayons sous les yeux leur gloire, de crainte que cette vue ne nous excite à imiter leur courage et leur foi ; tu ne supportes pas le secours qui provient à nos corps et à nos âmes de la confiance que nous mettons en eux. Nous ne te suivrons point, démon jaloux, ennemi des hommes . » (Damasc., De Imaginibus, III, 3)
Sobre este tema vide : Palamas y la Luz Tabórica — Ext. de "Mefistófeles y el Andrógino," Barcelona, Labor, 1984. — Mircea Eliade.
In: http://www.fatheralexander.org/booklets/spanish/servicio_transfiguracion.htm
In: Vladimir Lossky, "La théologie de la lumière chez Saint Grégoire Palamas de Thessalonique": "Dieu Vivant," I (1945), pp. 93-118, esp. p. 107. Cf. também, pelo mesmo autor, "Essai sur la théoIogie de l'Eglise d'Orient," París, 1944, esp. pp. 214 e seguintes. Vide Zolla Misticismo Acustica, "Saint Gregoire Palamas et la mystique orthodoxe," París, 1959, pp. 86 y ss.