VIDE: FAZER EM SEGREDO
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 14
Quanto à esmola, o sentido estritamente espiritual em que se inscreve o logion a afasta de ser uma das três "práticas de justiça". A recomendação de Jesus: "Vendei o que possuís, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não envelheçam; tesouro nos céus que jamais acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói." (Lc 12,33), não vem para glorificar a prática da esmola mas para sublinhar o valor decisivo que guarda o "não-possuir", o "não-ser-nada", até alcançar o grau total de indigência por negação de si mesmo. A esmola nada mais é que índice do grau relativo de desprendimento, mas não há negação completa enquanto permanece alguma posse que entregar como esmola. O que pede Jesus aos que o seguem é que culminem essa difícil transferência da consciência por meio da qual é esta conduzido desde esta transitória envoltura de palha intelectiva e barro que cremos ser, à desnudez pura do homem pneumático — o Filho do homem — que realmente somos.
É nesta "vacuidade", ou dissipação na consciência das vestimentas superpostas, onde Jesus vê a perfeição. Por isso, à limpeza à qual o fariseu submete sua fonte e seu cálice, opõe Jesus a purificação — essencialização do "conteúdo" com estas palavras: Dai, porém, de esmola o que está dentro do copo e do prato, e eis que todas as coisas vos serão limpas. (Lc 11,41) Pois é neste "dar", neste deixar de ser "o-que-se-crer-ser" onde Jesus vê a purificação ou o caminho perfeito. Neste propósito chega Jesus a exigir a "vacuidade" (a humildade real) quando diz: "Quem achar a sua vida perde-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim acha-la-á." (Mt 10,29)
Em sua condição de rico (do espírito, da psyche, ou da matéria), o que dá esmola "danifica a seu espírito" enquanto esta é prova de que algo permanece nele que não cessou de ser. Em isto se diferencia da nudez pura daqueles "pobres de espírito" a quem o evangelho profetiza decididamente a bem-aventurança pelo mérito de haver prescindido de qualquer outra posse que não fosse do reino de Deus.
- Então, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. (Lc 6,20)
- Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. (Mt 5,3)
QUARESMA
A esmola deriva do jejum, é a segunda das obrigações da Quaresma, e pode fazer as vezes dele (S 209, 2). Quem por motivo de saúde não pode jejuar, quem por motivo de pobreza não pode dar, tem sempre a possibilidade de fazer esmola já que «esmola significa em grego misericórdia» (S 207, 1). Portanto: «A quem jejua, o jejum sem misericórdia, não lhe serve de nada» (ibid.), porque o mais importante é sempre o jejum do coração, a esmola da bondade (S 205, 3; 206, 2, 3; 207, 3; 208, 2; 210, 12; De utilitate jejunii 7).
Para este jejum e para esta esmola, não há escusa possível, pois não é questão de tomar do celeiro nem de abrir a bolsa (S 207, 3). «Quem é que se atreveria a dizer: Não perdoei por falta de saúde, não perdoei por falta de meios? (S 210, 12). É necessário evitar a ira, é preciso até adoçar a severidade» (S 208, 1) como diz Isaías 57, 3-5; 58, 4-5. «Será, pois, repelido do teu jejum, se fores duro com o teu escravo; como é que há-de ser aceite se não perdoares ao teu irmão? (De utilitate jejunii 7). Repetem-se em cada sermão, para lembrar o perdão das ofensas, os versículos de S. Lucas, 7, 37, e os de S. Mateus 6, 12. A imperiosa necessidade da misericórdia é o assunto de todo o sermão 211, que escolhemos para editar (v. Páscoa).