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id da página: 8588 SUFISMO DANÇA

DERVIXES RODOPIANTES

SUFISMODANÇA — DERVIXES RODOPIANTES



VIDE: RUMI

Excertos de La Danse extatique en Islam, de Marijan Molé; tradução e notas de Antonio Carneiro

As polêmicas em torno da dança e da música não se ocupam das reuniões mundanas das quais falamos — seus caráteres repreensíveis são de antemão estabelecidos — nem dos regozijamentos que acompanham grandes acontecimentos da vida, como o casamento, que são, mais ou menos, tacitamente permitidos. Têm por objeto as reuniões de congregações sufistas graças às quais a dança adquiriu, não somente “direito de cidade”1 em alguns círculos religiosos islâmicos, mas, ainda, um caráter sagrado, até mesmo, a rigor, litúrgico.

O quadro é dado pelas sessões dos dervixes. Alguns dias da semana, que variam segundo os lugares, todos os irmãos se reúnem no claustro na hora da oração ritual para o realizar em comum. Após a oração, sentam-se em círculos concêntricos para o dhikr (menção), que consiste na repetição, seja de um nome de Deus, seja de uma curta sentença, de preferência a primeira parte da profissão de fé, « Não existe deus senão Deus. » As modalidades ou dhikr variam segundo as congregações; muito frequente, a recitação é acompanhada de exercícios respiratórios ou de movimentos determinados do corpo e dos membros. O dhikr começa por ser silencioso; algumas congregações não admitem nenhum outro. Por hábito, entretanto, a recitação torna-se comum e começa a provocar o êxtase. Após — ou antes — do dhikr, se lê algumas passagens do Corão, das tradições proféticas, dos extratos de obras de grandes mestres do passado; frequentemente, esta leitura é acompanhada de sermões explicativos. Então vem a última parte da sessão, aquela que nos concerne mais diretamente aqui, o samâ (dança mística ritual, vide: samâ), « audição ». Trata-se da recitação de poesias por um dos irmãos, ou mesmo por um recitador especialmente pago. A recitação comporta o canto, o que é evidente, e é às vezes acompanhada de música. Entrando em êxtase pelo samâ, os dervixes se levantam de seus lugares e se põem a dançar. Na origem, esta dança pode ter um caráter passional inteiramente espontâneo; e é sobre ele que insistem os textos. Pouco a pouco, entretanto, cada ordem dava às suas sessões formas específicas. Isso vale notadamente para os Mawlawis de Konya, os célebres « dervixes rodopiantes » entre os que a dança tem un caráter propriamente litúrgico, e, igualmente, para os Isâwîya (« Aïssawa ») do Marrocos. O samâ é acompanhado algumas vezes por outras práticas: em primeiro lugar da contemplação de um jovem rapaz que deve facilitar a aparição do êxtase. Trata-se de uma prática onde os adversários dos sufistas os acusam muito frequentemente e que, em compensação, não é mencionada senão muito pouco nos escritos sufistas, e ainda assim em termos reprovativos. Outro uso é de facilitar o êxtase por meio de narcóticos, haxixe, ópio ou café; aqui ainda a polêmica anti-sufista é mais rica em esclarecimentos que a literatura sufista. De uma maneira geral, o uso de estupefacientes é muito mais divulgado nas formas populares do dervixismo que no sufismo clássico. A dança durante o samâ é às vezes acompanhada por outros meios de manifestar sua emoção, tais a dilaceração das roupas ou pelo menos, o uso de jogar por terra seu manto ou sua túnica (khirqah, froc no texto em francês)2

A cerimônia termina com uma oração em comum, notadamente uma prece para os defuntos da ordem e para outros personagens religiosos importantes: o Profeta e os quatro califas ortodoxos, os doze imames da santa Família (esses últimos eram somente mencionados nas congregações xiitas), os soberanos, etc.

Tal é o esquema clássico da sessão adotado com mais ou com menos variantes pelas congregações. Essas variantes concernem ao dhikr e ao samâ, que devem ser cuidadosamente distinguidas, se bem que exista certa correlação entre elas e que a polêmica anti-sufista confunda muito frequentemente o samâ e o dhikr público. Em geral, as congregações que admitem o dhikr em voz alta em comum admitem igualmente o samâ. A rigor, uma ordem como a dos Naqshbandis não admite nem um nem outro; e, na época antiga, reprovavam até o dhikr silencioso em comum. Com motivo mais forte ainda, não era concebível entre eles o samâ ou a dança. Em nossos dias, os Dhahabis de Chiraz, e algumas outras ordens xiitas, fazem sessões do dhikr silencioso em comum que terminam com uma espécie de samâ onde se recita alguns poemas sem acompanhamento de música nem dança. Outras ordens, enfim, praticam tanto o dhikr público quanto a música e a dança. É necessário mencionar ainda as ordens entre as quais o samâ está subordinado ao dhikr e onde os cantos tem lugar, enquanto que a maioria dos dervixes faz o dhikr. É o caso dos Daifîya e dos Châdhilîya de Alexandria descritos por M. Meier; aquele dos Dhaha-bîya de Chiraz é análogo no sentido que a recitação das poesias começa enquanto os irmãos estão ocupados com a leitura silenciosa do Nobre Alcorão.


NOTAS:
1 NT: “droit de cité” no texto em francês. É um termo de direito civil que define diversos direitos cívicos, significa que pessoas itinerantes possam ter direito à cidadania e direito de ocupar o espaço público.
2 Deixar cair o manto, à exemplo do que aconteceu com o Profeta quando deu seu manto à Ka‘b ibn Zuhayr que acabava de pronunciar a profissão de fé (shahadah), é então o sinal de partilha desta experiência. Quando um dervixe joga sua túnica (khirqah, froc em francês:) ou outra coisa, esses objetos tornam-se propriedade dos dervixes que dançam no mesmo lugar. Pode-se entender que aí tem um sinal muito forte, simbólico, da participação da mesma experiência comum: o que se dá é para todos os que aí tomaram parte. A experiência do sam⠗ pode-se dizer — é uma embriaguez comunicativa através do êxtase suscitado pela escuta espiritual. In: Écrire le corps dansant au XVIIe siècle: Ismâ‘îl Rusûkhî Anqaravî, Fabio Ambrosio § 24 — Le samâ dans le Minhâj’ul- fuqarâ.